Série As Panteras completa 50 anos

“Era uma vez três garotas que ingressaram na academia de polícia. E cada uma deles recebeu missões muito perigosas para cumprir. Mas eu as livrei de tudo isso e agora trabalham para mim. O meu nome é Charlie.”

Estas palavras foram ouvidas todas as semanas entre 1976 e 1981 durante a abertura da série “As Panteras” (Charlie’s Angels, no original). À medida que cada uma das personagens icónicas aparecia com os cabelos perfeitamente penteados, o público se empolgava.
O piloto da série estreou no canal estadunidense ABC no dia 21 de março de 1976. Conquistou uma boa audiência. Da noite para o dia, o trio de detetives da agência do misterioso Charles Townsend conquistou o país, e na sequência, o resto do mundo.

Farrah Fawcett. Kate Jackson e Jaclyn Smith – As Panteras 1976 @ Reprodução

A imagem das atrizes estava em figurinhas de chiclete, pôsteres, lancheiras, bonecas e nas revistas (incluindo a Time – a mais importante publicação estadunidense da época). O programa chegou a ocupar a quarta posição entre os mais vistos nos Estados Unidos.

A ideia original era de Ivan Goff e Ben Roberts, que concebeu o programa com o nome de “Alley’s Cat”, mas foram os produtores executivos Aaron Speling e Leonard Goldberg que transformaram a série num sucesso. A primeira mudança foi o nome original, em seguida, o formato, injetando muito mais glamour, humor e agilidade.
Após a exibição do piloto de 90 minutos, o público aprovou. Os produtores refizeram a abertura, mostrando muito mais agilidade e a série estreou oficialmente em 22 de setembro daquele ano. Rendeu cinco temporadas com 116 episódios de aproximadamente 50 minutos. Teve três trocas de atrizes e foi cancelado no dia 24 de junho de 1981.

A Trama

As Panteras 1976 – 1977 @ Reprodução

Recrutadas diretamente da Academia de Polícia de Los Angeles, três mulheres habilidosas (Sabrina Duncan, Kelly Garret e Jill Munroe) foram selecionadas para integrar a Agência de Detetives do enigmático Charlie Townsend.
A premissa da série unia a investigação de crimes a uma estética pautada pelo glamour e cenários exóticos, onde as protagonistas equilibravam a precisão no manejo de armas com uma astúcia aguçada para solucionar os casos mais complexos.
A operação cotidiana da agência ficava sob a responsabilidade de John Bosley (David Doyle). O braço direito de Charlie atuava como o elo vital entre as moças e o patrão invisível.
Com o desenrolar da trama, especialmente a partir da segunda temporada, a figura de Bosley ganhou novas camadas ao participar de forma mais direta das missões em campo. Tornou-se o contraponto divertido das missões.

Cada integrante do trio original possuía uma especialidade distinta que garantia o sucesso das operações. Sabrina Duncan (Kate Jackson) destacava-se pela versatilidade em disfarces e na modulação de voz. Kelly Garrett (Jaclyn Smith) era o pilar de serenidade, agindo sempre de forma estratégica e calculista. Já Jill Munroe (Farrah Fawcett) utilizava seu carisma e sensualidade como ferramentas de infiltração nas investigações.
O contato com o chefe ocorria exclusivamente por meio de um aparelho de viva voz, objeto que se consolidou como o dispositivo tecnológico mais icônico da televisão naquela década.

O mistério sobre a identidade de Charlie era um dos fios condutores da narrativa. Embora as detetives tentassem decifrar quem era o homem por trás da voz, o encontro definitivo com o público e com as próprias Panteras só aconteceu no encerramento da série.
Ainda que a narrativa fosse focada no combate ao crime, o fenômeno cultural em torno da obra foi impulsionado pela imagem das atrizes. O destaque dado aos penteados impecáveis e ao estilo sofisticado das jovens criou um padrão de beleza que definiu uma era, provando que a eficiência investigativa poderia caminhar lado a lado com o fascínio visual.

O elenco – Kate Jackson

 

Kate Jackson As Panteras 1976 – 1977 @ Reprodução

A contratação de Kate Jackson para o papel de Sabrina Duncan é um dos capítulos mais interessantes dos bastidores da série, pois ela foi, na verdade, a primeira “Pantera” a ser escalada e teve influência direta na concepção do programa.
Diferente das outras atrizes, Kate já era um rosto conhecido da rede ABC devido ao sucesso na série policial The Rookies. Quando essa produção foi cancelada, os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg estavam determinados a mantê-la no canal e apresentaram a ela o conceito de uma nova série sobre três mulheres que combatiam o crime.

