Oscar 2025: Emilia Pérez enfrenta a patrulha ideológica conservadora

Semana passada eu assisti um vídeo do canal do You Tube de um casal gay que faz enorme sucesso – fundamentalmente entre os héteros – comentando sobre ‘os melhores e os piores looks’ de tapete vermelho. Eles também chocham sobre decoração de casas de famosos, programas da TV aberta, realities shows e outras coisas do gênero. Sabe o título de ‘bicha má’, que algumas pessoas alimentam ao nosso respeito? Então… No caso, o assunto era os looks do Globo de Ouro.
Existe um fetichismo inexplicável com este assunto que precisarei renascer outras vezes para entender.

Primeiro que… Que coisa mais ultrapassada! Listas de melhor ou pior é um negócio cringe! E de looks, então… Nos anos de 2010, a apresentadora e comediante Joan Rivers deu uma pausa na aposentadoria e começou a fazer coberturas dos tapetes vermelhos para o programa “Fashion Police”, exibido pelo canal E! Entertainment. Durou quatro anos até sua morte em 2014. Era divertido, pois satirizava a si própria. Segundo a lenda, ela passou por 734 cirurgias plásticas. Naquele momento, aquilo era engraçado. Hoje, certamente não.

Joan Rivers @ divulgação

Segundo: quem gasta seu tempo tentando analisar se determinada escolha de roupa é “melhor ou pior” não trabalha com moda. Profissional do mercado não tem tempo para estas besteiras. Gente séria sabe que na moda não existe ‘melhor ou pior’, pois isto é subjetivo.

Terceiro: opiniões são baseadas em estereótipos que flertam com os preconceitos ou do conservadorismo. Tudo o que foge do convencional é apontado como feio ou estranho. Sendo assim, para pessoas que não têm o menor conhecimento sobre história da moda, ouvir uma comparação que determinada roupa ‘lembra um papel de bala de coco de festa infantil’ é divertido. É o máximo de referência que tal pessoa tem sobre qualquer coisa que fuja do convencional: o seu próprio e restrito universo.

Porém, admito que nem foi isso que me incomodou em tal vídeo. Eu já sei o que esperar quando me proponha a assistir estas bobagens. Foi desagradável, isto sim, as infelizes citações ao filme francês “Emilia Pérez”. E sabe o motivo: o casal afirmou que “nem vimos o filme, mas já temos certeza que não iremos gostar”. Oi?

Gays conservadores

Cartaz Emilia Perez (2024) @ Reprodução

Que a internet é o lar de um bando de gente sem noção, que sofre de déficit de atenção ou falta de desenvolvimento cognitivo, que a maioria das opiniões é retirada ‘de vozes da minha cabeça’ não surpreende. Porém, um casal gay (objeto de preconceito social) criticar um filme com uma trama que envolver uma transexual (objeto de muito preconceito social), que se transformou numa bandeira para continuo ataques dos Trolls, que domina as redes sociais, é, no mínimo, contraproducente.
Que existem gays conservadores e fundamentalistas, tudo mundo sabe, porém, usar seu canal no You Tube para se aliar com o pensamento conservador para atacar uma obra que nem assistiram? É assim mesmo que vamos começar 2025?

Emilia Pérez e a patrulha ideológica conservadora

Emilia Pérez se tornou o filme ‘que pouca gente viu, mas odeia mesmo assim’ da temporada.
Passei as últimas semanas acompanhando uma série de ataques em diversos espaços nas redes para tentar entender o motivo. Depois de alguns dias, só existe um: preconceito.
Assisti ao filme em dezembro. Procurei não ler muito a respeito – hábito que mantenho há muitos anos.
A trama começa quando Rita, uma advogada mexicana, que é contratada por, Manitas, chefe de um Cartel de drogas, para um caso peculiar: ajuda-lo na cirurgia de redesignação sexual que precisa ser feita o mais rápido possível. É um processo muito complicado e doloroso que exige um tempo para acontecer. Além de mais um longo tempo de recuperação.
Além dos procedimentos cirúrgicos, a advogada também precisará auxiliar a esposa (Jessi) e filhos do cliente a recomeçar a vida em outro continente. Depois disso, Rita estará livre para viver com a fortuna que recebeu para tal missão.
Isso acontece, porém, alguns anos depois, ela reencontra sua cliente, agora com o nome de Emilia Pérez, que a solicita para resolver uma grande questão do passado: sua antiga família.
Na sequência, questões sociais do país de origem também entram em pauta, envolvendo o destino das três mulheres: Rita, Emilia e Jessi.

