Dame Shirley Bassey celebra 89 anos consolidada como a voz eterna de James Bond

A lendária cantora galesa Dame Shirley Bassey completou ontem, 08 de janeiro, 89 anos de vida, reafirmando seu status como uma das artistas mais influentes da história da música popular britânica.
Com uma carreira que atravessa sete décadas, Bassey detém o recorde histórico de ser a primeira artista feminina a colocar um álbum no grupo dos 40 mais ouvidos do Reino Unido em sete décadas consecutivas.

Shirley Bassey – 1971 @ Getty Images

Nascida em Tiger Bay, Cardiff, em 1937, a trajetória de Shirley Bassey é marcada pela superação e pelo talento vocal inigualável. De origem pobre, ela começou a se apresentar em clubes locais antes de conquistar o estrelato internacional no final dos anos cinquenta. Sua consagração definitiva veio com a trilogia de temas para a franquia James Bond, sendo a única artista a gravar três músicas tema: “Goldfinger” (1964), “Diamonds Are Forever” (1971) “Moonraker” (1979).

Shirley Bassey – 22nd March 1960 – © Monitor Picture Library / RetnaUK

Um dos momentos mais memoráveis de sua reinvenção artística ocorreu em 1997, quando Bassey realizou uma colaboração com o grupo de música eletrônica Propellerheads.
A parceria resultou no sucesso global “History Repeating”, uma obra que fundiu o Big Beat moderno com o glamour orquestral da cantora. A faixa não apenas apresentou Bassey a uma nova geração de ouvintes em festivais e clubes, mas também se tornou um marco da cultura pop, reafirmando sua versatilidade em diferentes gêneros musicais.

Ao longo de sua vida, Bassey recebeu inúmeras honrarias, incluindo o título de Dame Commander of the Order of the British Empire em 2000, por seus serviços às artes. Recentemente, em 2024, ela foi nomeada Membro da Ordem dos Companheiros de Honra.

Shirley Bassey ganha a Dame Commander of the Order of the British Empire @ Getty

Seu último álbum de estúdio, I Owe It All to You, lançado em 2020, serviu como uma grande final para sua carreira fonográfica, alcançando a quinta posição nas paradas britânicas.

Voz Lendária

Shirley Bassey @ Getty Images

O talento de Shirley Bassey é frequentemente descrito por especialistas como uma combinação rara de poder bruto e técnica de precisão, marcada por um vibrato largo e uma habilidade de sustentação de notas que se tornou sua assinatura. Embora muitos a classifiquem popularmente como uma mezzo soprano dramática, especialistas em análise vocal apontam que, no início da carreira, ela possuía características de soprano lírico ligeiro, evoluindo para um timbre mais escuro e encorpado a partir dos anos oitenta.
Sua extensão vocal é impressionante, cobrindo aproximadamente três oitavas. Ela atinge notas baixas com ressonância profunda e, no auge da carreira, alcançava notas na região de soprano como o dó agudo.
Ela é considerada uma das pioneiras da técnica de belting na música popular. O final da canção “Goldfinger”, onde ela sustenta uma nota aguda por vários segundos, é estudado como um exemplo de controle muscular e apoio diafragmático extremo.
Além do vigor físico, seu talento reside na dicção impecável e no uso de dinâmicas que permitem sussurrar com vulnerabilidade ou explodir com uma pressão sonora capaz de preencher o Carnegie Hall sem o auxílio de microfones.

Bastidores e Curiosidades: Do Silêncio ao Estrelato

Shirley Bassey cantando Goldfinger @ Getty Images

O convite para a gravação de “Goldfinger” surgiu de forma orgânica no final de 1962. Shirley estava em turnê regida pelo maestro John Barry, também seu namoradinho, que já trabalhava na trilha sonora do terceiro filme de James Bond.
Ao ouvir os primeiros acordes instrumentais, Shirley aceitou o convite imediatamente. A gravação oficial ocorreu em agosto de 1964, nos estúdios Abbey Road, sob a produção de George Martin. A sessão foi tão exaustiva que a cantora quase desmaiou ao sustentar a nota final para coincidir com os créditos do filme.

Apesar da magnitude da canção, “Goldfinger” não foi indicada ao Oscar na época devido ao conservadorismo da Academia, erro reparado simbolicamente em 2013 com uma apresentação histórica no palco da premiação.

Racismo

 

Shirley Bassey chega no Aeroporto de Londres com os filhos Sharon e Samantha @ Getty

Dame Shirley Bassey enfrentou o racismo de forma sistemática e profunda, especialmente nos estágios iniciais de sua carreira nas décadas de 1950 e 1960. Como uma mulher negra de origem multirracial (pai nigeriano e mãe inglesa), sua ascensão ao topo da hierarquia social britânica foi marcada por barreiras que ela precisou derrubar com talento e resiliência.
Mesmo após se tornar uma estrela com sucessos nas paradas, Shirley Bassey enfrentou a humilhação da segregação. Durante suas turnês pelos Estados Unidos e até em certas regiões do Reino Unido e da África do Sul sob o Apartheid, ela era frequentemente proibida de entrar pela porta principal dos hotéis onde se hospedava ou de jantar nos restaurantes dos clubes onde era a atração principal.
Ela relatou episódios em que, após ser ovacionada no palco, era obrigada a usar elevadores de serviço ou entrar pela cozinha.
No início da carreira, produtores e empresários tentaram moldar sua imagem para que ela soasse “menos negra” ou “mais palatável” para o público branco de classe média. Shirley resistiu a muitas dessas pressões, mantendo o vibrato largo e a entrega passional que remetiam às suas raízes no jazz e no blues, embora tenha sido direcionada para o pop orquestral para garantir maior aceitação comercial.

