MONDO MODA entrevista Márcia Yáskara Guelpa – jornalista, publicitária e cigana

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Nascida em Amritsar (Ìndia) e naturalizada brasileira, Márcia Yáskara Guelpa é jornalista, publicitária e cigana.
Trabalhou nas revista Vogue, Isto É, Nova, Manchete, entre outras.
Hoje, Yáscara representa o povo cigano na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, que integra o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Governo Federal.
Ela é a entrevistada da semana no Mondo Moda.
Conte sobre sua trajetória profissional.
Trabalhei, no Brasil, sempre em veículos de comunicação. Fora do Brasil dei aulas de História da Educação e Teoria Literária. Apesar de trabalhar toda uma vida como jornalista. Fiz as Faculdades de Letras e Pedagogia e pós-graduei- me nas matérias acima citadas: História da Educação e Teoria Literária. Estudei na USP – Universidade de São Paulo. Trabalhei em alguns veículos de comunicação bastante expressivos, dentre eles a extinta Revista Manchete. Trabalhei, também, na Revista Vogue (Carta Editorial), na época do querido e saudoso Luís Carta. Em seguida trabalhei com Mino Carta no Jornal da República e Revista Isto É (Encontro Editorial). Em meados da década de 80 fui trabalhar na Editora Abril e por lá fiquei alguns anos, no time de Fátima Ali, como Diretora da Revista Nova. Anos depois fiz algumas feiras, dentre elas a 1ª Cosmética, realizadas pela Alcântara Machado e fui diretora de redação de algumas outras revistas dirigidas como Opção, Mais Mulher, Estética, Segredos de Beleza, etc. Resumindo, trabalhei a maior parte de minha vida com veículos de comunicação, especialmente nas áreas de saúde, beleza, moda e nutrição. Atualmente represento o Povo Cigano na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, que tem por princípio o reconhecimento, valorização e o respeito à diversidade socioambiental e cultural dos povos e comunidades tradicionais
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O que é uma cigana”?
O que é? Melhor não seria perguntar QUEM é a mulher cigana? Para responder a essa pergunta é preciso que tenhamos conhecimento do que quer dizer a palavra cigana e quem são realmente as mulheres ciganas, especialmente as brasileiras.
A palavra cigano/cigana é um termo genérico inventado na Europa do século XV, e que ainda hoje é adotado, apenas por falta de outro melhor. Há quem afirme que a palavra cigana/o vem do Tamil, uma língua dravídica, falada no sul da Índia e que significa pessoa que faz magias, pessoa intocável. Por outro lado, afirmam alguns ciganólogos que se trata de uma palavra derivada do grego bizantino (athinganoi), que significa intocável e se transformou em atsigan e tsigane. Como podemos notar, trata-se de uma palavra nascida com uma carga enorme de preconceito e que reflete a relativa incomunicabilidade que existiu entre esse povo dito cigano e os demais.
Pelo sim ou pelo não, mulher cigana é uma mulher descendente de um povo que, por volta do ano 1000, por motivos ainda ignorados, iniciou uma migração de indianos em direção ao Ocidente. Elas passaram, durante a diáspora cigana pela Pérsia, pela Turquia, no século XIII e também pela Grécia e outros países balcânicos. A partir do século XV migraram para a Europa Ocidental, onde geralmente diziam ser originárias do Pequeno Egito (então região da Grécia), mas pelos europeus confundida com o Egito, na África. Por isso, em vários países passaram a ser chamadas de egípcias ou egitanas, de que derivam, por exemplo, os termos gypsy (inglês), gitan (francês) e gitana (espanhol).
Uma coisa é certa, só é cigana quem nasce cigana e, principalmente, fala o romanês, idioma do povo cigano. Tudo o mais é, digamos, imaginário aflorado e voltado para as lendas que envolvem o povo cigano.
É verdade que todas têm poderes místicos?
Todas as mulheres ciganas, desde pequenas, aprendem a ler a “buena dicha”. Trata-se de um item bastante considerável da cultura cigana. Contudo, dizer que possuem poderes místicos vai depender da fé de cada um. Seria muito bom se realmente as mulheres ciganas possuíssem tais poderes, pois poderiam contornar as dificuldades pelas quais vivem a passar, especialmente as que dizem respeito à falta de acessibilidade à educação e permanência na escola de seus filhos, documentos de identificação obrigatórios, saúde pública, espaços urbanos nos quais possam armar as suas barracas e, sobretudo, inclusão social, cultural, preservação das suas tradições, suas práticas e seu patrimônio cultural. A elas tudo isso é negado, o que não é segredo para ninguém.
A moda cigana é conhecida como colorida, com formas amplas e com tecidos nobres. Sem contar o uso de ouro e pedras preciosas nos acessórios. Conte um pouco desta estória.