As Panteras 1976 – 1977 @ Reprodução

Originalmente, os produtores ofereceram a Kate o papel de Kelly Garrett (que acabou ficando com Jaclyn Smith). No entanto, após ler o roteiro, Kate demonstrou mais interesse pela personagem que viria a ser a “inteligente” do grupo. Ela mesma escolheu interpretar Sabrina Duncan, sentindo que a personagem tinha mais substância e autoridade tática.
Foi durante uma reunião de pré-produção no escritório de Aaron Spelling que Kate Jackson deu uma contribuição histórica: ela não gostava do título provisório Alley Cats (Gatas de Beco). Ao olhar para uma parede que tinha um quadro com três anjos e uma foto do produtor executivo Charles Bluhdorn, ela sugeriu que elas fossem os “Anjos do Charlie”. Assim nasceu o título definitivo Charlie’s Angels.

As Panteras 1976 – 1977 @ Reprodução

Como ela era a única do trio com um currículo consolidado na televisão, sua contratação veio acompanhada de um status de estrela. Kate assinou um contrato que lhe garantia o maior salário inicial: US$ 10.000 por semana, o dobro do que recebiam Farrah Fawcett e Jaclyn Smith no início das gravações.
Sua visão para a personagem era a de uma mulher feminista, séria e profissional, o que frequentemente a colocava em rota de colisão com os produtores, que preferiam focar no apelo visual e em situações mais leves. Essa postura “diretiva” de Kate foi fundamental para que Sabrina Duncan se tornasse a líder estratégica da agência, equilibrando o tom da série entre a ação policial e o entretenimento puramente estético.

O elenco – Jaclyn Smith

A contratação de Jaclyn Smith para o papel de Kelly Garrett foi um processo que uniu persistência dos produtores e uma aposta na beleza clássica que personificava o glamour daquela década. Diferente de Kate Jackson, que já era uma estrela da TV, Jaclyn era conhecida principalmente por seus trabalhos em comerciais de televisão, sendo um dos rostos mais famosos da publicidade estadunidense na época.

Os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg buscavam um trio que tivesse contrastes claros: a inteligente (Sabrina), a esportiva/sensual (Jill) e a sofisticada. Jaclyn Smith se encaixava perfeitamente no arquétipo da “beleza morena clássica”. Ela fez o teste para a série diversas vezes, pois os executivos da rede ABC ainda tinham dúvidas se ela conseguiria segurar o peso de uma protagonista de drama policial, dado que sua experiência em atuação era considerada limitada comparada à de Kate Jackson.

Aaron Spelling, no entanto, ficou fascinado pela presença de Jaclyn na tela. Ele acreditava que ela possuía uma elegância inata que elevaria o nível da agência de detetives. Após vários testes de vídeo (screen tests) ao lado de Kate Jackson, a química entre as duas convenceu os produtores de que ela seria a Kelly Garrett ideal.

Diferente de Kate, que entrou com o status de protagonista e um salário de US$ 10.000, Jaclyn Smith foi contratada com o salário inicial de US$ 5.000 por semana. Ela aceitou o papel rapidamente, vendo ali a grande oportunidade de transição das propagandas de xampu e cosméticos para o horário nobre da televisão.

CHARLIE’S ANGELS – AD Gallery – June 1976 – Jaclyn Smith

Um fato curioso é que, embora tenha sido a segunda a ser escalada (depois de Kate e antes de Farrah), Jaclyn acabou se tornando a alma da série. Ela foi a única atriz a permanecer em todos os 116 episódios das cinco temporadas. Sua personagem, Kelly Garrett, evoluiu de uma detetive sensível para a líder operacional do grupo após a saída de Kate Jackson, mantendo sempre o equilíbrio e a elegância que se tornaram sua marca registrada e que, mais tarde, ela usaria para construir seu império na moda e no varejo.

O elenco – Farrah Fawcett

Farrah Fawcett Majors 1976 @ Divulgação

A contratação de Farrah Fawcett para o papel de Jill Munroe foi o movimento que transformou As Panteras de um simples seriado policial em um fenômeno cultural sem precedentes. Diferente de suas colegas, Farrah não era a primeira opção e sua entrada na série foi cercada de incertezas.

Em 1976, Farrah Fawcett era mais conhecida como a esposa do ator Lee Majors, o astro de O Homem de Seis Milhões de Dólares. Ela já havia feito participações na série do marido e em alguns comerciais, mas estava relutante em aceitar um papel fixo em um novo seriado.
Farrah acreditava que, após o sucesso das suas aparições especiais, ela conseguiria um programa próprio onde seria a única protagonista.

