Artigo: pelo direito de ser gordo (e ninguém encher seu saco)

Durante anos, eu tive uma amiga que serviu para sabotar minha autoestima. Ela era gordofóbica. Pior: demorei a perceber.
Sua frase preferida era: ‘muitos gordos são bonitos de rosto’. Era usada para definir o tipo de beleza que ela acreditava ser perfeita: o corpo musculoso. Bom, o ator preferido dela era o Sylvester Stallone… E o ideal de beleza era o Jean-Claude Van Damme (pessoa estacionou nos anos 80…).
Também era comum ela ressaltar a importância em frequentar uma academia. Que existiam exercícios que poderiam ‘me ajudar’. Ou, em último caso, eu poderia a fazer caminhadas.
Veja bem: ouvi isto durante muitos anos!
Ela também tinha outro ‘hábito’: quando ia visita-la, era comum servir doces que estavam na geladeira há alguns dias.
Eventualmente quando fazia alguma coisa nova, lá no final, surgia aquele potinho de Tupperware…
Eu entendia como um aviso: “Olha, você come pouco deste novo, pois meu marido e filho ainda não experimentaram. Sendo assim, fique à vontade para comer o que sobrou do final de semana passada, certo?”.

A origem

Bebê Jorge Marcelo @ Acervo Pessoal

Todas as fotos de bebê Jorge Marcelo comprovam que nasci gordo, porém, durante muitos anos, D. Vera, minha mãe, escondia doces, latas de leite condensado, ovos de Páscoa e outras coisas. Demorei em descobrir. Ela fez esta palhaçada durante anos – até quando era adulto. Aliás, tinha a mania de esconder muita coisa (mas isto é assunto para outro momento).
Porém, quando descobria o esconderijo, comia tudo. Era um misto de desejo pelo doce aliado com justiça (ou vingança…).
Quando descobria os ovos de Páscoa… Abria, comia uma parte e deixava um bilhete: ‘Cheguei antes’. Na época, eu me divertia pela esperteza. Demorei a entender o quanto ela foi péssima em fazer este tipo de coisa – seja criança ou adulto.

Jorge Marcelo aos 10 anos @ Acervo Pessoal

Durante muito tempo ela me levou a não sei quantos médicos endócrinos. Passavam o regime… Cumpria as regras até o momento que sentia que aquilo estava me oprimindo. Desde muito cedo detesto receber ordens ou seguir qualquer imposição. E também nunca fiz questão de esconder isto.
Graças isto, a comida se tornou moeda de troca: contra as atitudes impositivas de minha mãe aliada com frustrações, medo, fragilidade, sentimento de rejeição, etc, eu comia. Comer sempre foi à compensação, o conforto, o alívio ou o afago.
Na escola, durante todo o Ensino Fundamental sofri bulling por ser gay. Meus opressores se chamavam Sérgio e Pedrinho. Mas não me lembro de qualquer momento que eles me atacarem por ser gordo.

Pouco antes de entrar no meu primeiro emprego de carteira assinada, fiz um regime. Lembro-me de que coincidiu com uma longa viagem que minha mãe e uma tia fizeram para o Sul do país. Entenda: por mais que eu a amasse, a presença física de D. Vera sempre foi um grande problema em vários momentos de minha vida.
Ela foi muito opressora. Porém, quanto mais ela pressionava, mais eu me rebelava.
Enfim… Como ela estava distante, não me lembro do motivo, mas me deu vontade de fazer um regime. Dentro de casa, usava tabelas calóricas das revistas Claudia e Nova como aliadas. Também dançava e me exercitava sozinho. Emagreci uns 18 quilos. Gostei do resultado. Durante anos eu decorei as calorias de tudo o que comia.

Jorge Marcelo aos 18 anos @ Acervo Pessoal

Passei algum tempo me controlando. Entrei para a Graduação em Jornalismo praticamente magro.
Na Páscoa de 1986, eu trabalhava nas Lojas Americanas como repositor dos departamentos de Presente, Inox e Vidros. No estoque, éramos obrigados a separar o chocolate dos bombos dos ovos de Páscoa danificados. Chocolates eram descartados. Bombons eram colocados numa enorme caixa. Segundo a lenda, seriam devolvidos às empresas.
As regras eram muito claras: erámos proibidíssimos de comer qualquer coisa. Lógico que, diariamente, isto me estimulou a comer todos os bombons que cabiam na minha barriguinha durante as próximas semanas. Ser rebelde era meu mantra – para o bem ou para o mal.
Aos poucos, lógico, fui recuperando cada quilo perdido meses atrás.
Para ser sincero, após isto, não me lembro de ter feito outro regime. Não digo que foi fácil, mas fui aprendendo a lidar com isto da forma mais saudável possível. O único momento que minha barriga me incomodava era no momento de comprar uma calça nova. Porém, nunca deixei de compra-la por isso motivo.
Aprendi com Jô Soares que a palavra ‘gordo’ não é palavrão. Nada de ‘gordinho’, ‘fofinho’, ‘cheinho’, bla-bla-bla. Assumir-se como gordo é tirar o contexto negativo da palavra. Fodam-se todos que pensem o contrário.

Jorge Marcelo aos 26 anos @ Acervo Pessoal

Ser gordo nunca me impediu de nada: transei, namorei, transei, namorei, transei… Até começar um relacionamento estável que em breve chegará aos 18 anos com Flávio.
Profissionalmente, eu virei produtor de moda! Acredita? O mercado profissional mais preconceituoso e gordofóbico do mundo. E sou produtor há mais de duas décadas.
Claro que cada caso é um caso. Não dito regras para ninguém. Para mim, ser gordo tornou-se apenas mais uma das bandeiras que carrego. Talvez, a menos problemática.
Enfim… Quanto a amizades com gente que não te aceita, manda a pessoa à merda e siga sua vida!