O que seria da moda não fossem as estórias e principalmente as lendas? O Brasil tem cerca de 600 mil pessoas de etnia cigana. As ciganas observadas nas cidades a ler a sorte de quem passam, geralmente, são de etnia kalon, moram em barracas e são nômades. Se as observarmos com atenção veremos que são pobres. Suas roupas não são feitas de tecidos nobres. Usam jóias, sim, mas simples. Muito simples. As pessoas de etnia cigana ron ou sinti costumam, em suas festas, sempre fechadas aos não ciganos, vestirem roupas elaboradas mas longe de serem aquelas que o imaginário de não ciganos construiu usando requebros das lendas e das pinceladas folclóricas. Primeiro a mulher cigana, ron ou sinti não costuma se identificar como cigana e quando sai as ruas suas vestes confundem-se com as da multidão; segundo, as ciganas visíveis, as kalin de acampamento, vestem-se pobremente. O resto fica por conta da imaginação.
Quem costura as roupas para os mais tradicionais da sua cultura?
Há uma cigana no Rio de Janeiro, Ron Kalderach, que costuma encomendar suas roupas a costureiros famosos. Desconheço outra igual. A maioria das mulheres ciganas brasileiras – sejam Ron, Sinti ou Kalon – costuma dispor de costureiras conhecidas que fazem as suas roupas. Quando você fala “as mais tradicionais” seus pensamentos têm um foco: cigana rica. É aí que mora o perigo, pois o Brasil, único país do mundo que teve um Presidente da República cigano ainda ignora o povo cigano porque não o conhece. O que sabe a sociedade brasileira sobre a mulher cigana? Nada! O que sabem os profissionais da saúde, os policiais e os professores sobre a mulher cigana? Nada!
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O “visual cigano” – roupas, acessórios e cabelos – tem um impacto muito forte no mundo ocidental que virou até fantasia. O que você acha disto?
Fantasia é o que passa pela cabeça dos não ciganos. Como falei acima, esse “visual cigano” é fruto do imaginário. Há de se considerar que, inexplicavelmente, algumas pessoas vestem-se com roupas coloridas e saem dizendo-se ciganas. Essas pessoas e grande parte da sociedade não sabem nada sobre o povo cigano, a não ser esse lado folclórico e estereotipado. A essas pessoas tenho a dizer as palavras de Luciano Marsiglia: “Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira assinada nem história. E que a vida dessas pessoas passe despercebida como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltarão preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem-vindos ao mundo cigano”.
Quais as influências da moda “cigana” na cultura ocidental? Quais os estilistas – tanto nacionais, quanto internacionais – que bebem diretamente nesta fonte?
Confesso não prestar muito atenção nessa influência cigana na moda ocidental. Mulher cigana não tem esse tipo de preocupação. Durante muitos anos, quando trabalhei na Vogue, respirava moda 24 horas por dia. Hoje, nem vejo revistas que abordem esse tema: moda. Sei que costureiros famosos como Clodovil, Christian Lacroix, Dior, Gucci e recentemente Herchcovitch, entre outros, tiveram seus momentos de ciganices. Colocaram o imaginário além de toda e qualquer expectativa verdadeiramente cigana. Ainda bem que folclorizam e esteriotipam fazendo uso de seus inegáveis talentos.
Finalizando: por que uma cultura tão rica e com tanta tradição, continua objeto de preconceito?
Desde sua chegada na Europa Ocidental, o povo cigano tem sido vítima de políticas anticiganas, em todos os países por onde passa. A palavra “cigano” virou palavrão; ser cigano virou crime, o que em muitos países significava a morte. Ainda em pleno século XX os nazistas exterminaram cerca de 500 mil ciganos, um holocausto que os historiadores preferem esquecer. Segundo Frans Moonem: “O Brasil talvez seja o único país do mundo no qual um cigano chegou a ser Presidente da República (Juscelino Kubitschek, 1956/60). Mesmo assim, todas as Constituições Federais sempre ignoraram a existência de ciganos, e no Brasil não existem políticas anti ou pró ciganos, nem leis que tratem especificamente das minorias ciganas. Oficialmente os Ron, Sinti e Kalon nem sequer são considerados minorias étnicas, e como tais com direitos específicos, reconhecidos em diversas convenções internacionais, várias das quais promulgadas também no Brasil”.
(Fotos: Divulgação)

4 comentários

  1. ah sem esquecer da sua dança que é marivilhosa
    seu gingado ( ……..)

    envolveu todas nós que a asssistimos !!!

    mariane- reife /PE

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  2. Conheci a yaskará no VII senale,
    sem nem saber que ela era cigana mais já me apaixonei pelo seu jeito de vestir e portar- se diante das pessoas confesso que ela é uma mulher sensacional e muito bem excitante sua beleza e seu carisma me conquistaram !!

    bjssssssss

    yaskara

    Mariane – Recife/ PE

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  3. Gostaria que me enviasse modelos de roupas, acessórios e bijoterias ciganas, faço parte de um grupo cigano. E gostaria de receber as suas sugestões sobre moda cigaan que com certeza servirá de referência para todo meu grupo. Sem mais, agradeço desde já. Elizabeth

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