Os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg buscavam uma atriz que personificasse a “beleza californiana”: loira, atlética, saudável e com um sorriso magnético. Eles queriam alguém que trouxesse uma mistura de inocência e sensualidade.
Após testarem dezenas de atrizes, Spelling ficou impressionado com a presença de Farrah em cena e insistiu que ela era a peça que faltava para completar o trio ao lado de Kate Jackson e Jaclyn Smith.

Farrah Fawcett (1947-2009)

 

Farrah foi a última das três a assinar o contrato. Assim como Jaclyn Smith, ela começou com um salário de US$ 5.000 por semana — metade do que recebia Kate Jackson. Na época, ninguém previa que ela se tornaria o maior destaque do programa. O contrato que ela assinou era o padrão da indústria na época: um compromisso de cinco anos, o que mais tarde se tornaria o centro de uma grande batalha judicial.

O que selou a contratação e o sucesso de Farrah não foi apenas seu talento dramático, mas sua imagem. Pouco antes da estreia da série, ela posou para o famoso pôster do maiô vermelho. A combinação da estreia de As Panteras com a venda de milhões de cópias desse pôster criou uma “tempestade perfeita”.

Studio 54 Farrah Fawcett e Steven Rubell @ Reprodução

O penteado de Farrah, o corte em camadas conhecido como Pigmaleão, tornou-se o mais pedido nos salões de beleza de todo o mundo, e ela rapidamente eclipsou Kate Jackson, que originalmente deveria ser a protagonista.

Apesar do sucesso estrondoso, a passagem de Farrah como contratada regular durou apenas uma temporada (29 episódios). Insatisfeita com os roteiros que focavam excessivamente em sua aparência e pressionada pelo marido, que queria que ela passasse mais tempo em casa, ela decidiu quebrar o contrato.
Isso resultou em um processo milionário de Aaron Spelling, que a obrigou a retornar para participações especiais nos anos seguintes para encerrar a disputa legal.

O elenco – Cheryl Ladd

Cheryl Ladd @ Divulgação

Quando Farrah Fawcett decidiu deixar a série após o final da primeira temporada, a rede ABC entrou em pânico. Farrah era o maior fenômeno de mídia do mundo na época.
Os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg sabiam que tentar encontrar uma “nova Farrah” seria um erro fatal, pois o público rejeitaria uma cópia.

Cheryl Ladd, na época uma jovem atriz e cantora (conhecida por fazer a voz de uma das personagens do desenho Josie e as Gatinhas), foi a primeira escolha de Aaron Spelling.
No entanto, ela recusou o convite inicialmente. Cheryl temia que a pressão de substituir o maior ícone da década destruísse sua carreira antes mesmo de começar.
Foi Spelling quem a convenceu, usando um argumento psicológico: ela não seria uma substituta direta de Jill Munroe, mas sim uma nova personagem, a irmã caçula de Jill, chamada Kris Munroe.

1979 Jill (Farrah Fawcett) e Kris (Cheryl Ladd) (Photo by Walt Disney Television via Getty Images Photo Archives/Walt Disney Television via Getty Images)

Para suavizar a transição e ganhar a aceitação do público, os roteiristas criaram uma narrativa de continuidade familiar. Kris Munroe acabava de se formar na Academia de Polícia (assim como as outras) e chegava para preencher a vaga da irmã, que “teria ido correr profissionalmente na Europa”.
No primeiro dia de gravação, Cheryl Ladd usou uma camiseta com a frase “Farrah Fawcett-Minha” (um trocadilho em inglês com “Farrah Fawcett-Minor”, indicando que ela era a versão menor ou caçula).
Esse gesto de humildade e humor quebrou o gelo com a equipe e com as outras duas protagonistas, Jaclyn Smith e Kate Jackson, que estavam ressentidas com a saída abrupta de Farrah.

As Panteras 1978 @ Reprodução

A missão de Cheryl era considerada “suicida” pela imprensa da época, mas ela triunfou por dois motivos principais:
Diferenciação de Personalidade: Enquanto Jill (Farrah) era a “Garota de Malibu” glamorosa e sensual, Kris (Cheryl) foi construída como uma personagem atrapalhada, divertida e muito humana, que frequentemente se metia em situações cômicas. Isso fez com que o público se identificasse com ela rapidamente.
Talento Multidisciplinar: Cheryl era uma excelente cantora, e os produtores aproveitaram isso em diversos episódios, expandindo o alcance da personagem para além das cenas de ação.

