A internet contemporânea enfrenta um de seus maiores desafios éticos e sociológicos: a gestão da agressividade em rede. O que antes era visto como um comportamento isolado de usuários problemáticos consolidou-se como um fenômeno estrutural que reconfigura a esfera pública.
O portal MONDO MODA apresenta uma análise sobre como o ódio online deixou de ser um desvio individual para se tornar um sintoma de uma arquitetura tecnológica desenhada para o conflito, encontrando no Big Brother Brasil o seu palco mais emblemático.

Para compreender o presente, é necessário identificar as linhagens distintas do Troll e do Hater. O primeiro termo tem sua gênese na cultura tecnológica estadunidense dos anos 80, especificamente nos fóruns do Usenet.
Sociologicamente, o Troll opera sob a égide do Lulz, termo explorado pela antropóloga Gabriella Coleman para descrever um riso desviante e caótico. O objetivo do Troll não é a correção moral, mas a desestabilização emocional por meio da ironia, agindo como o arquétipo do trapaceiro (trickster) descrito por Carl Jung.

Em contraste, o Hater manifesta-se com maior intensidade na dinâmica social brasileira, onde a passionalidade e a busca por punição moral são centrais.
Baseando-se na teoria da distinção de Pierre Bourdieu, o Hater utiliza o ataque como ferramenta para nivelar autoridades e expressar ressentimentos de classe ou de prestígio social em uma arena onde todos possuem voz, mas poucos possuem relevância.
O Big Brother Brasil funciona como o catalisador perfeito para essas dinâmicas, institucionalizando o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreveu como comunidades de chapelaria.

O reality show cria uniões frágeis e instantâneas de espectadores que se conectam apenas enquanto dura o alvo da indignação coletiva. Durante o espetáculo do sincerão ou paredão, os espectadores compartilham uma ilusória sensação de unidade. No entanto, assim que o alvo é eliminado e o estímulo cessa, a comunidade se dissolve, revelando a fragilidade desses laços que não exigem sacrifício ou lealdade, mas apenas o desejo de pertencimento negativo.
O haterismo no contexto do programa é, portanto, uma tentativa desesperada de aliviar a angústia da solidão líquida através de uma performance coletiva de poder.
Este fenômeno é potencializado pela ausência de uma hierarquia de relevância no ambiente digital, um alerta antológico proferido pelo pensador italiano Umberto Eco. Ao observar que a rede deu voz a legiões que antes limitavam suas opiniões ao balcão de um bar, Eco antecipou a diluição do filtro editorial que hoje permite ao haterismo ter o mesmo peso visual que a crítica fundamentada.

No BBB, as opiniões passionais e os ataques coordenados ganham uma escala industrial, transformando o ressentimento individual em ruído público capaz de destruir reputações em questão de horas.
Complementando essa visão, o filósofo sul-coreano alemão Byung-Chul Han disseca em sua obra a transição para a psicopolítica digital, onde o ambiente das redes não forma uma massa com propósito social, mas sim um enxame de indivíduos isolados.
Han argumenta que as grandes plataformas de tecnologia, muitas delas geridas sob o modelo econômico estadunidense, transformam o ódio em uma mercadoria de alto valor.
A indignação passageira e o engajamento negativo são motores de lucro, fazendo com que o ódio não seja visto como um problema pelas plataformas, mas como um combustível essencial para manter os usuários conectados e produtivos dentro do sistema de vigilância e marketing.
A análise conclui que a fronteira entre o usuário comum e o agressor é extremamente porosa devido ao Efeito de Desinibição Online, definido pelo psicólogo John Suler. O anonimato e a distância física reduzem os freios morais que regulam a convivência presencial, sugerindo que a condição de Troll ou Hater é uma latência em todo usuário conectado.

Reconhecer que a economia da atenção, que lucra com a descida ao tribunal do ódio é o primeiro passo para reconstruir uma sensibilidade social.
Diante desse espelho digital que o Big Brother Brasil nos oferece, resta a provocação essencial: Somos Todos Trolls ou Haters?
