Análise sobre a série da HBO “It: Bem-Vindos a Derry”

A primeira temporada de “It: Bem-Vindos a Derry” se apresenta como uma expansão do universo criado por Stephen King e adaptado para o cinema por Andy Muschietti em It – Parte Um (2017) e It – Parte Dois (2019).
A série da HBO funciona como um prelúdio, mergulhando nas origens do palhaço Pennywise que assombra a cidade de Derry e, ao mesmo tempo, estabelecendo pontes narrativas e temáticas com os dois filmes.
O ponto central da temporada é a construção da atmosfera da cidade nos anos 1960, período anterior à formação do Clube dos Perdedores (os heróis do primeiro longa). Essa ambientação não apenas reforça o caráter cíclico da presença de Pennywise, mas também evidencia como Derry já era um organismo vivo de medo e violência antes dos eventos vistos nos longas.

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

Nos filmes, a cidade é retratada como um lugar onde tragédias se repetem e onde os adultos parecem anestesiados diante do sofrimento das crianças. A série amplia essa percepção, mostrando que a apatia e a cumplicidade silenciosa da comunidade são elementos estruturais, não circunstanciais.
Em relação a It – Parte Um, a temporada dialoga diretamente com a ideia de infância marcada pelo trauma. Se no filme acompanhamos os jovens enfrentando seus medos mais íntimos, na série vemos como esses medos já estavam enraizados na cultura da cidade, alimentados por preconceitos, violência doméstica e uma atmosfera de repressão social típica da época.
O sobrenatural de Pennywise se mistura ao terror cotidiano, criando um pano de fundo que torna mais compreensível por que as crianças dos anos 80, retratadas no primeiro filme, já viviam em um ambiente de vulnerabilidade.

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

Já em relação a It – Parte Dois, que mostra os mesmos personagens adultos retornando a Derry para enfrentar novamente Pennywise, a série estabelece uma camada de continuidade histórica. O ciclo de 27 anos, tão enfatizado nos filmes, ganha mais densidade ao ser explorado em sua fase anterior.
A temporada sugere que cada geração é marcada por um trauma coletivo, e que o enfrentamento do mal não é apenas uma batalha contra uma entidade sobrenatural, mas contra a própria memória da cidade. Assim, quando os adultos do segundo filme retornam, o espectador que assistiu à série já compreende que eles não estão apenas lutando contra um palhaço demoníaco, mas contra uma herança de medo que atravessa décadas.

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

Outro ponto de conexão está na figura de Pennywise. Nos filmes, o ator Bill Skarsgård constrói uma performance que mistura o grotesco e o infantil, tornando o personagem ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante. Na série, sua presença é mais enigmática, menos centrada em confrontos diretos e mais voltada para a sugestão de que ele é parte inseparável da própria identidade de Derry. Isso reforça a ideia, já presente nos filmes, de que Pennywise não é apenas um monstro, mas uma manifestação do medo coletivo, um reflexo das falhas humanas.
Narrativamente, a temporada também dialoga com a estrutura dos filmes ao trabalhar com finais que não são totalmente conclusivos. Assim como Parte Um termina com a promessa de que o mal retornará e Parte Dois fecha o ciclo sem eliminar definitivamente a ameaça, Welcome to Derry conclui sua primeira temporada de forma satisfatória, mas deixando espaço para novas explorações.
Essa abertura é coerente com a lógica da obra: o terror em Derry nunca é encerrado, apenas adiado.

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

Em síntese, a primeira temporada de It: Welcome to Derry aprofunda o universo dos filmes ao mostrar que o ciclo de medo e violência é anterior ao Clube dos Perdedores e que a cidade, mais do que os indivíduos, é a verdadeira protagonista da história. Ao estabelecer relações diretas com Parte Um e Parte Dois, a série não apenas amplia a mitologia de Pennywise, mas também reforça a ideia de que o terror de Derry é uma herança coletiva, transmitida de geração em geração, e que cada enfrentamento é apenas mais um capítulo de uma narrativa interminável.

Spoiler

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

O episódio final mostra os personagens centrais em um confronto decisivo contra a entidade que se manifesta como Pennywise. Embora consigam impedir que sua influência se expanda para além da cidade, a vitória é apenas parcial. O mal permanece enraizado em Derry, sugerindo que a cidade não é apenas o palco do terror, mas parte integrante dele. Essa conclusão dialoga diretamente com os filmes, nos quais o Clube dos Perdedores descobre que Pennywise não pode ser destruído de forma definitiva, apenas contido por um tempo.
Um dos grandes destaques é a expansão da mitologia de Pennywise. O episódio sugere que ele não é apenas uma criatura física, mas uma manifestação ligada ao trauma coletivo e ao tempo. Essa abordagem filosófica reforça a ideia de que o palhaço é um reflexo dos medos e das repressões sociais que atravessam gerações. Ao mesmo tempo, a narrativa explora conceitos de circularidade temporal e horror cósmico, indicando que Pennywise pode manipular o tempo e se alimentar da repetição dos traumas.

It Bem-Vindos a Derry @ divulgação

A conexão com os filmes é clara. O encerramento em 1962 marca o início de um novo ciclo, preparando o terreno para os eventos de 1989, quando o Clube dos Perdedores enfrenta Pennywise pela primeira vez.
Essa escolha narrativa reforça a lógica do ciclo de 27 anos e cria uma ponte direta entre a série e os longas. Assim, o espectador que acompanha a série compreende melhor por que os personagens dos filmes já encontram uma cidade impregnada de medo e silêncio.
O episódio também se destaca por seu final aberto. Embora conclua a temporada de forma satisfatória, deixa em aberto questões fundamentais: qual é a verdadeira origem de Pennywise, até que ponto Derry é cúmplice do mal e se é possível romper o ciclo de repetição. Essa abertura é coerente com a lógica da obra, que sempre sugere que o terror em Derry nunca é encerrado, apenas adiado.
Em síntese, o último episódio de It: Bem-Vindos a Derry não apenas fecha a primeira temporada, mas reposiciona Pennywise como uma força maior do que um simples vilão. Ele é apresentado como parte inseparável da identidade da cidade, um reflexo dos medos coletivos e da incapacidade humana de enfrentar seus traumas. Ao mesmo tempo, prepara terreno para futuras temporadas que prometem explorar ainda mais profundamente o passado sombrio de Derry e ampliar a mitologia de um dos maiores ícones do terror contemporâneo.

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