Cheryl Ladd @ Divulgação

Contra todas as previsões de que a série seria cancelada sem Farrah, Cheryl Ladd não apenas manteve a audiência, como ajudou a série a durar mais quatro temporadas. Ela permaneceu no programa até o último episódio, em 1981, provando que a marca As Panteras era maior do que qualquer individualidade, embora sua entrada tenha sido o teste de fogo mais difícil da produção.

Se não bastasse a pressão sobre qual seria a reação do público, Cheryl Ladd enfrentou um outro problema: o gelo de Kate Jackson.
Kate era a “mentora” intelectual da série e tinha ficado profundamente abalada com a saída de Farrah Fawcett, de quem era muito amiga. Para Kate, a substituição de Farrah por Cheryl foi vista como uma decisão puramente comercial dos produtores, o que a irritava, já que ela buscava roteiros mais sérios.
Relatos da época e a própria Cheryl Ladd confirmaram em entrevistas anos depois que Kate muitas vezes se recusava a falar com ela no set, limitando-se apenas ao que estava no roteiro. Houve momentos em que o clima era tão tenso que as gravações precisavam ser interrompidas. Kate sentia que a “essência” da série tinha se perdido com a troca.
Em contrapartida, Jaclyn Smith foi o porto seguro de Cheryl. Jaclyn percebeu a pressão imensa que a novata estava sofrendo — afinal, Cheryl tinha a missão “suicida” de substituir o maior ícone de beleza do planeta.
Jaclyn acolheu Cheryl desde o primeiro dia, estabelecendo uma conexão que ultrapassou as telas. Essa amizade não foi apenas para as câmeras; elas se tornaram confidentes reais. Até hoje, em 2026, elas são vistas juntas com frequência, apoiam os lançamentos de marcas uma da outra e celebram aniversários como verdadeiras irmãs. Em entrevistas recentes, elas costumam dizer que são “irmãs de alma”.

Jacklyn Smith e Cheryl Ladd @ Getty Images

Essa postura de Kate Jackson, somada às suas constantes reclamações sobre a qualidade dos roteiros, acabou desgastando sua relação com os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg.
O ápice do conflito ocorreu quando Kate foi impedida pelos produtores de aceitar o papel principal no filme Kramer vs. Kramer (que acabou indo para Meryl Streep e rendeu a ela um Oscar), porque eles não liberaram sua agenda de gravações. Amargurada e com o ambiente pesado, Kate acabou sendo demitida ou “convidada a sair” ao final da terceira temporada, em 1979.

O elenco – Shelley Hack

Campanha do perfume Charlie estrelado por Shelley Hack de As Panteras 1979 @ Reprodução

Com a “saída” de Kate Jackson, os produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg decidiram elevar o nível de sofisticação da série. Eles buscavam alguém que exalasse inteligência, mas com um toque de alta sociedade.
Shelley Hack era o rosto do perfume Charlie, da Revlon, um dos comerciais mais icônicos dos anos 70. Ela personificava a mulher independente, chique e cosmopolita. A ideia era que sua personagem, Tiffany Welles, fosse uma ex-policial de Boston, filha de um amigo de Charlie, trazendo um ar de “dinheiro antigo” e erudição para o trio. O público, no entanto, não comprou a ideia.
Existem três razões principais para a rejeição:
Shelley era uma supermodelo de elite, mas tinha pouca experiência como atriz. Ao lado de Jaclyn Smith e Cheryl Ladd, sua atuação foi considerada “travada” e sem o tempo cômico ou dramático que a série exigia.
O público sentia falta da energia de Kate Jackson. Tiffany Welles foi escrita como uma personagem cerebral e contida, o que muitos telespectadores interpretaram como arrogância ou frieza. Em uma série que sobrevivia da química e da “sororidade” entre as três mulheres, Shelley parecia deslocada.

1980 As Panteras Jaclyn Smith, Shelley Hack e Cheryl Ladd @ Divulgação

Kate Jackson era a alma tática do programa. Quando Shelley entrou, a dinâmica mudou e a audiência começou a cair drasticamente. A imprensa da época foi cruel, apelidando-a pejorativamente de “a Pantera que não sabia lutar”.

A pressão foi tão grande que, após apenas uma temporada (a quarta, 1979-1980), os produtores decidiram dispensar Shelley Hack. A demissão foi pública e traumática para a atriz, que declarou anos depois ter se sentido um “bode expiatório” pela queda de audiência que, na verdade, já sinalizava um desgaste natural do formato da série.

