Na semana passada, o personagem Ferette (Murílio Benicio), da novela “Três Graças” (homem/cis/hétero/branco/rico/empresário/preconceituoso/conservador/tradicional, que produz medicamento falsificado usando dinheiro público para distribuir para numa região pobre de São Paulo), numa das inúmeras discussões que expõe sua homofobia, solta a seguinte frase: “Agora, só falta você começar usar ‘todes’!”
Provavelmente para o público médio da trama (como a tia do sofá), a palavra seja totalmente desconhecida, porém para as gerações mais jovens, ela é usual.
Mas… Vamos lá: A barreira que separa as gerações mais velhas da compreensão das linguagens neutras não é apenas um abismo de vocabulário, mas um reflexo de uma estrutura de poder que utiliza a gramática como escudo.

Enquanto as novas gerações reivindicam a língua como um território de existência, setores mais conservadores agarram-se a normas arcaicas para sustentar uma hegemonia que apaga identidades não binárias e dissidências de gênero sob o pretexto da pureza linguística.
A dificuldade de absorção da linguagem neutra por pessoas de faixas etárias mais elevadas reside na cristalização de um modelo educacional que apresentou o idioma como um monumento imutável.
Para essas gerações, a língua não foi ensinada como um organismo vivo e político, mas como um conjunto de leis inquestionáveis. Sendo assim, ao questionar o masculino genérico, a juventude não está apenas sugerindo um novo sufixo, está denunciando que o “neutro” da gramática tradicional é, na verdade, uma imposição do patriarcado que coloca o homem como o centro universal da experiência humana.

A análise dessa questão revela que a resistência muitas vezes mascara um desconforto político. Aceitar a neutralidade da língua exige reconhecer que o mundo mudou e que as hierarquias de outrora não são mais sustentáveis.
Para quem foi socializado em um binarismo rígido, a introdução de termos como “todes” ou o uso de pronomes neutros soa como uma ameaça à própria identidade organizada e estável.
É a recusa em ceder o espaço do protagonismo, preferindo o rótulo de “erro gramatical” para deslegitimar uma luta que é, em sua essência, por dignidade e reconhecimento.
Estudiosos da sociolinguística apontam que o argumento da “origem latina” do masculino neutro é frequentemente usado de forma desonesta para encerrar o debate. A língua portuguesa sempre foi um campo de transformações profundas e adaptações culturais.

A dificuldade das gerações passadas em acompanhar essa evolução não é uma limitação cognitiva, mas sim uma escolha política de manutenção do status quo. Ao se recusarem a adaptar a fala, essas gerações perpetuam a exclusão de corpos que a gramática normativa tentou, por séculos, tornar invisíveis.
A verdadeira transformação exige que a linguagem deixe de ser vista como um conjunto de correntes e passe a ser entendida como um espelho da sociedade que desejamos construir.
A resistência geracional é o último suspiro de um paradigma que não comporta mais a pluralidade do agora.
Descolonização da Linguagem

A compreensão da linguagem neutra transcende a mera modificação de sufixos, consolidando-se como um ato de reparação histórica e justiça social. Para romper a inércia das gerações que se ancoram no conservadorismo linguístico, é fundamental municiar o debate com argumentos que desloquem o foco da gramática normativa para a dignidade humana.
O primeiro ponto de inflexão em qualquer debate deve ser a priorização das pessoas sobre os manuais. Argumentar que a língua existe para servir à humanidade, e não o contrário, é uma ferramenta poderosa. Quando gerações mais velhas alegam que o uso do neutro agride a norma culta, a resposta militante deve ser clara: nenhuma regra gramatical é mais importante do que o direito de uma pessoa existir e ser reconhecida em sua plenitude. O desconforto auditivo de quem ouve uma palavra nova não se compara à dor sistemática da invisibilização sofrida por corpos não binários.

O chamado masculino genérico é uma construção política de apagamento. O argumento histórico de que o masculino abraça todos os gêneros deve ser combatido com a verdade sociológica de que o que não é nomeado não é visto.
Ao insistir na manutenção desse padrão, as gerações anteriores perpetuam uma estrutura onde o masculino é a norma e todo o resto é o desvio. Questionar essa hegemonia é um passo essencial para mostrar que a neutralidade não é uma invenção aleatória, mas um esforço consciente para democratizar a comunicação e retirar o poder das mãos de uma estrutura patriarcal secular.
A história da língua portuguesa é o maior testemunho contra o imobilismo. Recordar que palavras que hoje são consideradas padrão já foram vistas como erros ou estrangeirismos ajuda a contextualizar a linguagem neutra como o próximo passo natural da evolução cultural.
Argumentar que o português que se falava há cem anos já morreu prova que a língua é um território de disputa e transformação constante. O uso de formas neutras nada mais é do que o idioma se adaptando para refletir uma sociedade que finalmente decidiu parar de esconder sua própria diversidade.

Por fim, a estratégia deve focar na responsabilidade coletiva pelo bem-estar do próximo. Educar as gerações mais velhas sobre a linguagem neutra é convidá-las a um exercício de alteridade.
A norma linguística não busca punir o desconhecimento, mas sim exigir que o afeto e o respeito guiem a fala. Se a língua é a ponte pela qual nos conectamos, manter essa ponte estreita e excludente é uma escolha política pela segregação.
Alargar os acessos do idioma é um ato de acolhimento que beneficia a construção de um futuro onde todos os corpos possam, finalmente, habitar o discurso.
