O final da quinta e última temporada de Hacks (Max) faz muito mais do que encerrar uma das comédias mais refinadas da atualidade, ela consolida uma das trajetórias mais fascinantes da história da televisão. Ao se despedir de Deborah Vance, Jean Smart não apenas entregou o papel de sua vida, mas cravou seu nome na história da cultura pop, operando um milagre ao avesso em um mercado que historicamente empurra atrizes maduras para a margem da invisibilidade.

É bem verdade que o streaming abriu as portas para grandes lendas na faixa dos 70 ou 80 anos brilharem como “leading ladies”. Vimos Jane Fonda e Lily Tomlin comandarem sete deliciosas temporadas de “Grace and Frankie”, Kathy Bates ressurgir implacável no horário nobre com o novo “Matlock”, e Imelda Staunton carregar o peso da coroa nas temporadas finais de “The Crown”. Porém, há um divisor de águas crucial nessa lista: todas elas já chegaram à maturidade com o status de realeza do cinema, respaldadas por Oscars (Jane tem dois e Kathy, um), Peabody Award (Lily tem dois, assim como oito Emmy, dois Tony e um Grammy) e Laurence Olivier Award (Imelda tem cinco, assim como o BAFTA e o prêmio de Melhor do Festival de Veneza).

Jean Smart trilhou o caminho oposto. O começo de sua trajetória é o retrato de uma artista de teatro que construiu sua carreira longe da visibilidade da tela grande. Natural de Seattle, ela se apaixonou pela atuação ainda na escola e se formou no Programa de Treinamento de Atores Profissionais da Universidade de Washington. Durante toda a década de 1970, dedicou-se aos palcos regionais, especialmente ao Oregon Shakespeare Festival, onde interpretou clássicos.

Em 1980, Jean Smart se mudou para Nova York. Naquele mesmo ano, ela conseguiu uma indicação ao “Drama Desk Award” logo em sua estreia Off-Broadway com a peça “Last Summer at Bluefish Cove” — onde interpretava uma mulher lésbica enfrentando uma crise de saúde, um papel pioneiro e corajoso para a época.
No ano seguinte, estreou na Broadway na peça “Piaf”, interpretando a lendária Marlene Dietrich. A interpretação chamou a atenção de produtores de televisão e abriu caminho para sua mudança para Los Angeles, em 1982, onde fez pontas em séries da época, como “The Facts of Life”, “Alice” e “Remington Steele”.

Durante esses testes, algo curioso aconteceu: após algumas participações em sitcoms de vida curta, os diretores de elenco carimbaram Jean Smart como uma atriz essencialmente cômica. Ela mesma relembrou anos mais tarde que Hollywood costuma rotular as pessoas muito rápido, mas que ela teve a sorte de conseguir transitar entre os dois mundos.
Essa mistura de timing cômico com presença cênica teatral foi exatamente o que a criadora Linda Bloodworth-Thomason procurava quando escreveu “Designing Women” em 1986. Linda já havia trabalhado com Jean e escreveu o papel da ingênua e doce Charlene Frazier especificamente para ela. Curiosamente, das quatro protagonistas sulistas da série, Jean Smart era a única que não era do sul dos EUA — ela era do extremo noroeste do país, em Seattle —, mas construiu um sotaque tão impecável e carismático que convenceu o público estadunidense e garantiu seu primeiro grande passaporte para a fama.
Nos anos seguintes, ela surgiu nas telas de cinema, mas a engrenagem de Hollywood a empurrou a papéis coadjuvantes em filmes comerciais como “O Casamento dos Meus Sonhos” e “A Casa Caiu”, ou em produções independentes, como “Guinevere”, que lhe rendeu uma indicação ao “Independent Spirit Award”. Recentemente, Damien Chazelle tentou capturar sua aura de realeza ao escalá-la como a crítica ácida Elinor St. John em “Babilônia”, mas a verdade é que o cinema sempre a tratou como coadjuvante sofisticada, nunca como o centro da narrativa.

Nos bastidores da indústria, entretanto, Jean Smart já era reconhecida havia décadas como uma das intérpretes mais versáteis da televisão americana. O que Hacks fez foi transformar esse prestígio entre os pares em reconhecimento popular e histórico.
Pelo papel da diva da comédia Deborah Vance, Jean Smart entrou para a história da TV e ainda conquistou quatro prêmios Emmy de Melhor Atriz em Série de Comédia (2021, 2022, 2024 e 2025), três Globos de Ouro, três SAG Awards e quatro troféus no Critics Choice Awards. Com as vitórias anteriores como coadjuvante em “Frasier” (duas vezes) e “Samantha Who?”, ela possui sete estatuetas da mais importante premiação da TV dos EUA.

O encerramento de “Hacks” não sinaliza o fim, mas sim o início de uma nova colheita histórica que deve se estender pelas próximas temporadas de premiações. Sob o impacto da temporada final, Smart chega como a favorita absoluta para o Emmy de setembro de 2026, além de despontar com presença vitoriosa garantida nas edições de 2027 do Golden Globes, Critics Choice e na votação de seus pares no SAG Awards.
Independentemente de quantas estatuetas ainda venham, o veredito do tempo já foi assinado. Jean Smart transformou a maturidade em seu triunfo definitivo, provando que o auge artístico não tem prazo de validade. Em uma indústria obcecada pela juventude, ela não apenas permaneceu relevante — redefiniu o significado de estrelato.
