Em 2011, John Galliano, diretor criativo da Dior, protagonizou a maior crise da história recente da moda ao ser filmado em um bar parisiense proferindo ofensas antissemitas e declarando seu amor a Adolf Hitler. O episódio resultou em sua demissão imediata da marca francesa, seguida de condenação pela Justiça francesa por injúria racial e afastamento dos holofotes. Em 2014, para surpresa de muitos, foi contratado como diretor criativo da Maison Margiela.
No sábado, 1º de agosto, sua redenção ganhou um novo capítulo. O Costume Institute do Metropolitan Museum de Nova York anunciou que Galliano será o grande homenageado no Met Gala 2027, em um endosso orquestrado por uma dupla de poder com funções cirurgicamente complementares. De um lado, o curador-chefe Andrew Bolton atua para revestir o trabalho do estilista com rigor museológico e validação acadêmica. Do outro, Anna Wintour opera como a força política e financeira encarregada de mobilizar os conglomerados de luxo e ditar quem tem passe livre nas escadarias do evento. Enquanto Bolton constrói a narrativa histórica e intelectual da exposição, Wintour garante o capital estético e o impacto midiático para o topo da indústria da moda estadunidense.

Antes de chancelar o retorno definitivo de Galliano ao Olimpo da moda, a instituição realizou conversas e alinhamentos com lideranças comunitárias e entidades judaicas para construir a narrativa do erro superado, do aprendizado e da redenção. Na prática, esse movimento pode ser entendido como um processo de reabilitação institucional em que a memória do público é convidada a apagar o ocorrido.
Esse movimento se chama Engenharia do Perdão. Ele escancara uma lógica que existe desde o surgimento da Alta-Costura no século 19, quando a moda inventou a figura do estilista como um arquiteto do universo, que transforma roupas em objetos de desejo sacralizados.
Desde então, o universo da criação visual fisga paixões e projeta sonhos. Mas, por trás dos salões espelhados, opera uma engrenagem que fecha os olhos para atrocidades morais, discursos de ódio e violações graves de direitos humanos, desde que o nome envolvido continue gerando capital estético e lucro financeiro.
A Matriarca

Nos livros de história, Gabrielle “Coco” Chanel é descrita como a mulher que revolucionou a elegância moderna, porém, nem tudo eram flores. Durante a ocupação de Paris na Segunda Guerra Mundial, ela se hospedou no Hotel Ritz — sede do alto comando nazista. Documentos dos arquivos franceses indicam que atuou como agente da Abwehr (o serviço de inteligência militar alemão) sob o codinome “Westminster” e o número F-7124.
Mais do que a convivência social com os ocupantes, Chanel tentou instrumentalizar ativamente as leis de “arianização” impostas pelo regime de Adolf Hitler para a expropriação de bens judaicos. Seu objetivo era tomar o controle total dos Parfums Chanel das mãos de seus sócios fundadores, os irmãos judeus Paul e Pierre Wertheimer.
Com o fim da guerra, enquanto milhares de mulheres francesas acusadas de colaboracionismo tinham suas cabeças raspadas e eram expostas ao escárnio público nas ruas, Gabrielle passou poucas horas sob interrogatório. Uma manobra diplomática nos bastidores da alta aristocracia garantiu sua liberação.
Após um exílio estratégico na Suíça para a poeira baixar, a estilista reabriu sua maison em 1954 — financiada, pasmem, pelos próprios irmãos Wertheimer! O mercado aplaudiu o retorno da criadora, e a história oficial cuidou de varrer o passado nazista para debaixo do tapete.
Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, a Hugo Boss não apenas vestiu os comandantes alemães, mas o próprio fundador era filiado ao Partido Nazista e utilizou trabalho forçado de prisioneiros de guerra em suas fábricas.
A marca levou décadas para admitir oficialmente sua responsabilidade histórica, provando que o capital estético consegue atravessar guerras e regimes sem perder o prestígio comercial.
Lagerfeld e D&G

