Num universo historicamente dominado por um padrão estético branco e eurocêntrico, a presença da população negra na indústria da moda nunca foi uma concessão, mas sim o resultado de uma luta contínua por visibilidade, dignidade e humanização.
Antes de Naomi Campbell se tornar uma das primeiras supermodelos negras a alcançar estatuto global e dominar as passarelas internacionais, outras mulheres precisaram romper barreiras monumentais, enfrentando o racismo estrutural para provar que a beleza não tem uma única cor.
Ao revisitar a história dessas pioneiras, é impossível ignorar o papel do colorismo no mercado da moda. Muitas das primeiras modelos a conseguirem algum acesso às revistas e ateliês eram mulheres de pele mais clara ou mestiças.

Para o olhar branco da época, esses traços eram frequentemente lidos como “exóticos”, numa dinâmica de fetichização que permitia uma aceitação condicional, enquanto mulheres pretas retintas encontravam portas brutalmente fechadas.
A trajetória dessas pioneiras é, portanto, uma crônica de resistência política e estética.
Adrienne Fidelin
Nascida na ilha de Guadalupe, a dançarina Adrienne Fidelin (também conhecida como Ady) tinha 20 anos quando conheceu o badalado fotógrafo Man Ray, em 1936. Eles começaram a namorar e ela rapidamente se tornou sua modelo e musa inspiradora no auge do movimento surrealista.
Adrienne passou a circular em um meio intelectual e artístico privilegiado, tornando-se amiga de nomes como Pablo Picasso, que a retratou em pintura, e Leonora Carrington.

Em 1937, Man Ray trabalhava para inúmeras publicações estadunidenses, incluindo a Harper’s Bazaar. O dono da revista, William Randolph Hearst, proibia expressamente fotos de pessoas negras em seus títulos. Porém, Carmel Snow, a lendária editora de moda da publicação, tinha um prazer especial em contrariar as determinações racistas do chefe.
Snow convocou quatro fotógrafos para clicar Adrienne para uma matéria de duas páginas. Hoje, sob a lente do letramento racial, é possível perceber que muitas dessas imagens carregavam traços de exotização e fetichização, traduzindo o olhar branco sobre o corpo negro.

Apesar dessa limitação histórica, o marco estava feito: Adrienne Fidelin foi a primeira modelo negra a aparecer em uma revista de moda de grande circulação.
Após o início da Segunda Guerra Mundial, quando Man Ray fugiu para os Estados Unidos em 1940 para escapar do nazismo, Ady tomou a difícil decisão de ficar na França ocupada para cuidar de sua família. O último registro fotográfico conhecido dela feito por Man Ray ocorreu em 1947, quando o fotógrafo retornou a Paris para recuperar obras deixadas para trás. Nessa foto final, ela aparece sorridente ao lado de seu novo companheiro, André Art, com quem se casaria uma década depois.
A partir dos anos 1950, a trilha de Ady esfria completamente para os historiadores. Ela se distanciou daquele círculo da vanguarda artística, casou-se, continuou vivendo na França, mas mergulhou em um anonimato absoluto.

O impacto de Adrienne Fidelin não se limitou às passarelas ou às páginas da Harper’s Bazaar. Recentemente, pesquisadores revelaram que Ady foi musa inspiradora de um retrato de Pablo Picasso, pintado no emblemático verão de 1937, quando o grupo de artistas passava férias no sul da França.
A obra, intitulada “Mulher Sentada em Fundo Amarelo e Rosa II”, foi inspirada em uma fotografia de Man Ray e permaneceu no acervo pessoal de Picasso até a sua morte, o que demonstra a importância afetiva e artística que Ady representava naquele círculo.

A personalidade vibrante da modelo ficou registrada em uma anedota da época: ao conhecer o gênio espanhol, Adrienne o abraçou e brincou dizendo que tinha ouvido falar que ele era um bom pintor.
Atualmente, existe uma busca internacional denominada “Finding Ady”, liderada por pesquisadores que tentam localizar este quadro, visto em público pela última vez em 1985.
A trajetória de Adrienne prova que ela não era apenas uma musa passiva, mas uma força criativa que desafiou as estruturas de poder da arte e da moda.

A prova definitiva dessa invisibilização veio do The New York Times, que em 2022 precisou publicar um obituário tardio para Adrienne na série “Overlooked No More”. O jornal admitiu que, embora ela tenha falecido em 2004, sua história foi ignorada pelos editores por décadas. Este resgate histórico reforça a necessidade de portais independentes manterem viva a memória de quem rompeu as primeiras barreiras.
Dorothea Towles Church
A texana Dorothea Towles Church, batizada como Dorthy Mae Towles, não foi apenas a primeira modelo negra a conquistar as passarelas da alta-costura em Paris; ela foi uma voz de resistência que usou o seu intelecto e autonomia para redefinir o lugar da mulher preta na sociedade.
Filha de um mecânico e de uma professora, Dorothea formou-se em Biologia no Wiley College, evidenciando que sua sofisticação estava ancorada em uma sólida formação académica. Antes de brilhar na Europa, já atuava como professora de biologia e teatro em Los Angeles, provando que sua trajetória não se limitava à estética, mas também ao conhecimento.

Embora o seu sonho inicial fosse ser atriz, a falta de papéis dignos para artistas negros na década de 1940 a levou a matricular-se na Dorothy Farrier Charm and Modeling School, onde foi a primeira aluna negra.
A grande virada aconteceu em 1949, quando viajou para Paris para acompanhar a sua irmã, a famosa pianista Lois Towles. Foi então contratada por Christian Dior para substituir temporariamente uma modelo, oportunidade que mudaria definitivamente o rumo da sua vida.
Dorothea decidiu não regressar aos Estados Unidos naquele momento. Essa escolha resultou no fim do seu primeiro casamento com um dentista californiano, mas abriu as portas para uma carreira de cinco anos como estrela de nomes como Jacques Fath, Elsa Schiaparelli e Pierre Balmain.

