Se estivesse viva, Maysa faria 80 anos nessa segunda-feira

Maysa era a cantora preferida da minha mãe. Ela tinha um álbum-coletânea com diversas cantoras dos anos 50. Lembro-me que ouvíamos e cada vez que começava a canção com a Maysa, ela fazia algum comentário sobre a vida pessoal da mesma. Era uma cantora que manteve sua vida pessoal tão próxima a profissional, que, muitas vezes, ambas se confundiam. Maysa
Se estivesse viva, Maysa faria 80 anos hoje. Geminiana, viveu altos e baixos com tamanha intensidade que assusta e fascina. Dona de uma voz de contralto, sua voz grave funcionava perfeitamente nas canções tristes que interpretava de uma forma muito particular.
Maysa nasceu em 6 de junho de 1936 em casa, na Rua Visconde Silva, em Botafogo. De família rica, aos 12 anos compôs sua primeira canção, “Adeus”. Inquieta, resolveu se casar com o empresário André Matarazzo aos 16 anos. De uma das mais tradicionais famílias paulistas, ele era 18 anos mais velho e tiveram um filho, Jayme Monjardim Matarazzo, hoje diretor de novelas da TV Globo.
Com forte resistência do marido, Maysa lançou seu primeiro disco, “Convite para ouvir Maysa”, em 1956. O disco fez sucesso, que incomodou o marido e a obrigou que abandonasse a carreira. O casamento entrou em crise. Em 1958, Maysa e André se desquitam. Ela mudou-se para o Rio de Janeiro, e ele ficou em São Paulo. O filho do casal passou a viver com os avós maternos.

O sucesso do primeiro álbum rendeu diversos convites para participar de programas de rádio e televisão. Recebeu diversos prêmios, entre eles, “O Disco de Ouro do Jornal O GLOBO” como cantora revelação em 1957. No rastro do sucesso, participou dos filmes ‘’O cantor e o milionário’’, “Matemática zero, amor dez’’, ‘’O camelô da rua larga’’ e ‘’O batedor de carteira’’.
No Rio, conheceu a elite do samba-canção e da bossa nova. Gostava da vida noturna, incluindo aquelas regadas com fartas doses de bebidas e cigarro. Também vivia numa gangorra com a balança, no qual chegou a pesar 90 quilos. Emagrecia e voltava a engordar no mesmo ritmo que trocava de namorado. Entre eles, o temperamental jornalista, compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli, que namorava outra cantora, Nara Leão. Ele compôs com Roberto Menescal uma das mais conhecidas músicas da bossa nova: “Barquinho”, gravada por Maysa.
Como uma típica geminiana, seu humor era variável e instável. Também era agressiva e sofria de depressão. Estes sentimentos influenciavam suas canções, conhecidas na época como ‘música de dor de cotovelo’. Algumas se tornaram clássicos, como “Meu mundo caiu” “Ouça” e “ Resposta”. Interpretou canções de Tom Jobim , Vinícius de Moraes, Dolores Duran, Fernando Lobo, Aloysio de Oliveira, entre outros.
Maysa (1)Na década de 60, intensifica sua carreira e começa a fazer shows pelo Brasil e exterior, como no Uruguai, Argentina, EUA (Nova York), Portugal e França. Em Paris, apresentou números da bossa nova e samba e, como último numero, cantou “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel. Foi um sucesso estrondoso, aplaudida de pé por mais de cinco minutos. Ela também foi a primeira cantora brasileira a se apresentar no Japão.
Durante a turnê pela Europa, ela conheceu seu segundo marido, o empresário Miguel Azanza. Casaram-se em 1964 e moraram na Espanha por quatro anos. Ao voltar para o Brasil, em 1968, se separam em seguida. Ela foi morar com o cameraman Laerte Rosa, que em 1970 morre de overdose, causando em Maysa uma profunda depressão. Na vida profissional, foi a primeira grande cantora a fazer um show no Canecão, em 1969. Também participou do Festival Internacional da Canção, ficando em oitavo lugar com a música “Ave Maria dos retirantes”.
A partir da década de 70, Maysa passar a investir em trabalhos na TV e no teatro. Foi jurada do Programa Flávio Cavalcanti; atua na novela “O Cafona”, da Rede Globo, ao lado de Marilia Pera, Tonia Carreiro e Ary Fontoura e em um programa de entrevistas chamado Dia D, da TV Record. Passa também pelo teatro, na peça “Woizeck”, uma comédia musical.
Seu último marido foi o ator Carlos Alberto. Na casa de Maricá, na Região dos Lagos fluminense, Maysa experimenta cinco anos de maior equilíbrio emocional. Em 1976, Carlos Alberto pede a separação.
No dia 22 de janeiro de 1977, Maysa iria para Maricá em sua Brasília, quando sofreu um acidente na Ponte Rio-Niterói, no qual morreu. Tinha 40 anos.
Em 2007, ganhou uma biografia assinada por Lira Neto com o título ‘’Maysa – Só Numa Multidão de Amores’’, que remete a uma frase do poeta galês Dylan Thomas.
Artigo: Jorge Marcelo Oliveira | Fonte: Claudia Peluffo de Amorim – O Globo