O elenco – Tanya Roberts

Tanya Roberts As Panteras 1980-81 @ Reprodução

Para substituir a refinada Tiffany Welles, os roteiristas criaram Julie Rogers, uma modelo e ex-instrutora de artes marciais com um histórico mais “rebelde” e de origem menos glamuroso.
Tanya Roberts foi selecionada entre duas mil candidatas por sua presença física impactante e por uma energia que lembrava o vigor da primeira temporada.
Diferente de todas as outras Panteras, Julie Rogers não vinha da Academia de Polícia; ela era uma civil que ajudava a agência em um caso e acabava sendo recrutada por Charlie. Foi uma tentativa de modernizar a dinâmica e trazer um frescor de “garota comum que sabe brigar”.

1981 As Panteras Tanya Roberts, Jaclyn Smith e Cheryl Ladd @ Divulgação

Além da nova atriz, a série mudou de cenário. Numa tentativa desesperada de elevar a audiência, a produção mudou a base de operações da Agência Townsend para o Havaí. O objetivo era aproveitar as paisagens exóticas e, claro, o figurino de moda praia, que sempre foi um forte atrativo da série.
Tanya Roberts se esforçou muito e teve uma química imediata com Cheryl Ladd e Jaclyn Smith. No entanto, o público já estava saturado.
A fórmula das “belas mulheres em perigo” começava a parecer datada diante de novas séries que surgiam na década de 80, com tramas mais densas ou realistas.

Apesar do carisma de Tanya — que mais tarde se tornaria uma Bond Girl em 007 Na Mira dos Assassinos —, a audiência continuou despencando. Em 1981, a rede ABC decidiu que o custo de produção, especialmente com as filmagens no Havaí, não justificava mais o retorno.
A série foi cancelada após 116 episódios. O último episódio, intitulado “Let Our Angel Live” (Deixem Nossa Pantera Viver), foi ao ar em 24 de junho de 1981, encerrando um ciclo de cinco anos que mudou para sempre a representação feminina na TV e o mercado de licenciamento de produtos.

O elenco – David Doyle

As Panteras Jaclyn Smith, David Doyle, Cheryl Ladd e Kate Jackson @ divulgação

A contratação de David Doyle para o papel de John Bosley foi uma das decisões mais pragmáticas e acertadas dos produtores Aaron Spelling e Leonard Goldberg. Enquanto a busca pelas “Panteras” era focada em encontrar rostos magnéticos e que vendessem uma estética de moda, a escolha de Bosley precisava de um “porto seguro” dramatúrgico.

Os produtores sabiam que, para o formato da série funcionar, era preciso um personagem masculino que servisse de âncora. Ele não poderia ser um interesse romântico (para não quebrar a dinâmica de independência das moças) e nem um chefe autoritário e distante como o Charlie. David Doyle foi escolhido justamente por sua aparência de “tio bondoso” ou “irmão mais velho protetor”.

Diferente de boa parte do elenco feminino inicial, David Doyle era um ator veterano, com uma sólida carreira no teatro (incluindo a Broadway) e em participações em diversas séries de TV desde os anos 50.
Sua voz era marcante e sua presença em cena trazia um alívio cômico necessário para equilibrar as sequências de ação e mistério.
A rede ABC buscava alguém que passasse credibilidade e inteligência, mas que não ofuscasse o brilho das protagonistas. Doyle aceitou o papel de John Bosley vendo nele a oportunidade de um emprego estável em uma grande produção, sem imaginar que o personagem também se tornaria um ícone da cultura pop.

Embora o título da série focasse no trio feminino, David Doyle foi, ao lado de Jaclyn Smith, o único ator a aparecer em todos os 116 episódios da série. Sua química com as atrizes era tão genuína que frequentemente era chamado nos bastidores de “o quarto anjo”.
Doyle era o mediador de egos nos sets de gravação. Quando as tensões entre as atrizes ou entre elas e a produção aumentavam, era a figura paternal e profissional de David que ajudava a manter o ambiente equilibrado. Ele foi indicado ao Emmy e ao Globo de Ouro pelo papel, provando que sua contribuição ia muito além de ser apenas o homem que segurava o viva-voz para as detetives ouvirem o Charlie.

Prêmios

As Panteras – 50 anos @ Gemini

Embora a crítica da época por vezes rotulasse a série como entretenimento leve, os grandes prêmios da indústria não ignoraram o impacto da produção:

People’s Choice Awards: Em 1977, a série venceu como Novo Programa de TV Favorito, provando que a conexão com o público foi instantânea e avassaladora.

Globo de Ouro: A série acumulou diversas indicações ao longo dos anos. Kate Jackson foi indicada três vezes seguidas como Melhor Atriz em Série de Drama (1977, 1978 e 1979). Farrah Fawcett também recebeu uma indicação por sua única temporada (1977).

