Como produtor de moda, com frequência as pessoas me abordam em eventos sociais esperando que comente, analise ou julgue as roupas de quem está ao redor. Durante um tempo, eu me divertia. Existe uma legião que adora este tipo de coisa.
Porém, à medida que fui me aprofundando no estudo sobre a história do vestuário, mergulhando em centenas de livros, revistas, documentários e tudo mais que me ajudava a entender este universo, as coisas foram mudando.
As produções de moda que mais me deram prazer eram aquelas nas quais tive liberdade de desconstruir conceitos e propor um novo olhar sobre o vestir. O mesmo afirmo quando pesquiso sobre variados assuntos para escrever meus artigos. E uma coisa com a qual não me sinto mais confortável é a figura do crítico focado em apontar falhas.
A maturidade me ensinou que as pessoas devem se vestir da forma que querem, podem ou têm acesso. Não me sinto com autoridade alguma para apontar o dedo e determinar o que fica bom ou ruim para a idade, corpo ou qualquer outro detalhe.

Esta necessidade compulsiva de patrulhar o visual alheio trata-se de um comportamento construído historicamente para exercer controle social. O pensamento é simples: se a pessoa estiver vestida de acordo com o que se acredita ser o correto — algo totalmente subjetivo —, ela é “das minhas”, ou seja, está dentro do padrão vigente naquela bolha social. Por outro lado, se não veste dessa maneira, torna-se a antiquada, a fora de moda, a cafona, a brega ou, usando uma palavra bastante atual, cringe!
A origem do controle
Muito antes de existirem revistas, críticos de moda ou redes sociais, o vestuário já era utilizado como instrumento de distinção e controle social. Na Idade Média e no Renascimento, as chamadas Leis Suntuárias impediam por decreto que determinadas classes sociais usassem materiais nobres como veludo, seda, peles de arminho ou tons de púrpura. A intenção era estritamente punitiva e de barreira de classe: garantir que a burguesia enriquecida jamais fosse confundida com a aristocracia e manter a divisão social visível a olho nu. Bastava olhar para uma pessoa para identificar sua posição na hierarquia. A roupa era um documento social.

No entanto, no século 17, o rei francês Luís XIV refinou esse mecanismo ao perceber que proibir era muito menos eficiente do que seduzir e coagir. Em vez de vetar tecidos apenas por leis estáticas, o Rei Sol acelerou a lógica do sistema moderno de moda ao valorizar a novidade e criar a etiqueta obrigatória na corte de Versalhes.
Em parceria com seu ministro das finanças, Jean-Baptiste Colbert, o monarca estimulou a produção têxtil nacional e passou a exigir que a nobreza renovasse constantemente seu guarda-roupa de acordo com o calendário das estações do ano, consolidando a lógica das coleções de Primavera/Verão e Outono/Inverno.

Havia datas fixas estipuladas para a troca dos trajes, e aparecer nos salões reais usando o tecido da estação anterior significava humilhação pública e ostracismo imediato. Para agravar a situação dos nobres, as manufaturas francesas eram instruídas a lançar padronagens inéditas a cada temporada, enquanto decretos reais proibiam a compra de tecidos importados, forçando a corte a consumir exclusivamente artigos locais caríssimos.
A verdadeira intenção de Luís XIV era o controle político e o estrangulamento financeiro. Ao obrigar a aristocracia a morar em Versalhes e a seguir rituais de vestuário caríssimos para manter o acesso ao poder, o monarca faliu a nobreza. Sem recursos para financiar exércitos privados e sufocados por dívidas astronômicas com alfaiates, os mesmos homens que antes ameavam o trono viraram reféns de pensões e favores concedidos pelo rei. O nobre de Versalhes não tinha tempo de pensar em rebelião porque estava ocupado demais devendo até as calças para conseguir comprar o veludo certo do inverno. A moda revelava-se uma ferramenta de submissão.
As primeiras publicações
Com o enfraquecimento do absolutismo, as imagens e gravuras de moda passaram a circular por toda a Europa, impulsionadas pelo estilo extravagante da rainha Maria Antonieta e pelas criações de sua modista, Rose Bertin.
Em 1778, a Galerie des Modes apresentava gravuras dedicadas ao vestuário francês e, anos depois, surgiu o Cabinet des Modes, considerado o primeiro periódico de moda publicado regularmente.
Pela primeira vez na história, criava-se uma rede de distribuição de tendências: não era mais necessário estar presencialmente nos salões reais para saber o que era considerado elegante. A moda transformava-se em informação.

