Artigo: O Olhar Colonial sobre o Corpo Gordo e Negro

O jornalismo de moda e comportamento sempre vendeu a ideia de que a gordofobia era apenas uma questão de estética ou “preocupação com a saúde”. Mas, ao mergulharmos nas raízes históricas, como propõe a socióloga Sabrina Strings, na obra “Fearing the Black Body: The Racial Origins of Fat Phobia”, percebemos que o buraco é muito mais embaixo.
A rejeição ao corpo gordo é, na verdade, um dos pilares de sustentação do racismo estrutural. E eu senti isso na pele, através de uma “amizade” que durou décadas.

Jorge Marcelo Oliveira @ Acervo Pessoal

Cresci em uma família de classe média  (pai, Cozinheiro de Linha de um respeitado restaurante de Campinas e mãe,  Comerciante de Hortifrúti), sendo um jovem negro, gordo e gay. No entanto, o que poderia ser visto como um “combo de exclusões” pelo sistema, para mim, era fonte de orgulho. Eu era nutrido pelos livros, pelo cinema, pela música e pela televisão.
Enquanto eu construía meu repertório cultural ao som de Madonna, uma amiga da adolescência — branca, magra e rigorosamente dentro do que chamamos de “padrão” — construía sua armadura em academias de ginástica.
Nossa amizade, que parecia unida pelo gosto compartilhado pelo cinema, escondia uma hierarquia silenciosa. Era comum ouvi-la dizer que tal pessoa era “bonita de rosto”, uma frase que, sob a lente do letramento racial e corporal que tenho hoje, revela uma tentativa violenta de separar a humanidade da pessoa de seu próprio corpo. É o olhar colonial que valida apenas o que pode ser controlado e “reformado”.
O simbolismo mais cruel, porém, vinha à mesa. Durante anos, nos almoços em sua casa, na hora da sobremesa, era comum ela servir uma sobremesa feita para aquele dia, ao lado de vasilhas de “outras”, feitas em outro momento.
Esse padrão de comportamento se repetiu até o nosso último contato, anos depois, culminando em uma doação de comida que incluía uma cebola estragada.
Não era apenas sobre comida. Era sobre o lugar que a branquitude magra reserva para o corpo dissidente: o lugar do resto, do descarte, do que não serve mais para quem está no topo da pirâmide estética.
A “era do Ozempic” e o retorno da magreza heroína que vemos hoje nas capas de revistas estadunidenses não são novidades. São apenas a atualização de um projeto antigo que utiliza o Índice de Massa Corporal (IMC) — uma ferramenta estatística baseada em homens brancos do século XIX — para patologizar a existência de quem não se submete à vigilância constante da carne.

Gordo negro e gordo com símbolo de resistência @ reprodução

Romper amizades que nos olham como um “projeto de reforma” não é apenas um ato de mágoa, é uma estratégia de sobrevivência e uma afirmação política.
O orgulho que eu sentia na adolescência, sem saber dar nome às coisas, hoje é a base da minha história pessoal e profissional.
Não aceito mais as sobras, nem as cebolas estragadas e muito menos o elogio limitado ao “rosto bonito”.
Nossos corpos são territórios inteiros de história, cultura e resistência. E neles, quem dita as regras somos nós.

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