Cartaz Emilia Perez (2024) @ Reprodução

É uma trama que transita sobre diversas despertar, emoções, como solidão, desespero, inequação social, remorso, culpa e paixão. O único ponto negativo: é um Musical.
Admito, porém, que, mesmo não gostando do gênero, duas ou três canções têm sentido de estar na trama.
Lógico que gostaria que a direção optasse em usa-las de outra forma. Não existe pior sofrimento no qual o personagem para de falar e começa a cantar. Deus me defenda! Para mim, é subverter totalmente o conceito de ‘suspensão da crença’ – uma das bases para acreditar numa ficção. O que sinto, isso sim, é ‘descrença da suspensão do meu interesse’!
Apesar disto, “Emilia Pérez” é uma trama surpreendente e emocionante. As atuações são ótimas, em especial da atriz espanhola Karla Sófia Gáscon, como a personagem título.

O que está ou o que você acha que viu na tela?

Emilia Perez vence o Globo de Ouro 2025 @ Getty Images

Um dos ensinamentos de uma professora do curso de Multimeios da Unicamp no qual nunca me esqueci de foi: ela pedia para eu contar a trama de um determinado filme.
Eu respondi: é uma chatíssima estória que se passa num praia envolvendo um grupo de pessoas.
Ela interrompeu minha fala e perguntou: “Mas isto está na tela ou você que está interpretando o que viu? Eu quero que você me conte a história sem dar a sua opinião”.
Demorei alguns segundos para (re) construir minha fala.
Entenda: uma coisa é o que você assiste. A outra é o que e como você interpreta. “Emilia Pérez” se tornou exatamente isso.
Entre as críticas que li ou assisti sobre o filme, estavam (eu poderia responder uma a uma, mas não tenho paciência com gente que está começando…):
1. É cansativo e ofensivo esse filtro amarelo que usam em tramas que se passam na América Latina’;
2. Que ele está ‘atrapalhando as vitórias de “Ainda Estou Aqui” nas premiações;
3. Que as atrizes estadunidenses foram escolhas erradas para interpretar mulheres mexicanas’;
4. Que ‘um filme falado em espanhol não deveria ter sido dirigido por um francês’;
5. Que ‘o diretor admitiu não conhecer a cultura mexicana’;
6. Ele me lembrou “Madame Teia”;
7. Que ‘Selena Gomez está fazendo força para conseguir falar espanhol’;
8. Que os mexicanos estão boicotando’;
9. Que ele é o filme mais nojento que assisti;
10. Karla Sófia Gascón está apenas mediana, o resto, é lacre (você sabe que a pessoa apoia o nazismo quando usa esta palavra, né?)!

Karla Sofia Gascón em Cannes 2024 @karsiagascon

Estas pessoas realmente assistiram ao filme ou estão repetindo o mesmo daquele casal gay que citei no início do texto? Elas também estão criticando a trama sem ao menos assisti-la? Eles não pesquisaram para entender que, além da trama, é sensacional vermos o reconhecimento de Karla Sófia Gascón, a primeira artista transexual premiada como Melhor Atriz no Festival de Cannes e indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Comédia/Musical, que possivelmente estará na lista de indicadas ao Oscar?
Que época difícil na qual tanta gente sofre de déficit de atenção ou desenvolvimento cognitivo ou simplesmente não tem medo de manifestar seus preconceitos! Ou simplesmente segue a manada dos Trolls sem a menor vergonha de se expor?

3 comentários sobre “Oscar 2025: Emilia Pérez enfrenta a patrulha ideológica conservadora

  1. A Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação (Glaad, na sigla em inglês) disse que o filme é uma representação retrógrada das mulheres trans e “um passo para trás” na representação trans no cinema. A organização não é a única a dizer que o enredo é superficial e problemático, por retratar a transição de gênero como uma forma de redenção moral.

    A inclusão de outros procedimentos (aumento de seios e rinoplastia) durante a cirurgia de redesignação sexual e a reação física aos efeitos dos hormônios no corpo são vistas como simplistas. Esse também é o adjetivo mais usado para criticar a música “La Vaginoplastia”. A letra apresenta uma explicação da cirurgia de redesignação de gênero com versos como “Penis to Vagina / Vagina to penis”. Mais perto do final do filme, a filha de Emilia diz que ela “tem cheiro de homem”. A cena também foi criticada.

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  2. Será que esse ódio por Emília Perez não é por causa dos personagens caricatos e estereotipados, que deveriam ser mexicanos, mas de acordo com produção não existem atores e atrizes bons no México? Ou será pela atuação pífia da Selena Gomes, que sequer sabe falar espanhol? Ou será as músicas sem inspiração e cenas musicais constrangedoras que cantam sobre coisas sem sentido o tempo todo? Ou talvez por retratar um traficante responsável pelo assassinato de milhares de pessoas virando herói?

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