Enquanto as passarelas de Paris tentam nos convencer, temporada após temporada, de que a elegância reside no “Luxury Minimal” (uma cartela de beges, cinzas, alfaiataria, ternos, bla-bla-bla…), o Brasil sorri de volta com a boca pintada de vermelho, o brincão de argola dourada e as fitas do Senhor do Bonfim nos pulsos.
Odiamos admitir para a elite colonizada, mas é hora de abraçar a verdade sem ironia: a nossa verdadeira identidade de luxo é a cafonice. E que sorte a nossa!
Ser cafona no Brasil não é um erro de cálculo, é uma herança multicultural. O antropólogo Darcy Ribeiro, em sua obra fundamental “O Povo Brasileiro”, já diagnosticava que a nossa nação surgiu de uma confluência brutal e mágica. Somos um povo forjado na colisão de culturas afro, italiana, espanhola, alemã, holandesa e japonesa.
A matemática dessa mistura não resulta no minimalismo escandinavo; ela deságua no transbordamento. Odiar o nosso excesso é, no fundo, rejeitar a nossa própria formação.

Há uma assepsia visual nos países frios que, muitas vezes, é vendida ao resto do mundo como o ápice do bom gosto. Contudo, essa estética do “Quiet Luxury” reflete sociedades marcadas pela contenção, pela escassez histórica de luz solar e por um puritanismo que teme o corpo. Nós somos o contraponto absoluto a essa chatice.
O poeta Oswald de Andrade, com o seu Manifesto Antropofágico de 1928, já nos ensinava a devorar a cultura europeia e misturá-la com as nossas cores. O nosso “bom gosto” é antropofágico. Nós não copiamos o terno cinza; nós o recosturamos com chita, com brilho e com a vibração de um país tropical.

Como exigir silêncio visual de um povo que tem o Carnaval como sua maior e inigualável festa popular, onde os monumentais Bonecos de Olinda desfilam sua alegria desproporcional pelas ladeiras históricas?
O sociólogo Roberto DaMatta, ao estudar o Carnaval, apontou que essa é a manifestação onde o brasileiro suspende as regras duras da realidade para viver a fantasia absoluta. Nossas referências de beleza nascem no volume das alegorias, na profusão de penas, paetês e no brilho suado de quem entende que o corpo é uma festa.
Nossa elegância de inverno não é um casaco de lã fechado até o pescoço; é a subversão colorida, o xadrez anárquico e as fitas vibrantes de uma Festa Junina. O intelectual Ariano Suassuna sempre defendeu que a arte brasileira verdadeira está na rua, no popular, no circo e nas festas de padroeira.

Nosso luxo é democrático e se manifesta nas praias lotadas no domingo, onde o chique é compartilhar o frango assado com a família na areia, sem se importar com etiquetas importadas.
Dentro de casa, a nossa “cafonice” é o que nos protege do vazio. É o pinguim de geladeira guardando a cozinha, as indefectíveis capas de crochê que “vestem” do botijão de gás ao liquidificador, as fruteiras de centro de mesa com uvas de plástico e bananas de cera que insistem em brilhar e o filtro de barro (eleito o melhor purificador do mundo) na pia. Na geladeira, o delicioso pudim de leite condensado divide espaço com prateleiras lotadas de cerveja e a carne do churrasco para o final de semana!

Nas salas, os quadros de ‘nascimento de Vênus’ ou da ‘A Última Ceia’ em efeito 3D, que competem a explosão de cores do Romero Britto, a estante de mogno comporta a bomboniere de cristal, troféus de campeonatos de várzea, álbuns de fotografia da última viagem para a Disney, os porta-retratos de todos os tamanhos, com fotos da família em diferentes fases da vida.

Ao mesmo tempo, na arquitetura das novas mansões da classe média alta, a cafonice assume sua faceta ostentação: fachadas adornadas com imponentes colunas gregas, portas gigantescas que desafiam a escala humana e, claro, o mega lustre de cascatas de cristal estrategicamente posicionado na janela para que todos na rua saibam que ali reside o sucesso, brilhante e exagerado. Ah, sim… E um belíssimo carro híbrido parcelado em 200 vezes!
Ou seja, o brasileiro não decora para as revistas. Ele decora para o vizinho e para os amigos. É a estética que diz: “Eu conquistei isso!”.

