Artigo: Ser fã é coisa de adolescente. Ou não?

No começo do século passado, Hollywood se tornava a fábrica de sonhos. Ainda no cinema mudo, produtores descobriam astros e estrelas. Mudavam tudo – nome, roupas, cabelos, dentes, maquiagens e ‘vida pessoal’. Eles se tornavam ‘propriedade’ dos grandes estúdios, que determinava que tipo de filme era o indicado para garantir o sucesso. Por isto, aceitavam absolutamente tudo na certeza que isto seria o caminho para o sucesso.


Publicitários eram pagos para ‘lançar’ carreiras. Recriavam a biografia, limpando passados obscuros, infâncias infelizes e inventando realidades. Namoradas surgiam quando fofocas questionavam a sexualidade dos astros. O mesmo ocorria para as mulheres. Esposas e filhos eram a garantia da ‘família feliz’, que Hollywood inventou.
Jornalistas também eram pagos pelos estúdios para reproduzir entrevistas preparadas pelos publicitários e, raramente, sabia-se como eram os ídolos na vida real. Entenda-se: até 1935 com o surgimento de televisão nos EUA, as únicas fontes de informações eram as mídias impressas e o cinema, que contavam com ‘jornais’ para as telas, que eram exibidos antes dos filmes. Desta forma, astros e estrelas se tornavam ídolos – figuras admiradas por uma legião de pessoas.
O mundo da música também tinha a fórmula de criar seus cantores e cantoras. Como os grandes estúdios de cinema, as gravadoras também construíam carreiras. Numa escala menor de controle, claro, mas também se preocupavam para evitar que qualquer deslize vazasse para o público.

Elvis Presley foi um dos maiores cantores dos anos 50 e 60 @ Reprodução
Elvis Presley foi um dos maiores cantores dos anos 50 e 60 @ Reprodução

Da construção destas imagens – de atores ou cantores – surgiria um personagem fundamental na vida dos astros: o fã. Ele é aquele ser que se apaixona pelo ídolo.
Em nome desta paixão, pode fazer coisas básicas (ou mais ou menos, né?), como:
• Coleciona e monta álbuns de retratos;
• Guardar foto autografada embaixo do travesseiro;
• Picha muros;
• Decora a parede do quarto com uma ou 200 fotos;
• Compra produtos que seu ídolo lança (ou divulga);
• Colecionar discos, figurinhas, revistas, livros, etc.
• Veste-se como o personagem principal na estreia da continuação;
• Transforma seu quarto numa sala de contemplação, onde reza pela saúde do ídolo;
• Celebra o aniversário, com direito a cantar Parabéns com bolo e velas em frente a um cartaz do ídolo (esta é especialmente para um amigo que se prestou a isto em nome de sua paixão pela Madonna);
• Invade quarto de hotel;
• Passa doze horas na fila e outras seis no estádio esperando o show, mesmo embaixo de chuva;
• Muda sua aparência, pintando o cabelo, fazendo tatuagem, colando piercing ou fazendo plásticas;
• Participa de cruzeiros para perseguir os astros pelo navio, etc.
Nos casos radicais, perseguem, invadem casas ou hotéis e matam seus ídolos também, como Mark Chapman que atirou em John Lennon, em 1980.

Fãs da Beyonce @ Reprodução
Fãs da Beyonce @ Reprodução

Estes exemplos eram do passado, numa época que não existiam internet, wi-fi, smartphones, tablets, selfies ou redes sociais, que, supostamente ‘aproxima’ o fã do seu ídolo. Tudo se complicou a partir do surgimento da Era da Celebridade, no começo do novo milênio. Ou seja, hoje, a coisa é muito mais séria do que o inofensivo álbum de retratos.
Fanatismo é o mesmo que fundamentalismo. Ou seja, é transformar uma paixão em algo próximo a religião. Na adolescência, ser radical é normal. A confusão de hormônios gera rebeldia, surtos, raiva, mau-humor e… Paixões. Nesta fase, o mundo é dividido entre ‘branco’ e ‘preto’. Impensável qualquer traço de cinza ou matizes. Jogo duro tentar questionar, pois, o adolescente fica surdo. Não se inibe em subir no banquinho para defender sua ideia. A necessidade de ser aceito mistura-se com o desejo de afirmação.
Em alguns casos, porém, a paixão pelo ídolo pode diminuir (ou não, depende de cada um) quando o adolescente encontra um ficante ou namorado. É o começo de experimentar sensações reais. Em outros casos, o namorado ou namorado será obrigado a assistir os filmes ou ouvir as canções dos ídolos do outro… Quem nunca?

Fãs de Lady Gaga @ Getty Images
Fãs de Lady Gaga @ Getty Images

Conforme o tempo passo, o radicalismo esfria. O choque com realidade obrigará o fanático a voltar do mundo da fantasia e pisar no chão. Na sequência, ele entenderá que o ídolo é uma pessoa. Não deixará de admira-lo, claro, mas de forma mais comedida. Continuará a comprar seus álbuns, curtir seus videoclipes e assistirá aos shows – mesmo que tenha que viajar para outros países quando a turnê não passa em seu país. São comportamentos normais para quem um dia foi fã.
Contudo… Alguns adolescentes se recusam a aceitar que viraram adultos. Eles irão postergar este fato o máximo que puderem. Conhece o trecho da música do Belchior, eternizada na voz da Elis Regina: ‘Nossos ídolos ainda os mesmos. E as aparências não enganam mais’? Então…
Chegar aos 21 anos com o mesmo radicalismo dos 13 é dose para cavalo. Acreditar que o mundo dos sonhos nunca terminará também é muito triste. Você continuará a admirar aquele que um dia foi seu ídolo, mas deixará de se importar se ele se casou, teve filho, pediu divórcio, perdeu a guarda dos filhos, entrou em declínio (com raras exceções, é o destino de todos), foi envolvido em casos de pedofilia (como Michael Jackson), pagou mico quando resolveu fazer um filme ou sério sem qualquer talento dramático (Madonna ou Lady Gaga), abraçou uma causa perdida, tirou foto fora de forma na praia, foi pega roubando loja de roupa (Winona Ryder), morreu de overdose (Amy, Janis, Whitney, etc), se matou (Robin Williams, Heath Ledger), enfim… Você entenderá que o ator/cantor que era seu ídolo era incrível na profissão, mas péssimo (ou infeliz, triste, azarado), enquanto pessoa. Depois de adulto, o que importará é a obra do artista!