Em Paris, Dorothea experimentou uma liberdade política inédita, afirmando em entrevistas posteriores que, na França, não era lida como preta ou afro-estadunidense, mas simplesmente como americana. Contudo, o racismo e o colorismo permaneciam como sombras persistentes.
No ateliê de Schiaparelli, era frequentemente descrita como “Taitiana”, um eufemismo racista que classificava sua beleza como algo exótico. Além disso, Pierre Balmain chegou a proibir que ela usasse suas criações em um ensaio para a revista Ebony, temendo a reação de clientes brancas.
Em um ato de rebeldia e afirmação, Dorothea pegou o vestido sob o pretexto de usá-lo em uma festa e foi diretamente para o estúdio fotográfico.

Em abril de 1953, posou para a revista JET. Esta capa é considerada a mais icónica porque marcou o momento em que a mídia negra celebrou sua vitória sobre a alta-costura europeia. A JET funcionava como um verdadeiro termómetro social da comunidade negra nos Estados Unidos, e colocar Dorothea na capa significava afirmar que uma de suas filhas havia conquistado o topo da pirâmide da moda mundial.

Ao retornar definitivamente para os Estados Unidos em 1954, Dorothea trouxe consigo uma bagagem literal e simbólica: uma coleção de alta-costura avaliada em 50 mil dólares.
Diante da resistência das marcas nacionais em contratar modelos negras, ela transformou seu acervo em um negócio itinerante. Organizou desfiles em mais de 100 faculdades e escolas secundárias para o público negro, treinando modelos locais e revertendo os lucros para bolsas de estudo da irmandade Alpha Kappa Alpha.
Dorothea Towles Church provou que a moda, quando aliada ao intelecto e à resistência, pode tornar-se uma ferramenta poderosa de elevação social.

Anos depois, em 1959, foi capa da revista Sepia. Foi nesta ocasião, a pedido de Christian Dior, que pintou o cabelo de loiro para o ensaio, um visual que chocou e fascinou o público da época, desafiando mais uma vez os estereótipos de beleza.
Ela faleceu em 7 de julho de 2006, em Nova York, aos 83 anos, em decorrência de complicações de doenças cardíacas e renais.
É interessante notar que, até o fim da vida, manteve-se ativa intelectualmente e comprometida com a preservação de sua própria história. Antes de falecer, estava a escrever suas memórias, que tinham o título provisório de “I Did It With My Body” (Eu fiz isso com o meu corpo), mas o livro infelizmente nunca foi concluído.

Seu legado foi tão impactante que, um ano após sua morte, em 2007, recebeu uma homenagem póstuma oficial na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, por iniciativa do congressista Charles B. Rangel.
Ophelia DeVore
Enquanto Adrienne e Dorothea navegavam por espaços dominados por brancos, outra pioneira compreendeu que a verdadeira mudança exigia a construção de uma infraestrutura própria.
Ophelia DeVore nasceu em Edgefield, na Carolina do Sul, em 1922, com uma ascendência que misturava raízes africanas, indígenas da etnia Cherokee, francesas e alemãs.
A trajetória de Ophelia exemplifica perfeitamente como a passabilidade racial abria brechas estratégicas no sistema, mas também exigia concessões dolorosas. Sua pele muito clara permitiu que frequentasse a excludente Vogue School of Modeling em Nova York, mas, para ser aceite, precisou ocultar sua herança negra.

Após se formar, tornar-se capa da revista Ebony em seu ano de lançamento e modelar na Europa, Ophelia tomou uma decisão radical.
Em vez de apenas usufruir de seus acessos no mercado estadunidense passando por uma mulher branca, assumiu sua identidade e retornou em 1946 para fundar a The Grace Del Marco Agency, a primeira agência do país a trabalhar exclusivamente com talentos negros.
Dois anos depois, também implementou um curso de Elegância e Etiqueta voltado à comunidade negra.

A agência foi um divisor de águas. Ophelia lançou nomes históricos como a modelo Helen Williams e os atores Cicely Tyson e Richard Roundtree. Sua visão empresarial rompeu o boicote comercial da época, conquistando clientes poderosos como Budweiser e Johnson & Johnson.

Ela também foi peça-chave na carreira de Diahann Carroll, ajudando a atriz a conseguir o papel principal em “Julia”, a primeira série protagonizada por uma mulher negra em um papel não estereotipado na televisão estadunidense.

Inquieta e visionária, Ophelia expandiu o seu império comunicacional: foi coapresentadora do primeiro programa de televisão nova-iorquino voltado à comunidade negra na ABC e, posteriormente, proprietária do jornal The Columbus Times.
Ophelia faleceu em fevereiro de 2014, aos 91 anos, deixando um legado imensurável de empoderamento e construção de oportunidades.

Como ela mesma resumiu em uma entrevista pouco antes de sua morte:
“Eu quis mudar a forma como os negros eram vistos nos Estados Unidos. Eu quis que a América soubesse que a beleza não é apenas branca.”
Mais do que uma declaração, essa frase sintetiza uma estratégia histórica de resistência estética e política que redefiniu os contornos da representatividade na moda e na publicidade.
Síntese do Capítulo
Da representação simbólica à construção de infraestrutura, essas pioneiras demonstram que a presença negra na moda não foi apenas uma conquista estética, mas um projeto político e social.
Adrienne Fidelin abriu as portas da visibilidade.
Dorothea Towles Church rompeu as estruturas institucionais.
Ophelia DeVore construiu os caminhos para que outros pudessem entrar.
Juntas, elas não apenas participaram da história da moda — elas a transformaram.
