Academia quebra recordes de inclusão internacional e redefine o caminho para o Oscar 2026

Enquanto o cenário político dos Estados Unidos projete uma postura de prioridade ao mercado interno, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas segue na direção oposta.
As indicações anunciadas na última quinta-feira consolidam a edição de 98 anos da premiação como uma das mais geograficamente inclusivas da história. Ao todo, filmes de longa-metragem falados primária ou inteiramente em idiomas que não o inglês, conquistaram 22 indicações, igualando o recorde histórico estabelecido em 2023 e mantido em 2024.
O destaque desta edição é a pulverização dessas indicações entre diversas obras, com protagonismo para o filme norueguês “Valor Sentimental”, que obteve nove indicações, seguido pelo brasileiro “O Agente Secreto”, com quatro.

Oscar 2026 – Abertura para filmes de língua não-inglesa @ Gemini

Outras produções como Foi Apenas Um Acidente, Sirāt, Arco, Cutting Through Rocks, Kokuho, A Pequena Amelie e Mr. Nobody Against Putin também garantiram presença na lista.
Pela segunda vez na história da premiação, há pelo menos um filme de língua não inglesa representado em cada categoria do Oscar. Na disputa principal de Melhor Filme, o recorde de 2025 foi igualado com a presença de dois títulos internacionais, sendo eles, os já citados “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”. Este é o oitavo ano consecutivo em que a categoria máxima inclui ao menos uma obra estrangeira.

O Agente Secreto @ divulgação

O setor de atuação também apresenta marcas inéditas. Das 20 vagas disponíveis para intérpretes, quatro foram destinadas a performances em línguas estrangeiras, o que representa 20 por cento do total.
Entre os nomes celebrados estão o brasileiro Wagner Moura e a atriz Renate Reinsve, de “Valor Sentimental”. A lista de indicados ainda conta com Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas. Notavelmente, a indicação de Skarsgård marca a primeira vez em que uma atuação em língua não inglesa concorre na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (lembrando que o ator, na realidade, é protagonista…).

Valor Sentimental @ divulgação

Especialistas apontam que este fenômeno é resultado direto da internacionalização da Academia após a controvérsia do movimento conhecido como #OscarsSoWhite. Ele aconteceu em janeiro de 2015, quando a ativista e advogada April Reign, criou a hashtag para o X (antigo Twitter), logo após o anúncio das indicações daquele ano. O motivo foi a falta de diversidade entre os indicados nas categorias de atuação: pelo segundo ano consecutivo, todos os 20 atores indicados eram brancos. No ano seguinte, a situação se repetiu. Com a pressão de atores (em especial Spike Lee e Jada Pickett Smith), a Academia prometeu mudanças.
Desde então, a organização buscou diversificar seus quadros ao recrutar não apenas mais mulheres e pessoas pretas, mas também membros residentes fora dos Estados Unidos.

 

Atualmente, um quarto do corpo de votantes é composto por estrangeiros que estão habituados ao consumo de cinema com legendas.
Essa nova composição demográfica revela um distanciamento crescente entre a Academia e os tradicionais termômetros da indústria, como os prêmios dos sindicatos de atores, diretores e produtores.
Como os sindicatos permanecem compostos majoritariamente por profissionais baseados nos Estados Unidos, suas listas de indicados ignoraram completamente as produções internacionais este ano. O cenário sugere que as premiações precursoras já não possuem a mesma precisão de antes para prever os vencedores da estatueta dourada.
Neste contexto, o Globo de Ouro surge como um dos poucos indicadores que ainda guardam semelhança com os gostos da Academia, justamente por possuir um corpo de votantes internacional.
As vitórias recentes de Moura, Skarsgård e Rose Byrne naquela cerimônia parecem ter impulsionado suas campanhas rumo ao Oscar, superando a barreira das premiações domésticas americanas.

(Fonte Variety)

Sua opinião

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.