Além de ótima atriz, Catherine O’Hara era uma pessoa adorável

A morte da atriz Catherine O’Hara em 30 de janeiro de 2026 desencadeou uma busca por entender quem era a mulher por trás das perucas icônicas e dos sotaques indecifráveis, que encantava fãs e colegas de Hollywood.

Catherine O’Hara @ Getty

Ao longo de cinco décadas, Catherine entregou aprendizado, humor e muito ‘pé no chão’. De seus dias anárquicos no SCTV (série de esquetes canadense que foi ao ar entre 1976 e 1984) às conversas profundas sobre o etarismo no auge da série “Schitt’s Creek” (seis temporadas, estreando em janeiro de 2015 e concluindo sua trajetória original em abril de 2020). O papel de Moira Rose garantiu um Emmy, Globo de Ouro, Critic’s Choice e um Actors Award (antigo SAG) de Melhor Atriz em Série de Comédia.
Um dos registros mais preciosos de sua fase inicial foi a participação no programa de David Letterman nos anos de 1980. Catherine já demonstrava que não era uma convidada comum que apenas promovia filmes. Ela desafiou a dinâmica do talk show com uma rapidez de raciocínio que muitas vezes deixava o apresentador sem palavras. Claramente, ela mostrava ser uma artista que se recusava a ser apenas uma “novata” de Hollywood, preferindo discutir a mecânica da comédia e a importância da improvisação como uma ferramenta de liberdade individual. Era o início de sua cruzada silenciosa contra o tédio das expectativas da indústria.
A profundidade de Catherine como ser humano e artista atingiu um novo patamar na série de entrevistas Actors on Actors, da Variety. Ao conversar com colegas de profissão, ela revelou o que chamava de sua “política da empatia”: a crença de que nenhum personagem é ridículo demais se você encontrar o ponto de dor que o motiva. Ela detalhou como construía suas figuras de dentro para fora, focando menos na piada e mais na verdade emocional.
Nas últimas décadas, começou a abordar abertamente o etarismo, denunciando como a indústria tentava limitar o horizonte das mulheres maduras e reafirmando que sua curiosidade intelectual apenas aumentava com o passar dos anos.

Catherine O’Hara como Moira Rose em Schitt’s Creek @ vanity fair

No auge do fenômeno Schitt’s Creek, sua entrevista para o podcast Conan O’Brien Needs a Friend tornou-se lendária. Em um ambiente descontraído, Catherine falou sobre sua vida pessoal e seu casamento com Bo Welch com uma ternura que emocionou os ouvintes.
Ela descreveu a importância de manter os pés no chão e como sua família era o porto seguro que permitia suas decolagens mais loucas na ficção. Ainda revelou que o sotaque criado para compor Moira Rose foi uma criação orgânica, fruto de sua observação de pessoas que tentam desesperadamente parecer mais importantes do que se sentem. Foi uma aula de psicologia aplicada à atuação e um testemunho de sua inteligência.

Catherine O’Hara como Moira Rose em Schitt’s Creek @ getty

Entre 2024 e 2025, Catherine deu algumas de suas entrevistas mais militantes e reflexivas. Ao ser questionada sobre seu legado em uma conversa extensa para o The New York Times, foi categórica ao afirmar que sua maior vitória não foram os prêmios, mas o fato de ter chegado aos 70 anos trabalhando com a mesma paixão de quando tinha 20.
Ela usou o termo etarismo para descrever as batalhas que ainda precisavam ser vencidas e incentivou jovens atrizes a não temerem o tempo, mas a usarem cada ruga como uma marca de autoridade cênica. Essas entrevistas finais servem agora como o testamento político de uma mulher que nunca aceitou ser silenciada pela idade ou pelo conformismo.

Uma observação atenta mostrava uma característica marcante na história da atriz: sua generosidade. Em cada interação com a imprensa, ela fazia questão de elevar o trabalho de seus colegas, especialmente de Eugene Levy e Dan Levy, mostrando que sua grandeza não precisava apagar o brilho alheio.
Catherine partiu, mas suas palavras permanecem como um guia de como envelhecer com audácia, rir com inteligência e viver com uma integridade inabalável.

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