Por que as esculturas gregas de bronze são raras

Quando os Bronzes de Riace foram encontrados no fundo do Mar Jônio, em 1972, eles trouxeram a tradução mais refinada dos corpos masculinos esculpidos com precisão milimétrica, onde a tensão muscular e o caimento natural da postura revelam o domínio absoluto da forma humana.
Muito além de relíquias arqueológicas, as duas figuras monumentais do século cinco antes de Cristo estabeleceram parâmetros de simetria que a indústria da moda, beleza e estilo de vida veneram. A redescoberta dessas obras no litoral da Calábria revelou a extrema fragilidade do patrimônio que sobreviveu ao tempo.
A história do resgate das duas únicas estátuas conhecidas dos Bronzes de Riace começou a oito metros de profundidade na costa de Riace Marina, no sul da Itália. O mergulhador amador Stefano Mariottini avistou um braço humano projetado sob a areia, suspeitando inicialmente de um cadáver. A aproximação revelou uma estrutura metálica fria, que cobria dois corpos de bronze quase intactos.
Análises arqueológicas indicam que as peças seriam transportadas em uma embarcação comercial rumo a Roma, que, possivelmente naufragou ou precisou aliviar a carga durante uma tempestade.

Bronze A e Bronze B – Esculturas Bronzes de Riace @ Museu Nacional da Magna Grécia, em Reggio Calabria

Identificadas como Bronze A (“O Jovem”) e Bronze B (“O Velho”), as esculturas não possuem assinaturas gravadas. No entanto, pesquisas historiográficas atribuem o Bronze A ao mestre Míron — autor do célebre Discóbolo — e o Bronze B ao círculo de Fídias ou seu aluno Alcâmenes, fundidos entre 460 a.C. e 430 a.C.

A Raridade dos Bronzes Antigos

Estima-se que menos de 2% das esculturas gregas de bronze em escala humana tenham chegado ao presente. O metal era uma liga muito cobiçada em períodos de guerra para a produção de moedas, canhões e armamentos. A maioria das grandes obras da Grécia Antiga foi derretida ao longo dos séculos. O que se preservou deveu-se, em grande parte, a acidentes marítimos e soterramentos que isolaram o material da ação humana.

Bronze A e Bronze B – Esculturas Bronzes de Riace @ Museu Nacional da Magna Grécia, em Reggio Calabria

Após passarem por um rigoroso processo de restauração de cinco anos no Opificio delle Pietre Dure, em Florença, as obras estão expostas sob controle rigoroso de temperatura e umidade no Museu Nacional da Magna Grécia, em Reggio Calabria.
Protegidos por leis de patrimônio inalienável do governo italiano, os Bronzes de Riace são classificados como bens não transportáveis e nunca deixaram a Itália. Se pudessem ser avaliados no mercado internacional de arte, especialistas projetam que o par alcançaria um valor estimado entre US$ 1 a 2 bilhões.

O uso do bronze

O predomínio do bronze na escultura antiga não ocorreu por acaso, mas por razões técnicas e estéticas que o mármore ou a pedra não conseguem oferecer.
A primeira razão é a fluidez e a precisão do metal líquido. Quando derretido, o bronze preenche os menores detalhes dos moldes de gesso, capturando microtexturas da pele, fios de cabelo e expressões faciais. Ao esfriar, o metal sofre uma leve expansão antes de se contrair, garantindo fidelidade ao projeto original do artista.

Escultura Bronze A – Bronzes de Riace @ Giacomo Cenci

A segunda razão é a resistência estrutural. Por ser uma liga metálica altamente resistente, o bronze permite a criação de figuras esguias, braços projetados para fora do eixo do corpo e posturas dinâmicas sem o risco de ruptura — algo impossível no mármore, que exige pontos de apoio espessos para não quebrar.

Escultura Bronze A – Bronzes de Riace @ Giacomo Cenci

Por fim, a versatilidade de acabamento e a reação com a luz tornaram o bronze o material favorito de escultores de diversas eras. O metal aceita a adição de outros elementos — como os dentes de prata, lábios de cobre e olhos em marfim presentes nos Bronzes de Riace — e permite polimentos intensos que transformam a superfície em um reflexo do espaço ao redor.

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