Durante as décadas em que esteve à frente da Chanel e da Fendi, Karl Lagerfeld fez da gordofobia e da misoginia uma extensão de sua oratória pública. Afirmações como “ninguém quer ver mulheres com curvas nas passarelas” ou declarações direcionadas à cantora Adele, a quem classificou como “um pouco gorda demais“, eram recebidas pela imprensa como “excentricidades de um gênio”. Durante a emergência do movimento #MeToo, Lagerfeld chegou a declarar que modelos que não quisessem ter suas roupas manuseadas por fotógrafos deveriam “ir para um convento”.
O conglomerado italiano fundado por Domenico Dolce e Stefano Gabbana ostenta um dos maiores históricos de crises reputacionais do setor. Em 2015, os estilistas — embora abertamente gays — atacaram publicamente os direitos de famílias homoafetivas e a fertilização in vitro, referindo-se a crianças nascidas por reprodução assistida como “filhos da química, filhos sintéticos”.
Anos depois, a marca protagonizou um desastre comercial na China ao veicular vídeos racistas e neocoloniais para promover um desfile em Xangai. A crise escalou para o cancelamento do evento e o banimento da grife das plataformas de e-commerce asiáticas após o vazamento de mensagens atribuídas a Stefano Gabbana, nas quais ele se referia ao país com ofensas de baixo calão. Passado o período de turbulência, a marca voltou a ocupar o topo dos editoriais de moda e a vestir celebridades em premiações globais.
Gucci, Prada, Moncler e Burberry

A falta de diversidade nos conselhos criativos das maiores casas de luxo do planeta resultou em uma sucessão de aprovações de produtos com forte apelo racista e violento.
Em 2018, a Prada colocou no mercado bonecos e acessórios da linha Pradamalia que remetiam diretamente às caricaturas do blackface do século 19, exigindo um acordo formal com a Comissão de Direitos Humanos de Nova York para implementar programas antirracistas internos.
Em 2019, a Gucci enfrentou crise idêntica ao lançar um suéter estilo balaclava com lábios vermelhos gigantescos desenhados ao redor da boca — uma peça que reproduzia a mesma iconografia racista —, levando a marca a retirar o produto de circulação global. A Moncler também enfrentou acusações semelhantes ao comercializar produtos com estampas e elementos associados ao blackface.
No mesmo ano, a Burberry apresentou no desfile de Outono/Inverno da Semana de Moda de Londres um moletom que trazia no pescoço uma corda amarrada em forma de laço de enforcamento. A peça foi duramente criticada internamente por modelos e por ativistas por remeter diretamente ao suicídio e ao histórico de linchamentos racistas. Todas as marcas emitiram pedidos formais de desculpas, recolheram os produtos e mantiveram suas engrenagens comerciais operando sem maiores abalos estruturais.

Nas décadas seguintes, o elitismo velado ganhou contornos explícitos de filosofia empresarial. Na Abercrombie & Fitch, o ex-CEO Mike Jeffries sintetizou a mentalidade de exclusão ao declarar abertamente que suas roupas eram feitas exclusivamente para pessoas “mágicas, bonitas e populares”, excluindo deliberadamente quem não se encaixasse nesse padrão. A marca se tornou o maior símbolo de uma exclusão mercadológica que só recuou quando as vendas despencaram.
A mesma lógica operava na Victoria’s Secret sob o comando de Ed Razek, que assumiu sua rejeição à inclusão de modelos trans e plus size no seu desfile anual, afirmando que o evento era uma “fantasia”. Na Lululemon, o fundador Chip Wilson culpou os corpos das próprias mulheres pelos defeitos de fabricação de suas calças, alegando que certas anatomias femininas “simplesmente não funcionam” no tecido da marca.
Dov Charney, fundador da American Apparel, construiu um império baseado na estética hipersexualizada enquanto acumulava denúncias de exploração sexual e comportamentos tóxicos no ambiente de trabalho.
Na Guess, Paul Marciano enfrentou sucessivas acusações de assédio e má conduta sem que sua permanência no topo fosse ameaçada de imediato. Mesmo Giorgio Armani, figura respeitada do design italiano, enfrentou fortes críticas ao emitir declarações lidas pela imprensa e pela comunidade como homofóbicas ao julgar a postura e a vestimenta de homens gays.
O cenário ganha recortes contemporâneos na Brandy Melville, marca de enorme apelo entre o público jovem que transformou o tamanho único e a discriminação velada no recrutamento de suas funcionárias em modelo de negócios, provando que a segregação estética não pertence ao passado.

