A moda é a filha predileta do Capitalismo

Quantas vezes você ouviu que, no Brasil, a camiseta tem vida longa. Primeiro, ela é a preferida do guarda-roupa. Conforme o tempo passa e ela começa a perder o vigor, surgem bolinhas, furinhos, pequenos rasgos, descolore, passa a ser usada para dormir. Depois de muitas noites, magicamente, ela se transforma num pano de chão, que será usado até o último fiapo.
Sabia que com isso, estamos ‘enganando o sistema’?

A longa vida de uma camiseta no Brasil @ IA

Esse ciclo doméstico da camiseta usada até o limite de suas fibras é um ato quase intuitivo de resistência à lógica da indústria da moda. Afinal, há um mecanismo invisível que é acionado cada vez que uma peça de roupa é descartada não pelo desgaste do tecido, mas pelo esgotamento do seu valor simbólico.
A máquina do vestuário opera em uma engrenagem na qual o utilitário cede lugar à obsolescência percebida. Se o sistema econômico necessita da renovação ininterrupta da demanda para manter sua taxa de acumulação, o sistema da moda surge como o seu motor mais refinado. Ela não é apenas uma indústria conveniente ao capital: é a sua tradução estética mais perfeita.
A aliança entre o vestuário e o capital estrutura-se sobre a aceleração do desejo. Diferente de outros bens de consumo que exigem tempo para a depreciação física, a moda inventou a caducidade do gosto.
Uma jaqueta ou um vestido deixam de servir no momento exato em que o mercado decreta que a sua estética pertence ao passado. Essa engrenagem encontrou no modelo contemporâneo de produção extrema a sua aceleração máxima, substituindo as antigas estações por coleções semanais desenhadas para o descarte rápido.

Mulher jogando roupa no lixo @ IA

Na sociologia e na economia política, a relação entre o guarda-roupa e as estruturas de poder foi mapeada por pensadores que identificaram no ato de se vestir uma linguagem de classe e dominação.
O economista estadunidense Thorstein Veblen, em A Teoria da Classe Ociosa (1899), formulou o conceito de consumo ostentoso para explicar como a aquisição de bens caros serve primariamente para sinalizar riqueza e posição na hierarquia social. Para Veblen, o vestuário precisa mudar continuamente para demonstrar que os grupos dominantes possuem recursos para descartar o que ainda é funcional e adquirir o inédito.

Pouco depois, o sociólogo alemão Georg Simmel, em seu ensaio A Moda (1904), detalhou a dinâmica da diferenciação e da imitação. Segundo Simmel, o movimento do estilo ocorre em um ciclo no qual os grupos subordinados buscam imitar os códigos dos ricos. Assim que essa estética se populariza, ela perde o seu caráter de exclusividade, forçando a busca por uma nova tendência para reestabelecer a distância social. É o mecanismo que garante a rotação perpétua da produção e da compra.

Lixão de roupas @ IA

Pierre Bourdieu demonstrou em A Distinção (1979) que o domínio do “bom gosto” opera como um capital simbólico que valida as hierarquias de poder. O vestuário traduz o habitus — aquele conjunto invisível de esquemas de percepção, gostos e comportamentos que incorporamos ao longo da vida de acordo com nossa origem de classe e trajetória social.
As roupas que escolhemos é a materialização desse aprendizado social: elas projetam no corpo o nosso repertório, naturalizam noções de elegância ou inadequação e legitimam divisões sociais sob o disfarce de um mero julgamento estético individual.

Já o filósofo Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero (1987), argumentou que a lógica da moda transbordou as fronteiras do guarda-roupa para se tornar o próprio modo de funcionamento da sociedade moderna. O efêmero, a sedução e a novidade permanente deixaram de ser exclusividade das passarelas e passaram a reger a economia, a informação e as dinâmicas da vida contemporânea.

Enfim… A moda não se aliou ao capitalismo por mero acaso histórico. Ela foi a ferramenta que o sistema encontrou para mercantilizar o tempo, transformar a busca por identidade em consumo e renovar diariamente a necessidade de compra no nível mais íntimo do indivíduo.
Quando transformamos a camiseta velha em pano de chão, desaceleramos por um instante essa engrenagem, provando que o afeto e a utilidade ainda podem resistir ao império do descarte.

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