Embora a primeira temporada da série antológica Monster, produzida por Ryan Murphy para a Netflix, tivesse seus aspectos sensacionalistas — com um Jeffrey Dahmer (Evan Peters) filmado de forma sedutora enquanto cometia atrocidades —, ela ao menos tentou dar tanta atenção às vítimas quanto ao assassino mais infame de Wisconsin.
A segunda temporada deixou de lado aquela escuridão lúgubre e se concentrou, com certa sensibilidade, nos sensacionais julgamentos dos irmãos Menendez na ensolarada Califórnia. Colocou dúvidas sobre os fatos, a ponto do processo voltar a ser reavaliado.
Já a terceira temporada, A História de Ed Gein, retorna à escuridão do Meio-Oeste estadunidense e, especialmente em seus primeiros episódios, faz pouco esforço para ser algo além de uma Ode ao mórbido.

O ponto de partida da série faz algum sentido: Ed Gein — que oficialmente assassinou duas pessoas, desenterrou os corpos de várias outras, espalhou pedaços do corpo pela casa, etc — foi uma figura que despertou curiosidade na metade do século XX.
Assombrando a cultura popular dos EUA, serviu de inspiração para os filmes Psicose (apesar de que, o autor do livro que deu origem ao filme negar a inspiração de Ed, uma vez que começou a escrever a obra dois anos antes das macabras descobertas na fazenda em Plainfield), O Massacre da Serra Elétrica, O Silêncio dos Inocentes.
Assim, Monster tenta justificar a exibição detalhada dos crimes de Gein dizendo que está, ao mesmo tempo, apresentando a estória e também propondo uma reflexão a cultura do país. É… De uma certa forma, isso acontece. Mas, vamos por partes!
Esse truque funcionou melhor na temporada de Dahmer, que nos fez encarar crimes terríveis, mas com uma pretensão de propósito maior. Já A História de Ed Gein entrega, em grande parte, um show de horrores puro e simples: o excêntrico solitário Ed (ótima atuação Charlie Hunnam) explora sua fascinação por corpos femininos enquanto sua mãe dominadora (Laurie Metcalf) o humilha brutalmente por qualquer impulso sexual ou tentativa de viver fora da fazenda decadente onde vivem isolados.
Já vimos mães assim em outras séries como “Bates Motel” e filmes como “Carrie: A Estranha”. Mesmo assim, Monstro age como se estivesse descobrindo algo novo, como se a culpa das obsessões masculinas nunca tivesse sido atribuída a mães controladoras antes. As mães sempre colocadas como vilãs de todos os problemas do universo masculino…
Gênero, transtornos e confusões perigosas

Mais adiante, a série introduz o termo “ginofilia”, descrito como uma erotização tão intensa do corpo feminino que leva um homem a querer literalmente vestir a pele de uma mulher. É uma explicação parcialmente convincente — assim como o diagnóstico de esquizofrenia neurótica de Gein, que o tornaria, em certa medida, não totalmente responsável por seus atos (ele morreu em um hospital psiquiátrico, não numa prisão). Importante lembrar: ele era um assassino, que, cometeu dois assassinatos, violou cadáveres, etc!
Porém, o retrato mais empático de Gein só surge no final.
Até lá, a série faz um exame imprudente e insinuante da expressão de gênero, chegando a comparações que soam muito mal sobre as pessoas transgêneros.
Nos episódios finais, a série introduz Christine Jorgensen, ícone trans interpretada por Alanna Darby, que contesta a ideia de que Gein teria algo em comum com ela.
Talvez Monstro tenha incluído essa confusão apenas para depois corrigi-la — mas demora demais para chegar a esse ponto de nuance. Por longas horas, a série equipara a diferença de gênero à perversão, o que é perigoso. Principalmente no cenário atual no qual a extrema-direita dos EUA persegue sem piedade esta população.
O toque de Ryan Murphy

