Como se Ganha o Oscar de Melhor Filme?

Para entender por que o Oscar de Melhor Filme é a única categoria “imprevisível” da noite, você precisa esquecer a lógica das outras categorias.
Enquanto em Melhor Diretor, Ator, Atriz, Fotografia, etc. quem tem mais votos leva (Voto Simples), em Melhor Filme vence o Consenso.
Em 2026, com 10.136 membros votantes (81% de brancos/tradicionais – que buscam prestígio e 30% internacionais/diversos – que buscam inovação), a matemática do Voto Preferencial (Ranked Choice Voting) atinge seu ápice de complexidade.
Eles não escolhem um vencedor único: montam um ranking de 1º a 10º lugar.
É assim:
• A Primeira Opção: Se um filme tiver mais de 50% dos votos de 1º lugar de cara, ele ganha.
• O Efeito Dominó: Se ninguém atingir a maioria, o filme com menos votos de 1º lugar é eliminado. Seus votos são “transferidos” para quem aqueles eleitores escolheram como 2ª opção.
• A Vitória do Meio: O processo se repete até que alguém atinja a maioria absoluta.
• A Lógica Fria: Este sistema pune filmes “Ame ou Odeie” e premia o filme que é o “denominador comum”. Para ganhar, um filme precisa ser a 2ª ou 3ª opção de quase todo mundo.

A Matemática do Oscar de Melhor Filme @ Gemini

Exemplos:

Aqui está o detalhamento matemático de como o consenso derrotou o favoritismo nos três casos mais emblemáticos da última década:

CODA: O Milagre da Curva de Ascensão (2022)

Coda – No Ritmo do Coração @ divulgação

O caso de No Ritmo do Coração (CODA) é a aula definitiva de como um filme “pequeno” vence o “gigante”.
O Cenário: O Ataque dos Cães (Netflix) liderava com 12 indicações e venceu Melhor Diretor, porém, era um filme intelectual e considerado bruto e seco.
A Matemática do Calor Humano: CODA entrou na disputa apenas no final da temporada. Ele era o filme que “fazia a gente se sentir bem”.
O Fenômeno: No Voto Preferencial, conforme filmes como Belfast e King Richard eram eliminados, seus votos foram quase integralmente para CODA. Ninguém colocava CODA em 10º lugar. Ele era a 2ª opção universal. Ele venceu porque, no fim das contas, a Academia preferiu premiar o filme que eles “amam levar para casa” do que aquele que eles “respeitam na galeria de arte”.

Green Book: O Guia da Sobrevivência (2019)

Green Book (2019) @ divulgação

Este é o caso mais polêmico e o que melhor exemplifica o “pensamento médio” da Academia. O duelo era contra Roma (Netflix).
A Polêmica: Green Book foi massacrado pela crítica por usar o tropo do “salvador branco” e por controvérsias envolvendo a família do pianista Don Shirley. Já Roma era uma obra-prima técnica, mas era “difícil”: preto e branco, lento e em espanhol/mixteco.
A Matemática do “Tio de Hollywood”: O votante estadunidense tradicional sentiu-se desconfortável com a frieza de Roma. Green Book, apesar das polêmicas, era um “filme de bem-estar”.
O Resultado: No ranking, Roma recebia nota 1 (dos cinéfilos) ou nota 10 (dos tradicionais que não queriam ver a Netflix vencer). Green Book recebia nota 2 ou 3 de todo mundo. Ele venceu por ser o denominador comum: o filme que menos incomodava a maioria branca e idosa da época.

La La Land vs. Moonlight (2017): O Teto de Vidro

Cartaz de Moonligth – Sob a Luz do Luar @ Divulgação

La La Land era o favorito absoluto. Ele tinha o chamado de voto de paixão, mas o sistema de Melhor Filme pune o entusiasmo que gera rejeição.
A Matemática: Na primeira rodada, La La Land provavelmente teve mais votos de 1º lugar do que Moonlight. Porém, ele não atingiu os 50% + 1.
O Problema: No sistema preferencial, se você não ganha de primeira, você precisa que os eleitores dos filmes eliminados (como A Chegada ou Lion) tenham você como 2ª ou 3ª opção.
O Resultado: Muitos votantes, saturados pela onipresença de La La Land ou buscando diversidade pós-#OscarsSoWhite, colocaram o musical no final da lista. Moonlight, por outro lado, era a 2ª opção de quase todo mundo. Quando os “pequenos” caíram, seus votos migraram para Moonlight, que ultrapassou o gigante na reta final.


As chances (até o momento) dos 10 Indicados ao Oscar de Melhor Filme 2026

Oscar 2026 – Indicados a Melhor Filme @ Gemini

Os Favoritos (O Duelo de Titãs)

Pecadores (Sinners)
Fator Vitória: Recordista com 16 indicações. É o ápice do “Cinema de Espetáculo com Alma”. Se a Academia quiser provar que é moderna, premiará este épico.
Fator Derrota: A derrota recente no DGA (Sindicato dos Diretores) sinaliza que a elite ainda resiste ao horror. Se falhar também no PGA (Sindicato dos Produtores), vira o “novo La La Land”: muitas indicações, mas perde o prêmio principal.
Chances: 80% (Caiu após o DGA, mas ainda lidera no volume técnico).

Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another)
Fator Vitória: O “Efeito Prestígio”. Após vencer o DGA, Paul Thomas Anderson virou o favorito dos puristas. É o filme que quase ninguém coloca em 10º, sendo o receptáculo perfeito para votos de redistribuição.
Fator Derrota: Se for visto como “clássico demais” ou “cerebral”, pode ser atropelado pelo calor emocional de filmes menores.
Chances: 75% (Em ascensão meteórica).

As Zebras Perigosas (O Voto do Coração)

Hamnet
Fator Vitória: O “Voto Emocional”. É o candidato ideal para o “Fator CODA”: um filme que agrada a todos os ramos e sobe conforme os gigantes se anulam.
Fator Derrota: Falta de “peso” técnico (edição e som), o que pode fazê-lo parecer “pequeno” para o prêmio máximo.
Chances: 55%.

O Agente Secreto (The Secret Agent)
Fator Vitória: Justiça Histórica. O apoio internacional e o carisma de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho criaram uma onda de importância. É o “voto de consciência” da temporada.
Fator Derrota: A barreira da legenda para a “Velha Guarda” estadunidense. Pode acabar “preso” na vitória de Filme Internacional.
Chances: 45%.

Pelotão Intermediário

Marty Supreme (35%): O poder de Timothée Chalamet atrai o voto jovem, mas a estética “nicho” da A24 afasta os tradicionais.
Valor Sentimental (30%): Prestígio europeu, mas corre o risco de ser canibalizado pelo Brasil no bloco internacional.
Frankenstein (25%): Visual deslumbrante de Guillermo del Toro, mas perde espaço para o fenômeno Pecadores.

Figurantes de Luxo

Bugonia (15%): Originalidade radical de Lanthimos. O sistema preferencial pune filmes polarizadores (quem odeia, coloca em 10º).
Sonhos de Trem (10%): Beleza visual (com fotografia do estadunidense Michael Bauman e direção do brasileiro Kleber Mendonça em outro contexto, aqui com Adolpho Veloso na câmera), mas é contemplativo demais.
F1: O Filme (5%): Representa a bilheteria que “salva as salas”, mas é visto como um blockbuster técnico, não uma obra de “Melhor Filme”.

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