Brasil pode vencer novamente o Oscar de Melhor Internacional?

O Brasil tem a oportunidade de alcançar o que não era feito há quase quatro décadas: vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional de forma consecutiva por “O Agente Secreto”.
No ano passado (após concorrer por quatro vezes), o país conquistou seu primeiro Oscar com “Ainda Estou Aqui”. Os brasileiros fizeram tanto barulho nas redes sociais que deixaram a Academia atônita.
Vitória consecutiva não acontece há 37 anos, quando Dinamarca venceu por “A Festa de Babette (1987)” e “Pelle, o Conquistador (1988)”.

O Agente Secreto (2025) @ divulgação

Antes disso, Itália e França dominaram essa categoria entre as décadas de 1950 e 1970, com sete casos de vitórias seguidas no total.
A França é o pais mais vencedor da categoria, com 15 vitórias (num total de 40 indicações). Também é o único com três vitórias consecutivas (1958/59, 1972/73 e 1977/78). Porém, desde “Indochina (1993)”, a França não vence nesta categoria.
A Itália segue com 14 vitórias, incluindo o primeiro vencedor da categoria em 1948 por “Vítimas da Tormenta”, quando ainda era chamado de “prêmio honorário”. Naquela época, não havia uma disputa com indicados. A Academia ‘escolhia” um filme internacional lançado nos EUA.

Oficialmente, a categoria foi criada em 1956, sendo que o vencedor foi o também o italiano “A Estrada da Vida (La Strada)”, de Federico Fellini (dono de quatro prêmios).

Além da França e Itália, o Japão conta com cinco vitórias, seguido por Espanha e Dinamarca com quatro prêmios cada.

Mas existem chances de o Brasil novamente vencer?

Wagner Moura vence o Globo de Ouro 2026 de Melhor Ator em Drama por O Agente Secreto @ Rich Polk – Penske Media

O filme de Kleber Mendonça Filho venceu o “Big Three” da associação de crítica estadunidense (NYFCC, LAFCA e NSFC), o Globo de Ouro e o Critics Choice. Também conseguiu quatro indicações ao Oscar, incluindo as cobiçadas categorias de Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura.
Na disputa atual, porém, o norueguês “Valor Sentimental” é o favorito ao conseguir nove indicações (incluindo para Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado), além da força do apelo europeu.
O que diferencia “O Agente Secreto” de outros concorrentes é o peso político aliado ao gênero, o diretor Kleber Mendonça Filho entrega um thriller de espionagem com a alma do Cinema Novo e Wagner Moura, já é conhecido nos EUA (“Narcos” e “Guerra Civil”), entrega uma grande atuação.
Se a Noruega tem os números, o Brasil tem a narrativa — e o Oscar, no fim do dia, também é sobre quem conta a melhor história, dentro e fora das telas.

Brasil na disputa em outros anos

Central do Brasil @ divulgação

Até a vitória de “Ainda Estou Aqui” no ano passado (2025), o Brasil teve quatro indicações para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro:
O Pagador de Promessas (1963), direção de Anselmo Duarte – Foi a primeira indicação do Brasil e de um filme sul-americano. Chegou com muita força após vencer a Palma de Ouro em Cannes, mas perdeu para o francês Sempre aos Domingos.
O Quatrilho (1996), direção de Fábio Barreto – Marcou o retorno do Brasil ao Oscar após décadas de ausência, simbolizando a fase da “Retomada” do cinema nacional. Perdeu para o holandês A Linha da Antônia.
O Que É Isso, Companheiro? (1998), direção de Bruno Barreto – Baseado no livro de Fernando Gabeira, o filme levou o tema da ditadura militar brasileira para a Academia. Perdeu para o holandês Caráter.
Central do Brasil (1999), direção de Walter Salles – É uma das indicações mais lembradas. Além de Filme Estrangeiro, rendeu a histórica indicação de Fernanda Montenegro a Melhor Atriz. Perdeu para o italiano A Vida é Bela.

