A 79ª edição do Festival de Cannes chegou ao fim consolidando um panorama de intensas discussões políticas, estéticas desafiadoras e uma clara transição de forças no mercado cinematográfico global. Sob a presidência do cineasta sul-coreano Park Chan-wook no júri oficial, o festival deste ano entregou um palmarés marcado por divisões acirradas na crítica, mas com escolhas fortes no plano sociopolítico.
O grande destaque histórico da noite de encerramento foi a distribuidora estadunidense Neon, que estendeu sua impressionante sequência de vitórias na Riviera Francesa ao conquistar sua sétima Palma de Ouro consecutiva com o longa vencedor.
A Palma de Ouro foi concedida a “Fjord”, dirigido pelo romeno Cristian Mungiu, que agora entra para o seleto grupo de diretores com duas Palmas de Ouro no currículo. Estrelado por Renate Reinsve e Sebastian Stan, o filme acompanha um casal religioso de imigrantes em uma cidade progressista na Noruega que passa a enfrentar o escrutínio e a ameaça de perder a custódia dos filhos devido aos seus métodos rígidos de educação. Em seu discurso, Mungiu definiu o longa como um manifesto contra qualquer forma de integrismo e fundamentalismo. Apesar da vitória expressiva, o filme dividiu a crítica especializada, dividida entre elogios à sua complexidade moral e ressalvas quanto ao seu tom considerado professoral por alguns analistas.
O Grand Prix, tradicional segundo lugar da competição, ficou com “Minotaur”, do diretor russo Andrey Zvyagintsev. O longa constrói uma crônica fria e impactante sobre infidelidade e assassinato tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia.
O Prêmio do Júri foi para a alemã Valeska Grisebach por “The Dreamed Adventure”, drama que acompanha um arqueólogo que desenterra segredos sombrios em uma pequena cidade na fronteira com a Bulgária.
A categoria de Melhor Direção apresentou um empate que reflete as discussões estéticas do júri. O prêmio foi dividido entre a dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, pelo épico de várias décadas “La Bola Negra’ — que investiga os mistérios de um romance perdido do poeta Federico García Lorca —, e o polonês Paweł Pawlikowski por “Fatherland”, obra focada no retorno dos escritores Thomas e Erika Mann à Alemanha do pós-guerra.
As categorias de atuação também consagraram dinâmicas coletivas. O prêmio de Melhor Atriz foi entregue conjuntamente à francesa Virginie Efira e à japonesa Tao Okamoto pelas atuações no drama de Ryusuke Hamaguchi, “All Of a Sudden (Soudain)”, que investiga os laços de solidariedade entre duas mulheres em um ambiente de cuidados de saúde.
No lado masculino, o prêmio de Melhor Ator também foi dividido, consagrando Emmanuel Macchia e Valentin Campagne pelo trabalho em “Coward”, novo filme do diretor belga Lukas Dhont.
O prêmio de Melhor Roteiro foi para Emmanuel Marre por “Notre Salut”, drama político que revisita a ascensão de um estrategista em meio à França de Vichy, baseado em relatos familiares do próprio diretor.

Uma das curiosidades de Cannes em 2026 foi a presença reduzida de grandes produções de estúdios de Hollywood na competição oficial. Os dois únicos representantes estadunidenses na disputa pelo prêmio principal — “Paper Tiger”, de James Gray (estrelado por Adam Driver e Miles Teller), e “The Man I Love”, de Ira Sachs — saíram completamente sem prêmios da cerimônia de encerramento.
Por outro lado, o mercado paralelo de aquisições demonstrou forte atividade para o cinema independente e produções de perfil autoral. O maior negócio do festival foi fechado pela A24, que adquiriu os direitos de distribuição da comédia dramática “Club Kid”, dirigida por Jordan Firstman, em uma transação estimada entre 15 e 18 milhões de dólares após uma recepção calorosa e entusiasmada nas sessões de mercado.

A noite de abertura trouxe o tom de celebração com a entrega da Palma de Ouro Honorária ao diretor neo-zelandês Peter Jackson, reconhecido por seu impacto duradouro na escala e na imaginação do cinema contemporâneo. A abertura oficial das exibições contou com a comédia romântica burlesca “The Electric Kiss (La Vénus Électrique)”, do diretor francês Pierre Salvadori.
A cerimônia de encerramento concedeu uma Palma de Ouro Honorária à Barbra Streisand, que dividiu as honrarias especiais da edição também com John Travolta.
Por conta de uma recomendação médica devido a uma lesão no joelho, a artista de 84 anos não pôde comparecer presencialmente à Riviera Francesa. No entanto, sua ausência física foi contornada por uma emocionante mensagem em vídeo exibida no telão do Palais des Festivals.
Em seu pronunciamento, Streisand relembrou as barreiras impostas pela Hollywood dos anos 1980 a mulheres dispostas a dirigir, citando as duas décadas de luta para realizar o clássico “Yentl”. Suas palavras sobre a capacidade do cinema de gerar empatia e abrir mentes em um cenário mundial fraturado foram recebidas com uma das ovações mais calorosas de todo o festival.

Ainda no campo das celebrações da memória do cinema, o festival abriu espaço fora de competição para a exibição da restauração em 4K de “O Labirinto do Fauno”, apresentada pessoalmente pelo diretor Guillermo del Toro para marcar exatos 20 anos da histórica recepção que o filme teve em seu lançamento original na mesma Riviera Francesa.