Emmy Awards: Kate Jackson recebeu duas indicações ao prêmio máximo da TV estadunidense. O veterano David Doyle também foi reconhecido com uma indicação ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante, validando a importância de seu Bosley para a narrativa.

Legado

Antes das Panteras, mulheres em séries policiais eram geralmente secretárias ou vítimas. O trio de Charlie introduziu a ideia de mulheres autossuficientes que não precisavam de heróis masculinos para salvá-las. Elas lutavam, dirigiam carros velozes e resolviam crimes usando a inteligência. Para muitas jovens da época, ver Sabrina, Kelly e Jill em ação foi um despertar para o feminismo pop.

Além do brilho de suas protagonistas, a série serviu como um verdadeiro selo de prestígio para atores em ascensão e lendas consagradas. O episódio Panteras Acorrentadas, da primeira temporada, tornou-se icônico por apresentar uma jovem Kim Basinger muito antes de ela se tornar uma estrela mundial e vencedora do Oscar. O programa também abriu espaço para grandes damas da era de ouro de Hollywood, como Barbara Stanwyck, que interpretou uma mentora de detetives em um projeto de série derivada, e Ida Lupino, pioneira na atuação e direção, que viveu uma ex-estrela de cinema em uma trama de suspense. Outros nomes que deram seus primeiros passos na Agência Townsend incluem Jamie Lee Curtis, Tommy Lee Jones e veteranos como Dean Martin e Sammy Davis Jr., consolidando a produção de Aaron Spelling como o ponto de encontro definitivo entre o glamour clássico e a nova estética da televisão.

Episódio de As Panteras (1980) com participação especial da veterana Barbara Stanwick @ Reprodução

Farrah Fawcett era a “Garota de Ouro”. O pôster do maiô vermelho e o cabelo volumoso criaram um padrão de beleza que parou o mundo. Ela representava o ideal aspiracional da época, uma mistura de saúde, juventude e uma sensualidade solar que apelava tanto para o público masculino quanto para as mulheres que queriam copiar seu estilo.

Eleita diversas vezes como a mulher mais bonita do mundo, Jaclyn Smith trazia uma beleza mais clássica, serena e europeia. Enquanto Farrah era a explosão, Jaclyn era o refinamento. Isso permitiu que ela transitasse com facilidade para o mundo dos negócios e da moda de luxo acessível, pois sua imagem passava credibilidade e uma sofisticação que o público feminino admirava e respeitava.

Kate Jackson, com sua Sabrina Duncan, subverteu o papel da “detetive glamorosa”.
Kate frequentemente usava roupas mais estruturadas, blazers, calças de corte masculino e golas altas, fugindo do decote óbvio.
Sua personagem era a única que realmente questionava as ordens, era a estrategista e mantinha uma postura mais séria e contida.
Essa combinação de intelecto, pragmatismo e um estilo visual menos focado no olhar masculino (male gaze) fez com que toda uma geração de mulheres lésbicas se identificasse com ela.
Sabrina Duncan representava uma forma de ser feminina que era poderosa, autônoma e tática, tornando-se uma referência de estilo e comportamento para a comunidade LGBTQIAPN+ da época.

Ao completar 50 anos do seu piloto, As Panteras permanece como um símbolo de resistência estética. O mistério de Charlie, a lealdade de Bosley e a força das detetives criaram um arquétipo que sobreviveu a filmes, remakes e paródias.
Mesmo com as mudanças de elenco e as críticas sobre a “objetificação” da época, a série provou que a união feminina era o gadget mais poderoso da Agência Townsend. Como você sempre diz, Jorge, intercalar esses universos de moda, arte e questões sociais é uma forma de resistência, e as Panteras fizeram exatamente isso: usaram o glamour para ocupar um espaço que, até então, lhes era negado.

A vida pós “As Panteras”

 

 

O destino do elenco original e das substitutas de As Panteras é um mosaico de triunfos empresariais, reinvenções profissionais e, infelizmente, despedidas precoces.

Farrah Fawcett (Jill Munroe): Deixou o programa no auge, em 1977. Lutou anos para ser levada a sério como atriz dramática, conseguindo aclamação em Extremities (1986) e no filme para TV The Burning Bed, que lhe rendeu indicações ao Emmy.
Tornou-se um ícone da cultura pop, mas sua carreira no cinema nunca atingiu o patamar que ela esperava após a saída tumultuada da série.
Faleceu em 25 de junho de 2009, aos 62 anos, após uma longa e pública batalha contra o câncer anal. Sua morte ocorreu no mesmo dia que a de Michael Jackson, o que acabou ofuscando parte das homenagens na época.

