‘O Jogo da Imitação’ conta a estória do matemático gay, Alan Turing, considerado o ‘pai do computador’

Coluna assinada pelo jornalista Jorge Marcelo Oliveira
O Jogo da ImitaçãoNum momento o qual o principal personagem gay da novela brasileira é o caricato blogueiro Téo Pereira, destilando mau-caratismo em ‘Império’, é salutar saber que Hollywood apresenta a estória do matemático Alan Turing no filme O Jogo da Imitação.
Homossexual, Alan é considerado o pai do computador. Exatamente isto. Um homossexual foi o inventor do computador – um dos mais revolucionários sistemas surgido no século XX. Quantas pessoas sabiam deste fato, antes do filme ser produzido? Então… Se bobear, nem militante do movimento homossexual (ou LGBT, como preferem) sabia!
Sim, meus caros, foi um homossexual que pagou muito caro por sua orientação sexual (foi sentenciado a ‘castração química’ em 1952 e dois anos depois cometeu suicídio tomando cianeto). Homossexualidade era considerada um crime na Grã-Bretanha até 1967, graças a isto, sua história foi varrida para baixo do tapete por mais de 50 anos. Somente em 10 de setembro de 2009, após uma longa campanha pela internet, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown fez um pedido oficial de desculpas em nome da Grã-Bretanha pela forma que Turing foi tratado após a guerra. Em 24 de dezembro de 2013, Alan recebeu o perdão real da rainha Elizabeth II da condenação por homossexualidade. Ou seja, 61 depois da sua morte. Tipo ‘antes tarde do que nunca’.
Enfim… O Jogo da Imitação é altamente recomendado por diversos fatores, entre eles para conhecer a fascinante estória do genial matemático que ajudou a derrotar os alemães na Segunda Guerra Mundial, ajudando a quebrar o Enigma, código que os nazistas usaram para enviar mensagens aos submarinos.
A estória
O Jogo da Imitação1
O filme começa em 1951, quando detetives investigam uma aparente invasão na casa do matemático Alan Turing. Sob suspeita de ser um espião soviético, durante o interrogatório, Alan relatou sua vida.
Aos 15 anos, era um adolescente muito inteligente que sofria bulling dos colegas de classe (um dos passatempos preferidos era prendê-lo num vão de um piso de madeira enquanto pulavam em cima… um doce…). Numa das ‘brincadeiras’, ele é resgatado por Christopher Morcom, que, além de despertar seu interesse por criptologia, se tornará seu primeiro interesse romântico. Infelizmente, com um final trágico.
Muitos anos depois, em 1939, Alan foi contratado para fazer parte da equipe montada pelo governo britânico para desenvolver um sistema para traduzir os textos encriptados pelos alemães. Excêntrico e com grande inabilidade social no trato com os colegas (que ele considerava inferiores), esta tarefa ser torna muito difícil. Com a chegada de Joan Clarke, uma inteligente estudante de Cambridge, sutilmente, ele muda seu comportamento.
Sob sua liderança, a equipe desenvolve o processador chamado ‘Christopher’ por Alan, um sistema que traduzia os textos encriptados e utilizava símbolos perfurados em fitas de papel que processava a uma velocidade de cinco mil caracteres por segundo. É o primeiro computador da história – na verdade, existe uma corrente de acadêmicos que questiona esta informação, afirmanado que a máquina original, Victory, foi desenvolvida pelo polonês Marian Rejewski. ‘Christopher’ será uma nova versão assinada por Alan e Gordon Welchman (não citado no filme), que, funcionou para quebrar o Enigma e os alemães perderam a Guerra.
Baseado no livro ‘Alan Turning: The Enigma’, de Andrew Hodges (2012), ‘O Jogo da Imitação’ rendeu U$ 156,6 milhões, de um custo de U$ 14 milhões, ou seja, foi um grande sucesso de bilheteria. É um bom thriller histórico com momentos emocionantes, apesar de uma frieza na condução na trama – principalmente na primeira parte e no excesso de discrição sobre a homossexualidade – afinal de contas, a responsável pelo trágico desfecho na vida do genial matemático. Apesar disto, é um bom filme. Fundamental por apresentar ao público a história de um personagem fundamental na história moderna que, lamentavelmente, ficou metade de um século escondido. E, sim, era gay! Para horror de todas as correntes conservadoras atuais.
A atuação de Benedict Cumberbatch é incrível. Ele construiu pequenos detalhes, gestos e olhares que humanizaram seu personagem – que poderia cair no esquemático, tamanha sua inaptidão social. Especula-se que, com as características apresentadas pelo personagem, Alan poderia ter ‘Síndrome de Asperger’ ou outro tipo de autismo não diagnosticado. Indicado ao Oscar 2015, Benedict se entrega ao personagem sem medo. Num ano muito concorrido para os atores protagonistas, sua elogiada atuação não deve garantir o prêmio – o embate será entre Eddie Redmayne (imbatível como Stephen Hawking no filme ‘A Teoria de Tudo’) ou Michael Keaton (magistral em ‘Birdman’).
Outra que surpreende é Keira Knightley. Finalmente ela mostra um trabalho decente desde ‘Orgulho e Preconceito’, de 2005 (ok, ela até que funcionou em ‘Desejo e Reparação’, em 2007, mas estava longe de ser uma boa atuação). Ela também concorre ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante.
Além destes, ‘O Jogo da Imitação’ concorre ao Oscar de Filme, Diretor (Morten Tyldum), Roteiro Adaptado (Graham Moore), Montagem, Desenho de Produção de Trilha Sonora Original. Com um custo de U$ 14 milhões, ele rendeu U$ 156,6 milhões nas bilheterias americanas.