Óculos Solar – De Hollywood para a História

Artigo assinado pelo editor Jorge Marcelo Oliveira

De acessório de luxo a protetor dos raios solares e da radiação ultravioleta (UVA, UVB e UVC), os óculos solares passaram por mudanças significativas desde a década de 20, quando os homens descobriram os benefícios do banho no mar ao politizado e espiritual período da década de 90.

Ao mesmo tempo, como uma das mais importantes vitrines para lançamento de tendências, conceitos e questionamentos sociais, o cinema adotou seu uso – tanto dentro quanto fora das telas.
Baseando-se numa palestra ministrada em 2006, o editor do MONDO MODA, Jorge Marcelo Oliveira, relembra alguns momentos da história quando Hollywood transformou o uso dos óculos solares num estilo de vida.
Década de 20/30
Em 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, o mundo vivenciou o que foi conhecido como Grande Depressão. Foi o início de uma longa era de crise financeira, que terminaria apenas na Segunda Guerra Mundial (lembre-se: a guerra aconteceu na Europa e não no território americano). Os Estados Unidos, assim como diversos países (Alemanha, Austrália, França, Itália, Canadá, Reino Unido e Países Baixos), experimentaram altas taxas de desemprego, queda do produto interno bruto e da produção industrial. Se não bastasse, a Europa vi o surgimento de regimes autoritários como o nazismo (Alemanha) e o fascismo (Itália).
No meio do caos, apesar dos pesares, ir ao cinema era a diversão mais barata. Com isto, Hollywood vivenciou a Era dos grandes estúdios, como Metro, Columbia e Warner. Outro fator importante aconteceu com a ‘mudança’ na escolha dos atores. Entenda: o cinema sonoro surgiu em 1927. Com isto, os atores começaram a dar importância a voz. Os estúdios buscaram nos teatros atores mais expressivos, assim como roteiristas foram obrigados a definir os personagens através das palavras. Astros e estrelas que tinham apenas o ‘rosto’ foram deixados de lado por ‘atores’. Esta grande mudança foi assimilada com voracidade por uma população em busca de algum escapismo. Assim, Hollywood se tornou a principal referência de moda e de glamour. Os filmes começaram a influenciar de uma forma significativa a vida das pessoas. Estrelas como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Joan Crawford e Mae West eram imitadas por uma legião de mulheres, enquanto astros como James Cagney, Gary Cooper, Charles Chaplin, James Stewart e Henry Fonda ganharam status de sex simbol.
Além do cinema, outras celebridades eram os cantores líricos (Caruso, Mario Lanza) e os pilotos –  homens audaciosos e intrépidos, que cruzavam os céus em aviões novíssimos, reclamavam de enxaquecas causadas pelo excesso de luz solar. Assim, o modelo “Aviator antirreflexo” ganhou o mundo em 1936. O sucesso foi instantâneo. Um ano depois, foi lançado um modelo pela marca Ray-Ban.
Década de 40
Quando alguns pensavam que a crise era coisa do passado (a recessão começou a perder força a partir de 1933 com a série de medidas criadas pelo Presidente americano, Franklin Roosevelt conhecida como New Deal), o mundo foi chacoalhado com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. O mundo foi abalado e dividido em dois. Enquanto a Europa era devastada, os Estados Unidos continuavam a trabalhar e enriquecer fornecendo armamento e roupas para os países em conflito. Aí, em dezembro de 1941, o Japão, aliado da Alemanha desde 1937, invadiu a China e ocupou quase um sexto do território, incluindo Pequim. Roosevelt anula os acordos comerciais, inicia o embargo de petróleo e de matérias-primas minerais que eram fundamentais para a indústria de guerra japonesa. Assim, no dia 07 de dezembro, eles atacam a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, sede da frota americana no Pacífico. Com isto, os EUA entram em guerra.
Os americanos foram enviados para os campos de batalha, enquanto as mulheres assumiram seus postos no mercado de trabalho. Ou seja, enquanto a Europa era devastada, a América trabalhava e fortalecia o país como o principal produtor armamentista.  Terminada a guerra, os americanos (vitoriosos) desejavam reconstruírem sua vida, se casando e formando família. As mulheres voltaram  para casa, enquanto os empregos voltam a ser ocupados pelos homens. O conceito adotado no momento era ‘’casar e ter filhos’, numa época conhecida como Baby Boom.
No cinema, Rita Hayworth, Lauren Bacall, Humphrey Bogart, Cary Grant, Ingrid Bergman, Verônica Lake, Bette Davis, Spencer Tracy, Laurence Olivier se tornam as referências.
No campo ótico surge a lente espelhada dégradé, que garante uma proteção progressiva e eficaz.
Década de 50
Reconstrução, renascimento, cores e modelagens novas (New Look, de Dior, em 1947, propõem uma redefinição do corpo feminino) e muita vontade de dançar (jazz, swing e rock and roll) eram os desejos do momento. Jornais e revistas substituíram a austeridade do passado por dicas de moda e ofertas para as viagens de férias. Surgiu a televisão e o som de 45 rotações.