Quando o limite ético é testado em nome da visibilidade, a insensibilidade cultural costuma ser o recurso mais rápido. Jeremy Scott, em parceria com a Adidas, desenhou um tênis que trazia grilhões presos aos tornozelos, em uma alusão direta à escravidão de pessoas negras.
Mais recentemente, a Balenciaga flertou com o limite da tolerância em suas campanhas de 2022 ao expor crianças com acessórios de conotação BDSM. O episódio demonstrou como a busca incessante pela provocação e pelo buzz digital atinge patamares em que a ética é sacrificada no altar da relevância mediática.
Trabalhos análogos à escravidão
Grandes varejistas da moda enfrentaram fiscalizações e autuações por trabalho análogo à escravidão em oficinas terceirizadas na Região Metropolitana de São Paulo.
Marcas como Zara, M. Officer, Pernambucanas e Lojas Renner foram alvo de fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego após flagrantes de trabalhadores imigrantes (em sua maioria bolivianos e peruanos) submetidos a jornadas exaustivas, servidão por dívida, alojamentos sem condições sanitárias básicas e retenção de passaportes. Em ambos os casos, o discurso corporativo culpabilizou a “terceirização quarteirizada” dos fornecedores, enquanto a estrutura comercial das marcas permaneceu intacta.
No ecossistema do e-commerce contemporâneo, gigantes do ultra-fast-fashion como a Shein encaram denúncias recorrentes de ONGs e relatórios internacionais. Setenta e cinco horas de trabalho por semana em oficinas na China, violações sistemáticas de direitos trabalhistas e ausência de equipamentos de proteção para manuseio de químicos na produção têxtil são alguns dos apontamentos.
Consumo e Cúmplice de Espetáculo

Diante desse histórico, surge uma questão: no fundo, os consumidores de moda não passam de grandes hipócritas por continuar nutrindo paixão por esse universo, mesmo cientes de suas entranhas altamente complicadas?
A resposta exige encarar a complexidade da própria condição humana. A indústria da moda compreendeu antes de qualquer outro setor que o desejo não opera no campo da razão lógica ou da coerência moral. Ela vende projeção, pertencimento, beleza e fantasia — mercadorias emocionais pelas quais a sociedade demonstra uma disposição quase ilimitada para perdoar, relativizar e esquecer.
Há uma conveniência coletiva nesse pacto. Para o consumidor, é mais confortável consumir a beleza superficial de um vestido impecável, de usar uma bolsa de couro perfeitamente estruturada ou de visitar uma grande exposição de museu do que arcar com o custo ético de boicotar seus criadores.
Cria-se, assim, uma dissociação cognitiva em massa: separa-se o “artista da obra” não por um princípio filosófico nobre, mas pela fome insaciável pelo espetáculo visual.
A indústria sabe disso. E por saber exatamente como a engrenagem do desejo funciona, ela continuará aplicando a mesma fórmula: quando o choque de uma atrocidade acontece, abre-se a quarentena; quando a poeira baixa, acionam-se as luzes do espetáculo.
No final do desfile, a audiência — hipnotizada pelo glamour que fascina desde os tempos de Charles Frederick Worth no século 19 — continuará de pé, aplaudindo a beleza do produto e passando o pano para o caráter do criador.
É exatamente esse o processo que valida o pacto de esquecimento da indústria sem o menor pudor.