Ryan Murphy é um dos mais poderosos produtores da indústria cultural estadunidense deste milênio. Assinou “Nip/Tuck”, “Popular”, “Glee”, “American Horror Story”, “Pose”, além das franquias de “Feud”. Depois de duas décadas de sucesso, todo mundo conhece seu estilo. Ele adora um exagero, uma perversão, que é mostrada com muito realismo. Isso sem contar seu apreço por ‘grandes liberdades criativas’ em suas obras que ‘retratam situações reais’. Além do mais, também é notório que seus programas começam muito bem, mas, degringolam ou caem na caricatice nos episódios finais.
É como se ele se empolgasse com uma ideia, mas, depois se cansa, já de olho na próxima ideia. O que ele está fazendo com “American Horror Story” (12 temporadas até o momento), é bizarro. Deveria ter encerrado a série depois que Jessica Lange caiu fora do projeto no final da quarta temporada (“Freak Show”).
Em Monstro: A História de Ed Gein, Murphy é o produtor (não diretor ou roteirista), mas sua marca está em tudo: nas atuações exageradas de Laurie Metcalf e Lesley Manville (uma das vítimas de Gein), no impulso constante de “ir além do limite” e, sobretudo, na forma como o show retrata Anthony Perkins (Joey Pollari), o ator “no armário” que interpretou Norman Bates em Psicose.
Murphy, tanto em Monstro quanto em séries como “Hollywood” (série limitada de 2020 disponível na Netflix), insiste em traçar uma linha direta entre identidade queer e autodesprezo depravado, algo que nem todos os homens gays compartilham. É um padrão preocupante, triste e frustrante.
Na vida real, Perkins chegou a procurar terapia, mas muito depois das filmagens de “Psicose”.
É grosseiro e injusto sugerir que ele teria qualquer afinidade com Gein apenas por lutar com sua sexualidade. Isso mostra o problema central da série: tentar justificar interesse em sangue e sofrimento psicológico com uma falsa aparência de análise sociológica.
Outros exageros gratuitos

Essas invenções sobre Perkins são apenas um exemplo das muitas distorções históricas em Monstro.
Boa parte da narrativa é pura invenção, justificada pelo argumento de que “acontece na mente de Gein”. Isso poderia ser interessante, mas acaba servindo apenas como desculpa para mostrar mais violência de forma gratuita e sem sentido.
Totalmente desnecessária a sequência com Richard Speck, condenado a cumprir de 400 a 1.200 anos de prisão pelo assassinato de oito estudantes de enfermagem na noite de 13 de julho de 1966. O personagem aparece no último episódio, de calcinha e ostentando seios de silicone transando com outro prisioneiro em troca de cocaína. Pouco depois, ele conta que Gein foi sua inspiração.
Tipo… “Oi?” O que tal cena acrescenta a estória? Nada! E tem algo ainda mais complicado: se Richard realmente estava fazendo algum tratamento de transição sexual ou não, isso é um fato até hoje continua mal explicado.
Outro momento: Ted Bundy aparece no último episódio sequestrando e torturando mulheres, porém, isso nunca teve conexão real com Gein.
A série tenta ligá-los culturalmente, mas o resultado é forçado.
A mensagem (ou a falta dela)
No fim, o que Monster parece dizer é que vivemos em um mundo doente e, portanto, devemos assistir às coisas doentes que nele acontecem. Talvez exista algum valor nisso. Mas seria bom se Murphy e Brennan fossem honestos sobre o que realmente os atrai: o fascínio pelo sangue e pela lama ou como isso é usado como material para a indústria cultural?
O problema é tentar disfarçar essa curiosidade mórbida sob o verniz de uma análise intelectual. O resultado é um produto grosseiro quando tenta ser elegante, explorador quando finge compaixão.
No mínimo, Ed Gein foi honesto sobre seu desejo de brincar com cadáveres, Monster, por outro lado, finge estar fazendo algo muito mais sofisticado do que realmente está.
(Fonte: The Guardian)

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