O estilo da mulher exigia cabelos ondulados, batons vermelho e rosa, cinturas marcadas, saias evasé e óculos gatinho, com uma profusão de lentes coloridas. O rímel e o curvex eram os grandes hits.
Marlon Brando e James Dean dividiam o posto de símbolos sexuais de uma juventude que começava a questionar os valores pré-estabelecidos. O rock’n’roll se torna o principal difusor deste estilo. Na moda, a dupla “calça jeans” e “camiseta branca” se torna um uniforme desta nova geração.
De Hollywood chegou o maior símbolo sexual de sua história: Marilyn Monroe! Era sexo puro em contraponto com a imagem romântica e ingênua de Sandra Dee, Doris Day e Debbie Reynolds.
Os óculos oftálmicos deixam de ser escondidos, enquanto os solares começam a ser difundidos em grande escala. Os modelos browline contornavam as lentes apenas na parte de cima, imitando o desenho da sobrancelha. Também surgiram os óculos no estilo cat eye (gatinho).
Década de 60
Ciência e tecnologia levaram o homem até a Lua. A cultura jovem nunca foi tão difundida como na década de 60. Minorias (negros, mulheres, gays e estudantes) clamam por direitos iguais, saindo às ruas, exigindo seus direitos.
No campo cultural, Londres se torna a referência da efervescência cultural proposta pelos jovens. Dali, a minissaia, proposta pelo francês Andrés Courregès na Primavera de 1964, ganha popularidade graças a Mary Quant.
De Hollywood, Audrey Hepburn representava a elegância e sofisticação. Da França, Brigitte Bardot e Catherine Deneuve a sexualidade livre e sem restrições. Da Inglaterra, Twiggy revolucionava o conceito da modelo, propondo o estilo ‘tábua’ (adotado até hoje pelos estilistas).
“Easy Rider – Sem Destino” era a personificação da rebeldia e Peter Fonda e Jack Nicholson se tornaram os principais porta-vozes desta geração.
Na Califórnia, em 1966, nascia o movimento hippie, com jovens estudantes que se reuniram para zombar da Guerra do Vietnã. Vestiam calças jeans, pantalonas bocas de sino e batas indianas. Com fartas doses de drogas fumadas, inaladas, tomadas ou injetadas, as roupas se tornaram cada vez mais coloridas (psicodélicas) e o conceito do unissex se tornou um mantra.
Era um momento do resgate das raízes da cultura popular americana. A country music ganha nova roupagem, que contava com elementos do rock. Nascia o folk, tendo Bob Dylan e Joan Baez como os principais nomes da geração de jovens politizados.
No mesmo ano, da cidade operária de Liverpool nasceria o maior fenômeno musical do século: The Beatles. No começo, o grupo contagiou o mundo com uma música alegre, dançante e alienada. Eles são considerados o maior produto da cultura de massa e da sociedade de consumo da época. Tudo é lindo e maravilhoso até 1967, quando eles fazem uma viagem para a Índia e adoram a meditação transcendental. Nasce o álbum “SGT Pepper’s”, um marco pelos experimentalismos eletrônicos e efeitos lisérgicos. De ‘coxinhas’ do mainstream, eles se tornam hippies, adotando a tresloucada imagem visual, que marcaria o período.
Um tempo depois, surge os também ingleses, os Rollings Stones. Eles se tornaram os principais difusores da fúria jovem, unindo o som branco do rock com elementos da cultura negra do blues. Em 1967, o Monterey Pop Festival revela ao mundo Janis Joplin, Jimi Hendrix e a banda The Doors. Em 1969 foi a vez do histórico Festival de Woodstock, que se tornou o ‘divisor’ de águas da música do século XX.
A década também ganhou a chamada Pop Art, que era a reprodução do cotidiano, com anúncios, fotografias, outdoors, ilustrações de revistas e histórias em quadrinho.
Os óculos ganharam lentes com maior durabilidade. Jackie Kennedy Onassis é a referência em estilo, impondo uma nova forma de usar os óculos solares, o bug eye (ou ‘lupa grande’). Também foi o momento dos modelos mais leves e coloridos, rapidamente encorpados pela juventude.
Década de 70
Desbundados de um lado e caretas do outro. A década de 70 chegou com grandes contradições. De um lado, o questionamento de valores ganhava força com fartas doses de drogas cada vez mais pesadas. Do outro, os ‘coxinhas’ queriam se casar, construir carreira e conseguir a ascensão profissional.
Neste cenário, hippies, folks, glitters, roqueiros, punks e dançarinos de dance music se tornaram os principais personagens. Cada um representando perfeitamente seus valores (ou falta de).
No cinema, filmes de ficção cientifica (Star Wars, Encontros Imediatos do Terceiro Grau), musicais (Grease, Os Embalos de Sábado à Noite, Jesus Cristo Superstar e Hair) e criticas ao cenário político e social (Todos os Homens do Presidente, Rede de Intrigas, Kramer & Kramer, Taxi Driver). Muitos críticos consideram que a década foi a melhor para o cinema americano, graças ao surgimento de diretores como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, George Lucas e Steven Spielberg.
