Artigo: você é um ‘haters’?

Nelson Rodrigues escreveu: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”
Irônico, Nelson é uma referência quando procuro argumentos para tentar entender o comportamento do ser humano. Sim, ‘tentar’ ainda é a palavra, pois o homem é um bicho muito esquisito.
Paulo Betti - Império @ Divulgação
Paulo Betti – Império @ Divulgação

Domingo, 15 de junho, 11h30 – Dia de fazer almoço: Como não tenho TV a cabo no aparelho da cozinha, só me restou a aberta. Aí… Zapeando, encontro a apresentadora Adriane Galisteu no programa do Celso Portioli, no SBT. Leia-se: programa popular, que recebe artistas de Caras e Contigo em quadros e situações que apelam para o sensacionalismo, pois é o gosto do seu público médio. Portanto, eu não espero absolutamente nada além disto.

Enfim… Mesmo sem olhar para a TV, ouvi que a moça era convidada de um quadro, tipo ‘Para quem você tiraria o chapéu’, do programa Raul Gil. No caso, ao contrário de tirar o chapéu, ela teria que ‘jogar torta na cara’ de alguma celebridade da escala A a Z (de acordo com o gosto da produção). O primeiro foi o polêmico ‘deputado-apresentador-ator-cantor-estilista-morto’ Clodovil.
Segundo consta, pouco depois da morte do Airton Senna, Clodovil se achou no direito de gongar com Adriane num de seus programas de TV. Detalhe: ele nem a conhecia pessoalmente e muito menos sabia de sua estória. Não precisei confirmar tal informação no Google. Bastou acionar a memória para lembrar o quanto Clodovil era ‘sem noção’. Adriane contou sua versão e preferiu não ‘jogar a torta’. Aliás, como uma ‘lady’, pois nem seria de bom tom chutar cachorro morto, né?
Outros nomes se seguiram. Aí, munida com toda diplomacia possível (ou ensaiada), ela ‘jogou a torta’ numa tal de Val Marchiori – uma senhora loira que participou de um programa sobre mulhere ricas na Band(cópia do reality americano ‘The Real Housewives of Orange Country’). Para ser sincero, nem lembro qual foi a confusão que rolou entre as duas, pois vivo num planeta bem distante de cultura-pop-trash. De qualquer forma, Adriane foi bem educada.
Confesso que abstrai em relação aos demais participantes, mas, num certo momento, ouvi a loira falar: ‘ah, isto deve ser coisa dos haters’.
hatersHum… A palavra me chamou a atenção. Fui pesquisar.
Para localizar: ‘hater (ou ‘odiador’ em português) é um sujeito rude com celebridades (ou subs), usando as redes sociais para destilar seu veneno. Segundo matéria do jornal O Globo, o Twitter é seu veículo preferido, mas, os blogs também são uma rica fonte de veneno. 
Um dos mais conhecidos é o Perez Hilton, que até 2005 era um Zé-Ninguém, mas depois de lançou um blog com o objetivo de falar mal das celebridades, caiu no gosto dos fãs de cultura pop. Fora Paris Hilton (sua musa – ou seja, entenda um ponto de partida danificado), ele não perdoa ninguém. Apesar do tipo de veículo rasteiro, em alguns momentos, ele acertou quando apontou artistas que assumiam posições homofóbicas. Atitude que chegou a causar a demissão de um ator na série ‘Grey’s Anatomy’, por comentários infelizes sobre seu colega gay. 
Por aqui, há alguns anos, surgiu a ‘Katylene’, uma figura conhecida na noite de São Paulo, que lançou um blog com a mesma proposta. No caso, seu alvo eram as celebridades ‘B’, ‘C’, ‘D’ e ‘F’ – as preferidas dos programas populares. Durante um tempo, fez sucesso na web e chegou a participar de um programa da MTV. Depois, sumiu. No seu rastro, surgiram outros blogs, tipo ‘Morri de Sunga Branca’, que fazia (e faz) praticamente mesma coisa. ‘
Numa outra vertente, surgu o ‘Shame on Blogueira’. Com foco nas blogueiras de moda e beleza, a moça não perdeu uma chance de apontar alguma situação vexatória – principalmente das moças do F*Hits (a plataforma de moda e lifestyle criado pela assessora de imprensa Alice Ferraz, que ajudou na visibilidade e nos contratos publicitários de suas ‘associadas’). Neste caso, o princípio é o mesmo – haters – mesmo que seu objeto de ataque continuamente dá munição para ser detonada – seu foco atingiu até algumas blogueiras de Campinas e região, que não foram poupadas na exibição de suas mazelas em nome do ‘look do dia’. 
À primeira vista, estes espaços são divertidos e garantem boas risadas, principalmente, porque estas pessoas criticam aquilo que, no fundo, muita gente gostaria de fazer, mas não tem coragem. O problema é que… Cansa! Sabe aquela piada engraçada, que, depois de ouvida pela terceira vez não tem graça? Então, é a mesma coisa.
Além disto, a linha que divide um ‘piadista’ de um ‘hater’ é muito tênue. Principalmente, porque alguns ‘haters’ são tão maldosos, que seus comentários ou opinões parecem pura inveja ou despeito do sucesso do seu objeto de perseguição. Leia-se ‘sucesso’ – pessoa que faz alguma coisa que se destaca da maioria e ganha reconhecimento – para o bem ou para o mal! Se isto acontece nos EUA, imagine no Brasil – país dominado pela opinião da classe média, que valoriza a ‘tradição, família, religião e propriedade’?
Muppets Haters @ Divulgação
Muppets Haters @ Divulgação
Do outro lado, os haters podem ser processados. Lembra da história da atriz Carolina Dickman, que não gostou da brincadeira da turma do programa Pânico? Entrou com uma ação, foi indenizada em R$ 35 mil por danos morais e ganhou a solidariedade das pessoas! Afinal, ela se tornou uma ‘vítima’ de um tipo de ‘hater’ eletrônico.
Neste caso, o ‘hater’ deixa o personagem ‘bitchy (ou divertidamente maldoso)’, para se tornar ‘inconveniente’, ‘perigoso’ ou até um ‘criminoso’ – em casos de comprovação de assédio moral.
Plus: Escrevi este artigo em junho, portanto, a novela Império ainda não estava no ar. Hoje, o personagem Téo – interpretado com muito exagero pelo ator Paulo Betti – é o mais perfeito representante do termo ‘Haters’.
(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)