Era Uma Vez um Sonho mostra personagens que fogem do padrão ‘Hollywood de ser’

Num certo momento de ‘Era Uma Vez Um Sonho’ parei para respirar.
Não era uma cena de terror (meu gênero preferido) que tirou meu fôlego. Era uma identificação com uma cena no qual, após brigar com a surtada mãe (Amy Adams), que o esbofeteia, o garoto gordinho JD (Owen Asztalos) sai do carro correndo. Ele busca auxílio numa vizinha. Ensandecida, a mãe o segue.
Tive uma espécie de ‘Deja Vu’, pois me lembrei de uma situação um pouco parecida com minha mãe.
Uma vez, quando eu era adolescente, tivemos uma séria discussão no ônibus que entrava na Avenida Campos Salles. Muito irritado, desci do ponto e sai correndo. Ela também desceu e correu atrás de mim. Ela não me bateu fisicamente, mas moralmente era continuo.
Não me lembro de como terminamos. Minha memória (que, normalmente é ótima) me trai. Acredito que o ridículo da situação foi tamanho que meu subconsciente apagou.

No filme, ao contrário, a sequência termina com a chegada da polícia e, por ventura, dos avós (Glenn Close e Bo Hopkins) e irmã do garoto. Porém, para evitar que sua mãe seja presa por agressão, ele mente.
É uma das sequências mais forte desse filme que chegou ontem à Netflix que os críticos norte-americanos estão detonando.
Apesar de injustas, é compreensível a crítica. ‘Era Uma Vez um Sonho’, irônico título em português para Hillbilly Elegy (algo como Lamento Caipira), não se encaixa no estilo Hollywood de fazer cinema. É filme sobre gente comum, pobre e sofredora.
Hollywood não tem o hábito de mostrar estórias sobre mulheres que são espancadas por maridos alcoolizados, abandonadas por homens fracos, viciadas em remédios para dor, idosas que pedem para o entregador de comida se ‘não sobrou alguma coisa’, pois só teve dinheiro para comprar uma marmita para ser dividida para duas pessoas. É uma América distante do ‘sonho americano’.
Uma crítica afirmou que esse é ‘o pior filme de Ron Howard’, um diretor de títulos como ‘Apollo 13’ ou ‘Uma Mente Brilhante’. Injusta, lógico.
Em ‘Era Uma Vez um Sonho’, Ron mostra personagens que estão longe do ‘modelo’ ou que ‘superaram uma adversidade, enriqueceram e viveram felizes para sempre’. É um drama real sobre uma família tóxica que pode ser encontrada aos montes na realidade pobre ou de classe média baixa do Brasil. Ou seja, anos luz do ‘sonho americano.
Além da estória, o filme conta com um ótimo elenco. Amy Adams tem seu melhor momento. Primeiro que ela engordou 10 quilos para se adequar ao papel. Valeu a pena. Quase beirando a caricatura, ela sai do lugar comum ao abraçar com garra e veracidade uma personagem detestável, dessas que a gente torce para ‘se ferrar’ para dar paz para a família.
Glenn Close interpreta a avó (Mamaw, no original), que tem um triste passado complicado que justifica de alguma forma a atormentada vida da filha. Muito diferente de sua contida (e extraordinária) atuação em ‘A Esposa’, aqui ela tem um papel de composição, auxiliado pelo ótimo trabalho maquiagem, cabelo e figurinos. Deve ter uma boa trajetória na Temporada de Prêmios que se inicia em dezembro. Vamos ver.
O personagem JD. Vance é interpretado por Gabriel Basso e Owen Asztalos – adulto e adolescente. Ambos estão bem, mas o Owen tem as melhores cenas.
É filme que vale a pena assistir, desde que você esteja preparado para conhecer uma estória de perdedores – estranho personagem distante do padrão hollywoodiano de ser.