A moda navega pelos mares psicodélicos do movimento hippie e do glam rock. Roqueiros ganharam força com um som mais orquestral. Timidamente, os punks ganhavam as ruas na Inglaterra. Porém, o mundo seria abalado pelos conceitos imediatistas da Disco Music, abrindo espaço para um contingente de cantores que se tornavam ídolos de ‘one hit wonder’. Na moda, foi o auge dos tecidos metalizados, sintéticos e brilhantes. Foi a consolidação do conceito de cultura da noite, onde as pessoas se ‘montavam’ para representar personagens nas pistas de dança.
Jane Fonda, Diane Keaton, Farrah Fawcett, Raquel Welch eram algumas das estrelas nas diferentes fases da década, enquanto, John Travolta foi o grande sex-simbol.
Para a noite, óculos solar era indispensável – de preferência um Ambermatic. Para o dia, os Naturais, com armações douradas.
Década de 80
Na ressaca da disco music, o hedonismo continuou a exercer grande influência na geração 80. Moda, divertimento e consumo imediato eram as prioridades. Surgiram os yuppies (personificados pelo filme “Nove Semanas de Amor”), como símbolo máximo do desejo de consumir e ganhar um milhão de dólares antes de completar 30 anos (veja o filme ‘O Lobo de Wall Street’).
Surgiu a MTV e os primeiros videoclipes milionários, como ‘Thriller’, de Michael Jackson. A indústria musical lança o CD, que provocou uma revolução de costumes. Nas ruas, surgem as tribos urbanas – góticos, punks, new-waves ou rappers. Culto ao corpo se tornou um mantra.
De Hollywood chegava ‘Blade Runner’, ‘Procura-se Susan Desesperadamente’ (com Madonna começando seu plano de dominação mundial), ‘Wall Street’, ‘Atração Fatal’, entre outros. As estrelas eram Kim Basinger, Kelly Le Brock (A Dama de Vermelho), Kathleen Turner e Glenn Close, enquanto Michael Douglas, Mickey Rourkey, Sylvester Stallone, Kevin Costner e Tom Cruise eram os astros.
Os óculos eram grandes e com lentes coloridas, mas também o estilo “aviador” teve uma volta triunfal. O Wrap Arounds, modelo que contornava e se encaixava no rosto virou uma febre.
Década de 90
Os anos 90 começaram com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, consolidando assim a força da democracia, globalização e capitalismo.
O mundo vivenciaria como nunca os conceitos de liberdade, espiritualidade e contradições. Por um lado, a ideia de voltar a natureza, por outro, o surgimento do computador pessoal e da internet. Hollywood voltou seus olhos ao público adolescentes, que invadiram as salas de cinema nos shoppings. Julia Roberts e Tom Cruise personificaram a imagem desta década: lindos, saudáveis e, principalmente, rentáveis. Eles ocuparam o posto da realeza de Hollywood. Outros nomes eram Sharon Stone, Demi Moore, Brad Pitt, Tom Hanks, Susan Sarandon, Jodie Foster, Mel Gibson, Daniel Day Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Bruce Willis e Meg Ryan.
Na moda, o minimalismo restabeleceu o conceito da roupa bem feita – mas sem excessos. Por outro lado, o corpo ganha destaque, principalmente nas roupas mais decotadas e curtas.
Revival de estilos, destaque para os óculos de aros finos e lentes coloridas.
Novo milênio
‘Sex and The City’ se tornou o primeiro grande seriado fashion da história da TV e o estilo da personagem Carrie Bradshaw se tornou a principal referência da arte do ‘descombinar’, que marcaria a década.
O mundo é chacoalhado pelo surgimento da ‘celebridade instantânea’. Aparecer num reality- show, ‘vazar’ um filme caseiro transando com o namorado na internet ou simplesmente ser alguém que estava em todas as festas ganhou destaque numa crescente mídia especializada em futilidade.
Numa grande crise de identidade, Hollywood apostou suas fichas em filmes baseados em história em quadrinho, remakes de séries da tv, épicos, musicais, terror e comédias leves. A Marvel se tornou a principal fonte de inspiração para o cinema americano.
Nicole Kidman (deusa fashion das telas), Charlize Theron (resgatando a beleza das grandes divas – e ainda provando ser ótima atriz), Reese Witherspoon (a “loirinha” meiga da vez), Angelina Jolie (sexy e polêmica) e Halle Berry (a primeira estrela negra a ganhar um Oscar de melhor atriz) dividem espaço com Adam Sandler (tipo “amigo” bacana), Hugh Jackman (o novo “macho”) e Christian Bale (o sexy e misterioso).
No campo óptico, o começo da década foi marcado pela volta dos maxi modelos dos anos 60. Contudo, do meio para o final, todos os estilos ganharam uma sobrevida, modificados pelas novas tecnologias, ao mesmo tempo que, rapidamente, eram copiados pelos chineses.