A história da humanidade é pavimentada pelas vozes que se recusaram a calar. Quando olhamos para trás, percebemos que cada espaço ocupado hoje pela comunidade LGBTQIAPN+ é o resultado de uma corrente de resistência que atravessou séculos de escuridão para finalmente encontrar a luz.
Celebrar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ no MONDO MODA é, acima de tudo, um exercício de memória, sensibilidade e profundo reconhecimento de que a beleza da vida reside na total liberdade de ser e de amar.
No final do século XIX, a genialidade de Oscar Wilde não foi suficiente para protegê-lo da hipocrisia de seu tempo. No auge de seu sucesso na literatura e no teatro vitoriano, ele foi alvo de uma das maiores injustiças da história da arte. Julgado e condenado, em 1895, a dois anos de trabalhos forçados por sua orientação sexual, o brilhante dramaturgo explicou perante o tribunal a expressão “o amor que não ousa dizer seu nome”, presente no poema Two Loves, de Lord Alfred Douglas.
Diante da corte, Wilde defendeu esse afeto com imensa coragem, descrevendo-o não como algo vergonhoso, mas como uma ligação espiritual e intelectual profunda. O sistema punitivo da época acreditava destruir não apenas a saúde física e financeira do escritor, mas também a dignidade de toda uma geração. O que seus perseguidores não conseguiram prever é que o silêncio imposto a Wilde se transformaria, décadas mais tarde, no combustível para uma revolução global.

Décadas depois, esse legado de perseguição e resistência encontraria um novo marco em Nova York, na emblemática noite de 28 de junho de 1969. No bar Stonewall Inn, frequentadores LGBTQIAPN+, entre eles mulheres trans, drag queens, pessoas negras, latinas e jovens em situação de vulnerabilidade, cansaram-se da violência e das constantes batidas policiais. Aquela revolta não foi um pedido de licença, mas uma exigência inegociável de existir, transformando o mês de junho em símbolo do orgulho e da luta por direitos em todo o mundo.

No Brasil, essa força ganhou contornos próprios de coragem durante os anos de chumbo. Mesmo sob a vigilância estreita da ditadura militar, o jornalismo e a cultura serviram como escudo e trincheira no final da década de 1970. O lendário jornal Lampião da Esquina, lançado em 1978, ousou usar a palavra escrita para debater o afeto, a política e os direitos da população LGBTQIAPN+, provando que a arte e a informação são algumas das ferramentas mais refinadas e potentes para preservar a sanidade, promover o debate público e resistir às injustiças de uma sociedade desigual.

É evidente que o cenário brasileiro atual ainda impõe desafios severos e estatísticas dolorosas que exigem maturidade e atenção constante do jornalismo. A violência e o preconceito estrutural ainda tentam ditar as regras. Contudo, o distanciamento histórico nos oferece um sopro de lucidez inquestionável: as coisas já foram muito piores. E é exatamente por essa razão que hoje temos muito mais a celebrar do que a lamentar.
O avanço social e jurídico que o país testemunhou nas últimas décadas redesenhou o tecido da sociedade de forma definitiva. O reconhecimento do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, consolidado por decisões do Supremo Tribunal Federal e pela regulamentação do Conselho Nacional de Justiça, trouxe proteção jurídica para as mais diversas configurações de família. A equiparação da homofobia e da transfobia ao crime de racismo estabeleceu um importante marco legal de combate à intolerância. A conquista do direito à retificação de nome e gênero diretamente em cartório, assegurada desde 2018, devolveu cidadania e dignidade básica à população trans.

Todas essas vitórias transformaram o Brasil e abriram caminho para que a maior Parada do Orgulho do mundo acontecesse em solo paulista, colorindo as ruas, fortalecendo a cultura, movimentando a economia criativa e reafirmando a importância da diversidade na construção de uma sociedade mais democrática.
Resgatar a memória de Oscar Wilde nesta data não é apenas lamentar o seu destino trágico, mas celebrar o fato de que o amor finalmente mudou de lado. O afeto que antes habitava os tribunais punitivos e os guetos agora ocupa as telas, as passarelas, a literatura, as universidades, os espaços públicos e as discussões familiares.
A moda, a arte e o jornalismo cultural, em suas constantes intersecções, funcionam como um manifesto vivo dessa evolução, permitindo que cada indivíduo use sua própria voz como uma forma legítima de resistência.
O orgulho venceu o silêncio, e o direito à busca pela felicidade é, agora, um caminho sem volta.