Kate Jackson (Sabrina Duncan): Saiu em 1979 e estrelou a série de sucesso Scarecrow and Mrs. King (1983-1987). Perder o papel em Kramer vs. Kramer foi uma mágoa que carregou por anos.
Enfrentou sérios problemas de saúde (venceu o câncer de mama duas vezes) e batalhas judiciais contra ex-gestores que dilapidaram sua fortuna.
Aos 77 anos, Kate vive de forma extremamente reclusa. Afastada da mídia desde meados dos anos 2000, ela raramente faz aparições públicas, preferindo o silêncio e a privacidade em sua residência nas montanhas.

Jaclyn Smith (Kelly Garrett): Única a ficar os cinco anos. Estreou diversas minisséries de prestígio, como Jacqueline Bouvier Kennedy (1981).
Foi a grande visionária. Sua parceria com a Kmart a tornou uma das mulheres mais ricas do setor, com um patrimônio estimado em centenas de milhões de dólares (é uma das 20 atrizes mais ricas dos EUA).
Aos 80 anos, Jaclyn é uma magnata do estilo de vida. Mantém-se ativa no design de interiores, moda e cuidados com a pele. É a “guardiã” da memória da série e continua deslumbrante, frequentemente compartilhando sua rotina nas redes sociais.

Cheryl Ladd (Kris Munroe): Manteve uma carreira constante em filmes para TV e participações em séries (como CSI: Miami e American Crime Story). Também teve uma breve carreira como cantora e lançou livros infantis.
Aos 74 anos, Cheryl continua atuando ocasionalmente e é muito ativa em causas sociais e eventos de golfe. Mantém a amizade íntima com Jaclyn Smith, formando uma dupla inseparável até os dias atuais.

David Doyle (John Bosley): Continuou trabalhando intensamente como ator de voz e em participações na TV (como na série The Love Boat). Sua voz rouca tornou-se icônica em animações como Rugrats: Os Anjinhos, onde dublou o Vovô Lou Pickles.
Faleceu em 26 de fevereiro de 1997, aos 67 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Shelley Hack (Tiffany Welles): Após a demissão em 1980, atuou em alguns filmes e séries, mas percebeu que sua vocação estava em outro lugar.
Teve a mudança mais radical. Tornou-se consultora política internacional. Trabalhou na Bósnia e em outros países em conflito, ajudando a estabelecer comunicações para processos eleitorais democráticos.
Aos 78 anos, trabalha nos bastidores como produtora (ao lado do marido, o diretor Harry Winer) e consultora, mantendo uma vida intelectualmente ativa e longe do glamour das passarelas.
Tanya Roberts (Julie Rogers)

Tornou-se uma Bond Girl em 007 Na Mira dos Assassinos (1985) e estrelou o cult Sheena, a Rainha da Selva. Nos anos 90 e 2000, teve um papel de destaque na comédia That ’70s Show.
Faleceu em 4 de janeiro de 2021, aos 65 anos, devido a uma infecção generalizada. Sua morte foi marcada por uma confusão na mídia, que anunciou seu falecimento um dia antes de ele realmente ocorrer.

O Renascimento no Cinema e os Desafios do Novo Milênio

As Panteras 2000 @ Divulgação

No ano 2000, Drew Barrymore assumiu não apenas o protagonismo, mas também a produção executiva da versão cinematográfica de As Panteras. Ao lado de Cameron Diaz (Natalie Cook) e Lucy Liu (Alex Munday), Barrymore (Dylan Sanders) injetou uma estética de videoclipe e ação coreografada que definiu o início da década.
O filme foi um sucesso estrondoso, arrecadando mais de US$ 264 milhões globalmente e provando que a marca ainda tinha fôlego comercial.
A sequência veio em 2003 com As Panteras: Detonando. O longa manteve o trio original e trouxe uma participação especial de Rodrigo Santoro, consolidando o ator brasileiro no cenário de Hollywood.
Embora tenha faturado cerca de US$ 259 milhões ao redor do mundo, a crítica apontou um desgaste na fórmula. Apesar de divertidos e visualmente impactantes, ambos os filmes enfrentaram questionamentos sobre roteiros frágeis e um desenvolvimento de personagens que, para alguns analistas, soou caricato e excessivamente dependente de um humor datado para o novo século.

As Panteras – 2011 @ Reprodução

Em 2011, a rede ABC tentou resgatar a essência da série original com um novo seriado estrelado por Rachael Taylor, Annie Ilonzeh e Minka Kelly. Ambientada em Miami e com uma pegada mais sombria e dramática, a produção não conseguiu encontrar seu tom.
A recepção do público foi fria e a emissora exibiu apenas quatro episódios antes de cancelar o projeto por baixa audiência.

