O Agente Secreto está subindo nas previsões do Gold Derby para o Oscar 2026. O principal de apostas da indústria do entretenimento dos EUA coloca o filme do diretor Kleber Mendonça Filho na nona posição nas probabilidades para indicação a Melhor Filme (alta de 18%), a terceira para Wagner Moura em Melhor Ator (alta de 1%), a quinta em Melhor Roteiro Original (alta de 10%) e a primeira em Melhor Filme Internacional (alta de 1%).
Premiada no Festival de Cannes (Melhor Direção e Melhor Ator), a produção brasileira recebeu indicações no Globo de Ouro, no Critics Choice Awards e no Satellite Awards. Ontem (17/12), entrou na Short List dos possíveis indicados ao Oscar.

Esse crescimento acontece num momento de transformação da própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Desde 2020, a – até então burocrática e tradicional – a instituição expandiu substancialmente seu quadro de membros, incluindo votantes internacionais de diferentes países e culturas. Com a mudança, ampliou-se o reconhecimento de produções em línguas não inglesas em categorias além de Melhor Filme Internacional.
Exemplos recentes incluem: “Parasita”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020, o japonês “Drive My Car”, o francês “Anatomia de uma Queda”, o britânico “A Zona de Interesse”, além de “Emilia Pérez” e “Ainda Estou Aqui” – eleito o Melhor Filme Internacional de 2025.
A Trama

As primeiras imagens de “O Agente Secreto” são uma sequência de imagens em preto e branco, que funciona como um atlas de referências culturais e históricas do Brasil dos anos 1970, estabelecendo desde o primeiro momento a relação entre arquivo, memória e narrativa ficcional.
A ação começa quando Marcelo/Armando (Wagner Moura) retorna à sua cidade natal em busca de redenção e respostas sobre episódios que ainda o assombram. O ano é 1977 e este retorno desencadeia uma investigação que mistura tecnologia, espionagem doméstica e rastros de violência política.
A trama constrói sua tensão a partir de episódios aparentemente cotidianos que, aos poucos, revelam uma arquitetura de controle e vigilância. A geografia do Recife funciona como um personagem, com locais e imagens que evocam tanto a intimidade quanto a opressão do período histórico retratado.
No centro da narrativa está a figura de Marcelo, cuja expertise em tecnologia o coloca em contato direto com dispositivos e procedimentos que simbolizam o aparato repressivo.

O filme alterna cenas de suspense com momentos de humor ácido, mantendo uma cadência que é marca da direção de Mendonça Filho e que sustenta a narrativa por suas 2h40 de duração.
A dramaturgia privilegia o subtexto e a contenção, optando por revelar traumas por meio de detalhes e elipses em vez de exposições diretas. Essa estratégia formal transforma o thriller em um estudo sobre memória coletiva e responsabilidade individual, convidando o espectador a decifrar camadas de informação e silêncio.
O filme estreou em Cannes e saiu da mostra com prêmios que reforçaram sua visibilidade internacional, consolidando-o como um dos títulos brasileiros mais comentados da temporada e ampliando o debate sobre representações da ditadura no cinema contemporâneo.
Além do impacto crítico, O Agente Secreto alcançou público e mercado, tornando-se uma das maiores bilheterias nacionais de 2025 e ampliando a circulação do cinema brasileiro em circuitos comerciais e de prestígio.
Recepção da crítica

Críticos destacaram a rigorosa construção de época, a economia narrativa e a capacidade do diretor em transformar o espaço urbano em personagem, apontando o filme como uma das obras mais ambiciosas do ano nos festivais internacionais.
Na Europa, a recepção foi marcada por leituras que valorizam tanto a complexidade formal quanto a dimensão coletiva da narrativa. Resenhas em publicações especializadas enfatizaram a habilidade do diretor em articular camadas de memória e ficção, usando códigos do cinema de gênero para abrir janelas analíticas sobre o passado autoritário do Brasil, o que conferiu ao filme status de obra de referência em mostras e críticas acadêmicas europeias.
A atuação de Wagner Moura recebeu atenção unânime por sua contenção e por uma expressividade que privilegia o interior do personagem. Resenhas ressaltaram a economia gestual e o trabalho de subtexto, descrevendo a performance como um estudo de medo internalizado que evita o exagero ou a histrionia e aposta na ambiguidade moral do protagonista. Também notaram a capacidade de Moura em modular o registro vocal entre o íntimo e o público, tornando-o peça central da empatia dramática do filme.

Do ponto de vista temático, analistas destacaram o uso do som e da tecnologia como metáforas de vigilância e apagamento, e a forma como a narrativa problematiza memória coletiva e responsabilidade histórica. Esses elementos foram interpretados como contribuições relevantes para debates acadêmicos sobre cinema político, memória e pós-ditadura, abrindo espaço para ensaios críticos que cruzam teoria do cinema e estudos históricos.

A leitura crítica consolidada nos EUA e na Europa aponta O Agente Secreto como um filme que equilibra ambição formal e engajamento político, enquanto a performance de Wagner Moura é tratada como um dos trabalhos de atuação mais densos do ano, capaz de traduzir tensões históricas em presença dramática.
Essa convergência entre crítica jornalística e reflexão acadêmica sinaliza que o filme permanecerá objeto de estudo e debate nos próximos ciclos críticos.

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