Apesar de concorrer Melhor Filme Estrangeiro (o Brasil enviou Carandiru naquele ano, que não foi indicado), “Cidade de Deus (2004)” conseguiu quatro indicações (Direção, Roteiro, Edição e Fotografia) um ano depois, após o sucesso de sua distribuição nos EUA.
Com direção do argentino-brasileiro Hector Babenco, “O Beijo da Mulher Aranha (1986)” foi indicado a Melhor Filme, Diretor, Ator (William Hurt, venceu) e Roteiro Adaptado, mas era uma produção independente dos EUA e como era falado em língua inglesa, não competiu na categoria de filme estrangeiro.
Em 1960, o vencedor de Melhor Filme Estrangeiro, “Orfeu Negro” era falado em português e ambientado no Rio, mas concorreu representando a França (país coprodutor), por isso não conta oficialmente como uma vitória do Brasil.

Não podemos esquecer da indicação ao Oscar 2026 do brasileiro Adolpho Veloso pela Melhor Fotografia de “Sonhos de Trem”. Tem muitas chances.

Todos os vencedores do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/Internacional:

Prêmios Honorários e Especiais (1948–1956)
1948: Vítimas da Tormenta (Sciuscià) – Itália – Vittorio De Sica
1949: Monsieur Vincent (Monsieur Vincent) – França – Maurice Cloche
1950: Ladrões de Bicicleta (Ladri di biciclette) – Itália – Vittorio De Sica
1951: Além das Grades (Le mura di Malapaga) – França/Itália – René Clément
1952: Rashomon (Rashomon) – Japão – Akira Kurosawa
1953: Brinquedo Proibido (Jeux interdits) – França – René Clément
1955: O Estilo de Musashi (Miyamoto Musashi) – Japão – Hiroshi Inagaki
1956: As Portas do Inferno (Jigokumon) – Japão – Teinosuke Kinugasa

