O livro “Retromania – Pop Culture’s Addiction to Its Own Past” (2011), do jornalista e crítico musical britânico Simon Reynolds, tornou-se uma obra muito oportuna para compreender a obsessão da cultura pop contemporânea pelo passado. A tese central é que vivemos em uma era em que a nostalgia deixou de ser exceção e se tornou regra, moldando não apenas a música, mas também cinema, moda e televisão.
Esse fenômeno pode ser interpretado como um romantismo ilusório do passado: uma idealização seletiva que transforma memórias em mercadorias e estilos em simulacros.
Para aprofundar essa análise, é interessante relacionar Reynolds com Jean Baudrillard, Mark Fisher e Svetlana Boym, que oferecem ferramentas teóricas para compreender como a nostalgia opera no presente.

Baudrillard: simulacro e hiper-realidade
Em seu livro “Simulacros e Simulação (1981)”, o filósofo e sociólogo francês – considerado um dos principais teóricos do pós-modernismo – Jean Baudrillard argumenta que, na pós-modernidade, os signos deixam de remeter a uma realidade concreta e passam a circular como simulacros. O passado, quando reencenado pela cultura pop, não é recuperado em sua historicidade, mas reconstruído como hiper-realidade.
O romantismo ilusório do passado cria uma versão mais sedutora e polida do que realmente existiu, substituindo a memória histórica por uma estética consumível.
Exemplo: shows holográficos de artistas falecidos ou remasterizações digitais que prometem “autenticidade” superior à experiência original.

Fisher: realismo capitalista e bloqueio do futuro
O pensador britânico, crítico cultural e teórico político Mark Fisher, em Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? (2009), afirma que o romantismo ilusório do passado é sintoma da incapacidade cultural de projetar futuros diferentes. Em vez de inovação, temos uma repetição estilizada, que garante reconhecimento imediato e reduz riscos de mercado.
Exemplo: séries como Stranger Things e a onda de reboots cinematográficos e de novelas brasileiras.

Boym: nostalgia restauradora vs. Reflexiva
A teórica cultural russo-americana e professora de literatura comparada da Universidade de Harvard, Svetlana Boym distinguiu dois tipos de nostalgia: a restauradora, que busca reconstruir o passado como se fosse possível voltar a ele e a reflexiva, que reconhece a distância temporal e usa o passado como reflexão crítica.
Na cultura pop atual, predomina a nostalgia restauradora, que idealiza e higieniza o passado, transformando-o em produto.
O romantismo ilusório se insere nesse regime, oferecendo ao público uma versão reconfortante e simplificada da história. Contudo, há espaços para nostalgia reflexiva, como em obras que usam referências retrô para comentar criticamente o presente.

Cultura Pop como laboratório da nostalgia
A cultura pop não apenas consome nostalgia, mas a produz e se retroalimenta com ela. Filmes, séries, músicas, novelas e até videogames funcionam como um laboratório onde memórias coletivas são reativadas, remixadas e transformadas em novos produtos culturais.
Mecanismos da Nostalgia na Cultura Pop
Hollywood recicla franquias clássicas (Star Wars, Ghostbusters, Jurassic Park) para atrair tanto fãs antigos quanto novos públicos. A Rede Globo estuda fazer uma continuação da novela “Avenida Brasil” para estrear em 2027.

Referências e easter eggs: Séries como Stranger Things usam estética dos anos 80 (música, moda, cenários) como gatilho emocional.
Retro futurismo: Jogos e filmes criam mundos que misturam passado e futuro, como Cyberpunk 2077 ou Blade Runner.

Vinil, fitas e estética vintage: O retorno de mídias antigas como objetos de culto mostra como o consumo cultural também é uma forma de reviver experiências sensoriais.
Cultura Pop como “Laboratório”
A ideia de laboratório sugere experimentação:
• Testes de memória coletiva: A indústria cultural observa quais elementos do passado ainda têm força simbólica.
• Reprogramação do imaginário: O passado é reeditado para caber em narrativas atuais (ex.: Top Gun: Maverick atualiza valores dos anos 80 para o século XXI).
• Produção de afetos: Nostalgia não é só lembrança, mas também uma forma de criar pertencimento e identidade.

Exemplos Concretos
• Música: O revival do synthwave e do pop dos anos 80 em artistas contemporâneos como The Weeknd.
• Cinema: Matrix Resurrections (2021) funciona como meta-comentário sobre nostalgia e repetição.
• Séries: Cobra Kai reativa personagens de Karate Kid e os coloca em novas dinâmicas geracionais.
• Moda: O ciclo eterno de retorno de estilos (anos 90 voltando em tênis, jeans largos e chokers).

Linha do Tempo da Nostalgia na Cultura Pop
Anos 1970 – Revival dos anos 50
• Filmes como Grease – Nos Tempos da Brilhantina (1978) e American Graffiti (1973) celebram a juventude dos anos 50.
• Rock’n’roll clássico e estética diner voltam como símbolos de rebeldia e inocência.
• A TV começa a revisitar estilos e narrativas da “era dourada” americana.

Anos 1980 – Saudosismo dos anos 60
• Séries e filmes evocam a contracultura dos anos 60 (Anos Incríveis, 1988).
• O rock psicodélico e o folk são revisitados em novas bandas.
• A moda incorpora elementos hippies e boêmios.

Anos 1990 – Nostalgia dos anos 70
• O cinema revive a Era Disco e a estética setentista (Boogie Nights, 1997 e Studio 54, 1998).
• O grunge e o britpop dialogam com sons e atitudes dos anos 70.
• A TV aposta em remakes e referências a clássicos da década, como Irmãos Coragem (1995) e A Viagem (1994).

Anos 2000 – Retorno aos anos 80
• Filmes como Transformers e As Tartarugas Ninjas trazem de volta ícones infantis dos anos 80.
• A estética neon, videogames retrô e o synthpop ressurgem.
• O vinil começa a ser revalorizado como objeto cultural.

Anos 2010 – Obsessão pelos anos 80 e 90
• Séries como Stranger Things e Cobra Kai exploram intensamente a nostalgia dos anos 80.
• Videogames retrô e consoles clássicos são relançados.
• A moda revive chokers, jeans largos e tênis dos anos 90.
• Música pop incorpora synthwave e referências ao R&B dos anos 90.

Anos 2020 – Ciclo acelerado da nostalgia
• Nostalgia dos anos 2000: estética Y2K, flip phones, moda “emo” e pop-punk voltam.
• Reboots de franquias dos anos 2000 (Matrix Resurrections, Homem-Aranha: De Volta Para Casa).
• Cultura digital recicla memes e estilos da internet inicial.
• A nostalgia se torna instantânea: já sentimos saudade de coisas de apenas cinco ou dez anos atrás.

