Como a raiva se tornou o motor central da série “Treta”

A raiva é o grande combustível do século XXI. Numa sociedade hiperconectada em que a atenção se tornou uma moeda, poucas forças são tão eficientes quanto o ultraje. Os algoritmos exploram o sobressalto, as plataformas premiam a reação instantânea e o capitalismo contemporâneo transformou a disputa por visibilidade num estado de permanente alerta. Nesse ambiente, a hostilidade deixa de ser apenas uma emoção e passa a funcionar como linguagem.
É essa anatomia do ressentimento que o showrunner Lee Sung Jin disseca em Treta (Beef, da Netflix). A série parte de uma premissa banal para construir uma investigação abrangente sobre solidão, desigualdade e a necessidade quase patológica de encontrar um culpado para os nossos vazios.

Treta (2023) @ Netflix Creative Studio

O projeto de Treta nasceu de uma experiência prosaica: após ser fechado por um SUV no trânsito de Los Angeles, Lee se viu tomado pela vontade de perseguir o motorista. A fantasia de transformar aquele instante de fúria em perseguição revelou a verdadeira matéria-prima do show: o estoque de frustrações acumuladas que carregamos antes de qualquer estopim.
Na primeira temporada, Danny Cho (Steven Yeun), um empreiteiro falido esmagado pela inadequação, e Amy Lau (Ali Wong), uma empresária sufocada pela necessidade de parecer impecável, colidem no trânsito. A partir deste momento, a vingança escala entre invasões, sabotagens e humilhações.

Treta (2023) @ Netflix

Danny e Amy são ridículos e cruéis, mas profundamente reconhecíveis: a raiva é o idioma através do qual tentam confessar o que não sabem dizer. Por trás da vingança, existe vergonha e a busca pelo outro.
O ciclo culmina no antológico episódio final. Isolados na natureza e despidos do status e das propriedades que os sustentavam, Danny e Amy consumiram frutos alucinógenos por engano e viram suas defesas ruiu. Ali, a série revela sua essência: a hostilidade entre eles era uma projeção do próprio vazio. A redenção surge de forma melancólica e incômoda. A empatia só se torna possível quando todas as estruturas externas desabam, restando apenas a necessidade desesperada de ser visto.

Treta (2026) @ GrandSon

Se o primeiro ano investiga o colapso emocional do indivíduo, a segunda temporada amplia a lente para a estrutura social. No microcosmo elitizado do Monte Vista Point Country Club, a fúria passa a operar como cálculo.
De um lado estão Josh (Oscar Isaac), o gerente-geral do clube que domina o jogo da manipulação corporativa, e Lindsay (Carey Mulligan), cuja frieza afetiva contrasta com o carinho substitutivo que dedica ao cachorro idoso da família. Do outro estão Austin (Charles Melton) e Ashley (Cailee Spaeny), dois funcionários jovens. Ele ostenta um falso desapego do capitalismo; ela tenta reunir recursos para um procedimento médico e ascender na vida.
Quando o casal jovem registra em vídeo uma briga dos patrões, a suposta distância moral desaparece. O registro vira moeda de chantagem. Sob a sombra da Sra. Park (Youn Yuh-jung), a proprietária bilionária do clube, os jovens percebem que a postura de rebeldia oferece poucas garantias e optam por jogar o mesmo jogo sujo da classe dominante. Eles abandonam a busca pela pureza e abraçam o cinismo pragmático.

Treta (2026) @ Netflix

Enquanto a primeira temporada trata a raiva como descarga emocional, a segunda a transforma em estratégia. Num caso, o ressentimento nasce da solidão; no outro, nasce do desejo de pertencer ao sistema.
Ao transformar a fúria em comédia, tragédia e sátira social, Treta expõe a ironia mais cruel do nosso tempo: numa época em que estamos permanentemente conectados, a raiva tornou-se a forma mais eficaz de permanecermos sozinhos.

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