Categoria Melhor Filme Estrangeiro (1957–2019)
1957: A Estrada da Vida (La Strada) – Itália – Federico Fellini
1958: Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria) – Itália – Federico Fellini
1959: Meu Tio (Mon Oncle) – França – Jacques Tati
1960: Orfeu Negro (Orfeu Negro) – França – Marcel Camus
1961: A Fonte da Donzela (Jungfrukällan) – Suécia – Ingmar Bergman
1962: Através de um Espelho (Såsom i en spegel) – Suécia – Ingmar Bergman
1963: Sempre aos Domingos (Les Dimanches de Ville d’Avray) – França – Serge Bourguignon
1964: 8 ½ (8 ½) – Itália – Federico Fellini
1965: Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri, hoje, domani) – Itália – Vittorio De Sica
1966: A Pequena Loja da Rua Principal (Obchod na korze) – Tchecoslováquia – Ján Kadár e Elmar Klos
1967: Um Homem e uma Mulher (Un homme et une femme) – França – Claude Lelouch
1968: Trens Estreitamente Vigiados (Ostre sledované vlaky) – Tchecoslováquia – Jiří Menzel
1969: Guerra e Paz (Voyna i mir) – União Soviética – Sergei Bondarchuk
1970: Z (Z) – Argélia – Costa-Gavras
1971: Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto) – Itália – Elio Petri
1972: O Jardim dos Finzi-Contini (Il giardino dei Finzi Contini) – Itália – Vittorio De Sica
1973: O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme discret de la bourgeoisie) – França – Luis Buñuel
1974: A Noite Americana (La Nuit Américaine) – França – François Truffaut
1975: Amarcord (Amarcord) – Itália – Federico Fellini
1976: Dersu Uzala (Dersu Uzala) – União Soviética – Akira Kurosawa
1977: Preto e Branco em Cores (La Victoire en chantant) – Costa do Marfim – Jean-Jacques Annaud
1978: Madame Rosa: A Vida à Sua Frente (La Vie devant soi) – França – Moshé Mizrahi
1979: Preparem seus Lenços (Préparez vos mouchoirs) – França – Bertrand Blier
1980: O Tambor (Die Blechtrommel) – Alemanha Ocidental – Volker Schlöndorff
1981: Moscou não Acredita em Lágrimas (Moskva slezam ne verit) – União Soviética – Vladimir Menshov
1982: Mephisto (Mephisto) – Hungria – István Szabó
1983: Começar de Novo (Volver a Empezar) – Espanha – José Luis Garci
1984: Fanny e Alexander (Fanny och Alexander) – Suécia – Ingmar Bergman
1985: Fora de Controle (La Diagonale du fou) – Suíça – Richard Dembo
1986: A História Oficial (La historia oficial) – Argentina – Luis Puenzo
1987: O Assalto (De Aanslag) – Países Baixos – Fons Rademakers
1988: A Festa de Babette (Babettes Gæstebud) – Dinamarca – Gabriel Axel
1989: Pelle, o Conquistador (Pelle Erobreren) – Dinamarca – Bille August
1990: Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso) – Itália – Giuseppe Tornatore
1991: Viagem da Esperança (Reise der Hoffnung) – Suíça – Xavier Koller
1992: Mediterrâneo (Mediterraneo) – Itália – Gabriele Salvatores
1993: Indochina (Indochine) – França – Régis Wargnier
1994: Sedução (Belle Époque) – Espanha – Fernando Trueba
1995: O Sol Enganador (Utomlyonnye solntsem) – Rússia – Nikita Mikhalkov
1996: A Excêntrica Família de Antônia (Antonia) – Países Baixos – Marleen Gorris
1997: Kolya: Uma Lição de Amor (Kolja) – República Tcheca – Jan Sverák
1998: Caráter (Karakter) – Países Baixos – Mike van Diem
1999: A Vida é Bela (La vita è bella) – Itália – Roberto Benigni
2000: Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre) – Espanha – Pedro Almodóvar
2001: O Tigre e o Dragão (Wòhǔ Cánglóng) – Taiwan – Ang Lee
2002: Terra de Ninguém (Ničija zemlja) – Bósnia e Herzegovina – Danis Tanović
2003: Lugar Nenhum na África (Nirgendwo in Afrika) – Alemanha – Caroline Link
2004: As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares) – Canadá – Denys Arcand
2005: Mar Adentro (Mar adentro) – Espanha – Alejandro Amenábar
2006: Infância Roubada (Tsotsi) – África do Sul – Gavin Hood
2007: A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen) – Alemanha – Florian Henckel von Donnersmarck
2008: Os Falsários (Die Fälscher) – Áustria – Stefan Ruzowitzky
2009: A Partida (Okuribito) – Japão – Yojiro Takita
2010: O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de sus Ojos) – Argentina – Juan José Campanella
2011: Em um Mundo Melhor (Hævnen) – Dinamarca – Susanne Bier
2012: A Separação (Jodaeiye Nader az Simin) – Irã – Asghar Farhadi
2013: Amor (Amour) – Áustria – Michael Haneke
2014: A Grande Beleza (La Grande Bellezza) – Itália – Paolo Sorrentino
2015: Ida (Ida) – Polônia – Pawel Pawlikowski
2016: O Filho de Saul (Saul fia) – Hungria – László Nemes
2017: O Apartamento (Forushande) – Irã – Asghar Farhadi
2018: Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica) – Chile – Sebastián Lelio
2019: Roma (Roma) – México – Alfonso Cuarón (Último ano como “Melhor Filme Estrangeiro”)

Categoria Melhor Filme Internacional (2020-)

2020: Parasita (Gisaengchung) – Coreia do Sul – Bong Joon-ho
2021: Mais uma Rodada (Druk) – Dinamarca – Thomas Vinterberg
2022: Drive My Car (Doraibu mai kā) – Japão – Ryusuke Hamaguchi
2023: Nada de Novo no Front (Im Westen nichts Neues) – Alemanha – Edward Berger
2024: Zona de Interesse (The Zone of Interest) – Reino Unido – Jonathan Glazer
2025: Ainda Estou Aqui (Ainda Estou Aqui) – Brasil – Walter Salles

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