Mary Quant, a minissaia e a liberação feminina

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Dez anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, a economia do Reino Unido encontrava-se finalmente restabelecida. Pela primeira vez na história os jovens estavam empregados e com dinheiro para gastar, constituindo um poderoso mercado. Foi assim que a moda Londrina aflorou, e no centro desse cenário encontrava-se uma inglesa chama Mary Quant.
Nascida no condado de Kent (sudeste da Inglaterra), Mary mudou-se para Londres ainda jovem, mas muito ambiciosa. Em 1955 abriu a sua primeira loja de roupas, chamada Bazaaar, localizada em Carnaby Street. A rua era cheia de lojas independentes, frequentadas pelos jovens londrinos. Lá, Mary revendia roupas. Aos poucos começou a customizar peças. Sua surpresa foi ao perceber que as roupas que customizava pela manhã, já haviam sido vendidas à noite. Esse sucesso foi surpreendente porque Mary, que tinha estudado para ser professora de artes, não tinha treinamento algum em criação de moda.
Mary Quant Minissaia 1960
O sucesso de Mary Quant teve relação direta com sua percepção sobre aquela juventude do pós-guerra: munida com dinheiro, com enorme vontade de afastar-se de seus pais e de construir uma identidade própria. A demanda dos jovens era priorizar disponibilidade versus exclusividade. A moda, segundo eles, deveria atender as massas. Essas convicções eram completamente opostas àquelas defendidas pelos integrantes da Câmara Sindical da Alta Costura Parisiense (Chambre Syndicale de La Haute Couture), que, até então, era considerada como a expressão máxima de moda. Esse foi um momento de grande importância na moda. O que Mary criou nesses próximos anos refletiu uma moda que saia das ruas e não das casas de alta costura.
Foi nesse cenário que uma invenção de Mary Quant mexeu com o mundo e não só o da moda. Aos poucos, a estilista foi subindo a barra de suas saias e vestidos, até que deu um salto e acabou bem acima do joelho. E assim nasceu a minissaia. Chocante e para muitos ‘obscena’, logo, foi adotada pelas inglesas. E logo pelas americanas, francesas e pelo resto do mundo. A minissaia tornou-se a obsessão de todas as mulheres. Estilistas parisienses como Marc Bohan e André Courrèges também começaram a criar roupas com as barras bem curtas.
Estética Mary Quant 1960
Juntamente com a minissaia, Mary Quant criou uma estética bastante específica para as mulheres. Os vestidos eram curtos e retos e os sapatos baixos. Os cabelos (inclusive de Mary) ganharam o corte curto e geométrico de Vidal Sasson. A maquiagem era mínima, destacando os olhos. Esta estética modernista construía uma mulher que se assemelhava muito mais a uma garota do que uma adulta: sem curvas e sensualidade mínima.
A criação da minissaia também pode ser ligada aos movimentos de liberação da mulher que aconteciam pelo mundo. A criação de leis que protegiam as mulheres, o número crescente delas no mercado de trabalho e a invenção da pílula anticoncepcional eram fatores que, finalmente, davam poder as mulheres.
A minissaia e a estética criada por Mary Quant fazia o mesmo. Garantiu à mulher a possibilidade de se vestirem e se comportarem de forma diferentes de suas mães.
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Apesar de seu enorme sucesso, em 1969, Mary Quant parou de produzir roupas. Uma das características mais marcantes da moda é o fato de estar em constante movimento. Como era inevitável, a estética criada por Mary das minissaias e do ‘swinging sixties’ chegava ao fim. Era hora de abrir lugar para a Califórnia e de abaixar (bastante) a barra. A colorida e psicodélica estética hippie anunciava mudanças.
Hoje a Carnaby Street continua como uma rua com lojas independentes, mas não há dúvida que seu tempo de glória foi com a ajuda Mary Quant nos anos 1960. E foi assim que a barra de uma saia fez historia. Muito mais do que um simples comprimento, Mary mostrou que a moda possui sim significado além de roupas.
(Artigo colaborativo de Alice Coy – correspondente de Londres para o MONDO MODA).

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