Se a Europa tem seus ícones austeros, nós tivemos e temos figuras geniais, que usaram e usam o excesso como armadura, identidade e manifesto:
Carmen Miranda: A personificação pioneira da nossa antropofagia estética. Mesmo nascida em Portugal, foi a primeira mulher vinda do Brasil a conquistar Hollywood e ganhar um milhão de dólares na Broadway. Ela transformou o que poderia ser visto como exótico em um símbolo de poder global, equilibrando com maestria um cesto de frutas tropicais na cabeça e sapatos plataforma. Carmen provou que o exagero brasileiro era exportável e valioso.
Chacrinha: O mestre que entendeu que a comunicação brasileira precisava do caos visual, da buzina, do abacaxi e do brilho. Ele fez do palco um banquete tropicalista, dialogando diretamente com a Tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil, provando que a desordem visual é uma forma genial de se comunicar com a massa.
Elke Maravilha: Uma mulher de inteligência cortante e poliglota que escolheu, deliberadamente, chocar a sociedade com botas plataformas, perucas gigantes e maquiagem teatral. Elke provou que o maximalismo é, antes de tudo, um ato de extrema intelectualidade e libertação contra o machismo e o conservadorismo.
Hebe Camargo: A mestra das mestras. Enquanto a crítica de modos exigia discrição, Hebe sentava em seu sofá ostentando joias colossais, vestidos bordados e com enormes ombreiras! Ela esfregava o luxo, o brilho e a alegria de viver na tela da TV sem pedir desculpas, blindada contra qualquer julgamento elitista.
Secos & Molhados e Ney Matogrosso: O grupo que quebrou todas as regras de gênero e estética nos anos 70. Eles nos apresentaram o genial e ousado Ney Matogrosso, que fez do palco um ritual de pura sensualidade e liberdade. Com plumas, adereços e aquela maquiagem transgressora que marcou época — em paralelo ao espetáculo visual que o Kiss popularizaria internacionalmente —, Ney provou que a nossa música é, antes de tudo, uma explosão de corpo e cor.
Rita Lee: A inigualável roqueira e padroeira da nossa liberdade. Dona do mais completo manual de hits de sucesso por cinco décadas, Rita sempre fez da sua imagem uma obra de arte vibrante. Cabelos vermelhos flamejantes, óculos gigantes, roupas espaciais e fantasias teatrais: ela nos ensinou que o rock não precisava vestir couro preto e ser mal-humorado, ele podia e devia ser colorido, irônico e descaradamente extravagante.
As Vilãs das Novelas Globais: O que seria da nossa dramaturgia sem o figurino over e a maquiagem carregada das nossas vilãs? De Odete Roitman a Carminha, passando por Nazaré Tedesco, essas personagens são idolatradas por todas as gerações não apenas por suas maldades, mas por seu estilo exagerado, suas joias nababescas e suas falas dramáticas. Elas são o luxo da transgressão estética na TV.

Assumir a nossa cafonice é um ato de consciência social. Quando a elite da moda dita que o chique é o “limpo” e o “discreto”, ela está, indiretamente, marginalizando a estética das periferias, dos terreiros, das festas populares e da população LGBTQIAPN+ (que sempre usou o brilho e o exagero como forma de existir e resistir).
Hoje, estilistas brasileiros e criadores das periferias seguem provando que o luxo nacional continua sendo exuberante, barulhento e emocional — exatamente como o país que o produz.
O minimalismo muitas vezes esconde o medo de ser visto. A cafonice brasileira, por outro lado, é a coragem de ser inesquecível. Se o conceito moderno de luxo está atrelado àquilo que é autêntico, raro e cheio de identidade, então sim: nós somos cafonas. E com muito luxo!
O menos não é mais. Em um país banhado por sol e cultura, o menos é apenas falta de imaginação.