As Panteras 2019 @ divulgação

A mais recente tentativa de revitalizar a franquia ocorreu em 2019, sob a direção de Elizabeth Banks. Estrelado por Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska, o filme buscou uma abordagem mais feminista e focada em uma rede global de espionagem, expandindo o conceito de que o nome Panteras pertencia a toda uma organização e não apenas a um trio.

Apesar de ser considerada a versão mais fiel ao espírito de sororidade e espionagem moderna, o filme foi um fracasso de bilheteria, arrecadando pouco mais de US$ 73 milhões mundialmente para um orçamento de US$ 50 milhões (sem contar os custos de marketing).

Curiosidades

O icônico penteado de Farrah Fawcett, com suas camadas loiras e esvoaçantes, foi o corte mais solicitado nos salões do mundo inteiro no final dos anos 70. O sucesso foi tão avassalador que Farrah lançou sua própria linha de shampoos e condicionadores pela marca Fabergé, tornando-se uma das primeiras atrizes a capitalizar diretamente sobre sua imagem de beleza em larga escala.

Farrah Fawcett Faberge @ Divulgação

A série foi um catálogo vivo da moda ocidental da segunda metade da década de 70. Peças como ternos masculinos adaptados, pantalonas, sleep dresses, blusas de gola cacharrel usadas com correntes douradas, sandálias plataforma e camisas xadrez com coletes tornaram-se referências de estilo que ainda hoje inspiram coleções de luxo.

Embora fosse a líder estratégica do trio, Kate Jackson tinha um temperamento complexo nos bastidores. Além dos problemas com Cheryl Ladd, tabloides da época sugeriam que sua saída não se deveu apenas ao desejo de ser uma atriz séria. Ela enfrentava uma crise no casamento com o ator Andrew Stevens e travava discussões constantes com o produtor Aaron Spelling por roteiros mais densos e menos focados na estética.

Antes de se tornar a substituta de Farrah, Cheryl Ladd já conhecia Kate Jackson; ambas atuaram juntas no filme Satan’s School for Girls em 1973. Além disso, Cheryl era uma cantora talentosa que emprestou sua voz para a personagem Melody no desenho animado Josie e as Gatinhas.

Os carros usados pelas protagonistas eram extensões de suas personalidades e clássicos da engenharia dos anos 70. Kelly Garrett dirigia um Mustang, Jill Munroe acelerava um White Cobra II e Sabrina Duncan circulava com um Orange Pinto.

Em 1979, durante a busca por uma substituta para o lugar deixado por Kate Jackson, uma jovem e então desconhecida Michelle Pfeiffer chegou a fazer testes para o papel. No entanto, os produtores optaram pela sofisticação de Shelley Hack, mudando o rumo da história da série e da carreira de Pfeiffer.

O tema de abertura, cujas notas iniciais são instantaneamente reconhecíveis até hoje, foi uma criação conjunta dos compositores Allyn Ferguson e Jack Elliott. A música conseguia transmitir a mistura exata de mistério, ação e elegância que o programa propunha.

O relacionamento de Farrah com a revista Playboy foi histórico. Em 1978, no auge da fama, ela posou pela primeira vez, mas sem nudez frontal. Foi apenas em 1995, aos 48 anos, que a atriz protagonizou um ensaio revelador para a edição de aniversário da revista. O sucesso foi retumbante, vendendo quatro milhões de exemplares e provando que seu magnetismo atravessava décadas.

Farrah Fawcett na Playboy Magazine @ divulgação

A última vez que o trio original (Kate, Jaclyn e Farrah) apareceu reunido publicamente foi no Emmy de 2006, durante uma emocionante homenagem ao produtor Aaron Spelling, falecido naquele ano. Pouco tempo depois, Farrah iniciaria sua batalha contra o câncer, vindo a falecer em 25 de junho de 2009, coincidentemente no mesmo dia que o astro Michael Jackson.

Uma curiosidade de bastidor frequentemente citada por figurinistas é que os produtores incentivavam as atrizes a não usarem sutiã sob as blusas de seda e camisetas justas. Essa escolha estética, embora controversa e parte do chamado jiggle TV, acabou influenciando a liberação feminina na moda e a busca por um visual mais natural e menos estruturado que marcou o final dos anos 70.

No Brasil, a série teve um impacto tão grande que a voz de Sumára Louise, dubladora da personagem Sabrina (Kate Jackson), tornou-se a referência definitiva para a personagem. Mesmo quando a série mudou de emissora e ganhou novas dublagens nos anos 90, Sumára foi a única mantida para preservar a identidade vocal que o público brasileiro tanto amava.

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