Shirley Bassey @ Yui Mok

A estratégia de Bassey para lidar com o racismo não foi o ativismo político direto de palco, como o de Nina Simone, mas sim a conquista através da excelência inquestionável. Ao se tornar a cantora favorita da Família Real Britânica e a voz da maior franquia de cinema do mundo (James Bond), ela forçou a sociedade branca britânica a aceitá-la como um símbolo de sua própria cultura nacional.
Ela utilizou o glamour extremo, as joias e a moda como uma armadura política, sinalizando que uma mulher negra poderia ser a definição de luxo e sofisticação.
Foi apenas em décadas recentes que a crítica musical e os historiadores começaram a dar o devido crédito a Bassey como uma pioneira que abriu portas para todas as artistas negras que vieram depois dela no Reino Unido.
Sua nomeação como Dame pelo sistema de honrarias britânico foi vista por muitos como uma reparação histórica e um reconhecimento de que ela venceu o sistema que um dia tentou marginalizá-la.

Diva LGBTQIAP+

Shirley Bassey, David Frost, Michael Caine, Barbra Streisand e Elton John nos bastidores do show de Barbra no Wembley Arena em Londres, 20/04/1994 @ Duncan Raban/Popperfoto via Getty Images

Assim como Judy Garland e Barbra Streisand, Shirley Bassey ocupa um lugar de honra no imaginário queer, estabelecendo uma conexão que vai muito além da música.
Embora a canção “I Am What I Am” tenha sido escrita originalmente por Jerry Herman para o musical La Cage aux Folles (A Gaiola das Loucas), em 1983, foi a interpretação de Shirley Bassey, lançada no seguinte, que a transformou em um hino definitivo de orgulho e resistência. Ao imprimir sua força vocal e drama pessoal na letra, que fala sobre não pedir desculpas por ser quem se é, Bassey deu voz a milhões de pessoas em uma época de profunda repressão.
A relação da cantora com seu público também passa pela estética. Shirley personifica o conceito de Camp: o uso deliberado do exagero, da teatralidade e do alto glamour. Seus vestidos de lantejoulas, capas de pele, joias exuberantes e gestos dramáticos influenciaram gerações de artistas e, especialmente, a arte das Drag Queens ao redor do mundo. É impossível pensar na performance drag clássica sem encontrar traços do maneirismo e da imponência de Bassey.

A trajetória de Shirley — uma mulher negra de origem pobre que enfrentou o preconceito, a maternidade solo na adolescência e a perda trágica de uma filha — ressoa profundamente com a comunidade.
O público LGBTQIAP+ historicamente se identifica com figuras que transformam suas dores em espetáculos de força e sobrevivência. Bassey não apenas sobreviveu à indústria; ela a dominou, mantendo o controle de sua narrativa por sete décadas.
Ao longo dos anos, Bassey demonstrou seu apoio através de participações em eventos e leilões de caridade voltados para causas de saúde e direitos civis que afetam diretamente a comunidade. Suas músicas são presenças obrigatórias em Paradas do Orgulho ao redor do globo, e ela sempre retribuiu esse carinho com declarações de gratidão, reconhecendo que seu público mais fiel e fervoroso muitas vezes vem da diversidade.
A parceria com os Propellerheads em 1997 reafirmou essa conexão com as pistas de dança, levando sua voz para as casas noturnas de música eletrônica. A faixa tornou-se um sucesso absoluto no circuito de clubes, provando que o carisma de Shirley é transgeracional e transita livremente por espaços de liberdade sexual e de gênero.

Legado

Shirley Bassey @ Getty Images

O legado de Dame Shirley Bassey para as novas gerações é um fenômeno de resistência artística e excelência técnica que serve como um manual para jovens intérpretes que buscam longevidade em uma indústria fonográfica volátil.
Para a geração atual de artistas como Adele, Beyoncé, Lady Gaga e Florence Welch, Bassey é a referência máxima de como unir a música ao drama teatral. Ela ensinou que cantar não é apenas emitir notas, mas contar uma história com o corpo, o olhar e o uso estratégico do silêncio e da explosão sonora.

Adele, em particular, já citou a influência de Bassey na construção de seus temas cinematográficos, herdando a habilidade de preencher grandes arenas com uma presença vocal absoluta.
Bassey foi a primeira superestrela negra do Reino Unido a alcançar reconhecimento global em massa, pavimentando o caminho para artistas como Sade, Beverley Knight e Alexandra Burke.

A influência de Shirley Bassey no cinema é tão profunda que ela criou um gênero próprio: o “estilo vocal Bond”. Toda vez que um novo tema de 007 é composto, seja por Sam Smith ou Billie Eilish, a interpretação de Bassey em Goldfinger serve como o padrão de ouro. Billie Eilish, ao gravar “No Time to Die”, reconheceu o peso de seguir os passos de Bassey, focando na entrega emocional e no controle dinâmico que Shirley estabeleceu décadas antes.

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