Josephine Baker – a Vênus Negra

Na coleção do verão 2011, Miuccia Prada usou coloridas listras, estampas paisley, macacos e outros bichos, que rapidamente lembrou surgiu o nome de sua inspiração: Josephine Baker.
Nascida Frida Josephine McDonald, filha da lavadeira Carrie McDonald e do músico Eddie Carson, em 1906, Josephine teve uma infância desgraçada em Saint Louis, Missouri, sul dos Estados Unidos. Algumas vezes, dançava nas ruas para ganhar algumas moedas. Como a mãe, a irmã e uma tia, trabalhou como lavadeira na casa de senhoras, digamos, ‘gente boa (uma delas chegou a lhe escaldar as mãos porque tinha gasto muito sabão…)’.
Um dia, Josephine arrumou emprego como camareira da cantora negra Clara Smith. Um dia, substituiu uma das coristas. Aos 15 anos, casou- se com William Howard Baker e ganhou seu sobrenome famoso. Contudo, o casamento terminou dois anos depois, quando o racismo que gritava em Saint Louis.
Paris
Aos 16 anos, rumou para Nova York, onde arrumou vaga como dançarina no Music Hall. Logo. Não demorou para que produtora Caroline Reagan, a enviasse para participar de “Revue Nègre” em Paris.
Sua estreia aconteceu no teatro de Champs-Elysées, em 1925, onde fez uma dança selvagem, se contorcionando, cantando com voz de passarinho tropical e usando apenas uma tanga de penas. A plateia – com Léger, VanDongen, Jean Cocteau e Dorius Milhaud, entre outros – veio abaixo. Ninguém tinha visto coisa igual (nota do editor: no filme ‘Meia-noite Em Paris’, de Woody Allen, tem uma cena rápida que reproduz a dança).
Jean Cocteau a descreveu como “um ídolo de aço escuro e bronze, ironia e ouro“. Seguiram-se apresentações nos Folies Bergères (onde usou pela primeira vez a famosa tanga com bananas) e no cassino de Paris. No Chez Josephine, ela mostrava todas as noites uma dança que trouxera do sul dos EUA e que ninguém ainda conhecia na Europa: o Charleston.
A popularidade de Josephine Baker era ilimitada. Ela tornou-se o símbolo da decadente década de 20 em Paris. Seus cabelos curtos, grudados na cabeça com brilhantina, à guisa de um capuz laqueado, tornaram-se moda para toda uma geração.
No auge do sucesso, mandou estofar os assentos do seu carro esporte com couro de cobra. Seu animal doméstico era um leopardo. Seus cachês milionários lhe permitiam todo tipo de extravagância. Através do diretor de teatro Max Reinhard, a estrela exótica passou a apresentar-se também em Berlim.
Racismo
Em Berlim, Josephine Baker teve o seu primeiro contato com o  racismo na Europa. Os nazistas começavam a ganhar terreno. Com vaias, os simpatizantes do nazismo impediam suas apresentações. Em alguns jornais, ela era difamada como “macaca”. Como penitência “pelos graves delitos contra a moral, cometidos por Josephine Baker”, a cidade de Viena mandou celebrar missas especiais durante as suas apresentações.
Josephine buscou refúgio nos Estados Unidos, porém, em Nova Iorque, foi expulsa de um restaurante “só para brancos”. Decepcionada, ela retornou a Paris.
Résistance
Em 1929, após uma turnê na América do Sul, no navio que levava Josephine Baker – “a mulher mais famosa do mundo” – para a Europa, conheceu o arquiteto Le Corbusier. Segundo a biografia escrita por Phyllis Rose, os dois foram amantes. Também se casou com Jean Lion, Joe Bouillon e Robert Brady. A lista de admiradores incluía Georges Simenon, Pablo Picasso, Alexander Calder, E. E. Cummings e outros.
O seu engajamento na Resistência, durante a Segunda Guerra Mundial, valeu a Josephine Baker altas condecorações do Estado francês.
No pós-guerra, como não teve filhos próprios, adotou doze crianças órfãs de diversos países, passando a criá-las em seu castelo, Les Milandes, nas vizinhanças de Paris. Também adotava animais, de todas as raças. Chegou a passear por Paris com um leopardo (Chiquita) que, de vez em quando, escapava da coleira dentro de um teatro, quando ela insistia em levá-lo para assistir a uma peça.
Últimos anos
No final dos anos 1960, parou de se apresentou e começou a ter dificuldades financeiras. Sabendo disto, a princesa Grace de Mônaco ofereceu uma casa no Principado. Baker apresentou-se então em Mônaco, com grande sucesso, em 1974.
No mesmo ano fez apresentações em Nova York. Estava se preparando para comemorar, em Paris, os 50 anos de palco, quando entrou em coma e morreu aos 68 anos, em 12 de abril de 1975. Seu funeral foi em Paris e ela foi enterrada em Mônaco.
Brasil
Josephine Baker esteve no Brasil pela primeira vez em 1929. Apresentou-se no Teatro Cassino, no Rio de Janeiro. Voltou em 1952 e contracenou com Grande Otelo no show “Casamento de Preto”, onde cantava “Boneca de Piche” em português. Em 1963 fez uma temporada no Copacabana Palace e apresentou-se no Teatro Record, em São Paulo. Esteve pela última vez no Brasil em 1971, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Porto Alegre.
(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)