A partir do século 19, com a ascensão da burguesia e o surgimento das primeiras revistas femininas e manuais de conduta, como o Godey’s Lady’s Book nos Estados Unidos, a etiqueta migrou da corte para a moralidade cotidiana.
Editores e colunistas abastados usaram o alcance do papel impresso para ditar regras minuciosas sobre o que a mulher e o homem “de bem” deveriam usar em cada hora do dia, associando a adequação do traje à própria retidão moral e respeitabilidade do indivíduo.
Nas primeiras décadas do século 20, com o fortalecimento de veículos como Vogue e Harper’s Bazaar, surgiu a figura do crítico de estilo profissional. Figuras influentes do jornalismo de moda passaram a exercer o papel de guardiãs dos bons costumes, estabelecendo o que era considerado elegante ou vulgar de acordo com os interesses da elite financeira e das grandes casas de alta-costura. A análise de roupas deixava de ser meramente descritiva para se transformar em um tribunal de aprovação social mantido por especialistas.
A lista dos ‘piores vestidos’
Essa vigilância moralista ganhou contornos de entretenimento agressivo e de apelo popular com Richard Blackwell. Antes de se tornar o crítico mais temido de Hollywood sob o nome de Mr. Blackwell, o estilista estadunidense já havia vestido estrelas do cinema como Jane Russell e até Nancy Reagan, antes de ela se tornar primeira-dama dos Estados Unidos. Contudo, a partir de 1960, sua notoriedade cresceu exponencialmente através de suas listas anuais apontando as mulheres consideradas mais malvestidas.

Blackwell percebeu rapidamente que a crítica mordaz e as frases de efeito sarcásticas garantiam capas de jornais e projeção imediata. Ele transformou a divulgação de seu comunicado de imprensa anual em um acontecimento midiático em Los Angeles. Ao fazer comentários provocativos sobre celebridades como Brigitte Bardot, Elizabeth Taylor e, em sua última lista lançada em 2008, Victoria Beckham, ele abandonou qualquer vestígio de análise técnica sobre tecido ou corte. O julgamento das roupas de figuras públicas havia se transformado em espetáculo de humilhação e busca por manchetes. Blackwell faleceu em outubro de 2008, aos 86 anos.
Da televisão ao algoritmo
Nos anos 1990 e 2000, o bastão do julgamento e do deboche estético já estava totalmente absorvido pela imprensa e pela televisão. Esse formato foi expandido pela comediante Joan Rivers e pelo canal E! Entertainment com o programa Fashion Police, que adaptou a fórmula das frases ácidas para a linguagem da televisão a cabo diária.

Com a morte de Joan Rivers em 2014, o programa tentou se reformular. A comediante Kathy Griffin assumiu temporariamente o comando do painel, mas pediu demissão em pouco tempo por não concordar com um humor focado em ridicularizar a imagem alheia. O formato ruiu definitivamente após um episódio no Oscar de 2015, quando a apresentadora Giuliana Rancic fez um comentário pejorativo e carregado de estereótipos racistas sobre os dreadlocks da atriz e cantora Zendaya. A resposta firme de Zendaya expôs os limites daquela aparente brincadeira, desencadeando um escândalo que minou a credibilidade do programa até o seu cancelamento definitivo em 2017.
Esse episódio escancarou como a pretensa crítica de moda frequentemente mascarava preconceitos sociais e de raça sob o pretexto da elegância. Com o fim dessa era televisiva, o tribunal da moda migrou para a sua fase mais pulverizada e algorítmica. O poder de patrulhar o visual alheio hoje está espalhado em milhares de canais de react no YouTube, TikTok e perfis de redes sociais, onde a busca por engajamento rápido reativou a lógica do “certo ou errado”.

Atualmente, o tribunal da moda vive sua fase mais pulverizada e algorítmica. O poder de patrulhar o visual alheio, que começou centralizado em um rei absolutista, passou por editores moralistas e se consolidou no humor televisivo, hoje está espalhado em milhares de canais de react no YouTube, TikTok e perfis de redes sociais. A busca por engajamento rápido reativou a lógica do “certo ou errado”, fazendo com que qualquer pessoa atue como um pequeno vigilante da aparência alheia.
Alinhada a essa vigilância digital, a popularização das consultorias de imagem e estilo encontrou no medo do julgamento um mercado extremamente lucrativo. Sob a promessa de ensinar o que harmoniza com cada biotipo, qual cartela de cores deve ser seguida ou como construir uma imagem de autoridade, muitos desses serviços nada mais fazem do que mercantilizar a insegurança alheia.
Vende-se a ilusão de uma imunidade ao julgamento, utilizando conceitos de adequação que repaginam, com jargões modernos de marketing, os mesmos manuais de conduta e regras de restrição do passado.
Compreender essa longa trajetória revela que a cobrança por adequação e o patrulhamento estético nunca foram sobre elegância natural ou bom gosto. Sempre foram sobre poder, coação e controle social.
