Strike a Pose: Netflix exibe documentário sobre os bailarinos do show Blonde Ambition da Madonna

Madonna iniciou a turnê Blond Ambition no dia 13 de abril de 1990. Ela é considerada a ‘reinvenção’ dos grandes concertos internacionais a partir do momento que Madonna e o coreógrafo Vincent Patterson combinaram música, moda, arte performática, Broadway e Las Vegas. Ela também o início da fase ‘polêmica’ da artista, que meses antes, causou com o clipe ‘Like a Prayer’ com seu Jesus Negro. Na sequência, veio o documentário ‘Na Cama com Madonna’ (‘Truth or Dare’, título americano e ‘In Bed With Madonna’, europeu), que fez muito barulho.

Madonna e os bailarinos de The Blond Ambition @ Divulgação

Dirigido por Alek Keshishian, o filme é considerado um dos marcos na história do cinema por retratar assuntos polêmicos como homossexualidade, religião, fama, divórcio, relacionamentos, morte e AIDS. Sem contar o famoso beijo na boca entre dois bailarinos – considerado um ‘marco’ na causa gay, principalmente no momento conservador dos EUA na época.
No estilo reality show – até então, um termo desconhecido do público, inicialmente ‘Truth or Dare’ seria exibido como um especial da HBO, contudo, ao perceber o material que tinha em mãos, o diretor resolveu lança-lo no cinema. Tirando a parte que envolvia negócios, o documentário acompanhava a relação de Madonna com seu pai, namorado (Warren Beatty, que, até hoje tem gente que desconfia se era namoro ou era apenas uma jogada de marketing para divulgar ‘Dick Tracy’, dirigido pelo astro), irmão, amigos, backing vocals e seus dançarinos, que, ela tratava como ‘seus filhos’.

Madonna e os bailarinos de The Blond Ambition @ Divulgação

Os sete “filhos” eram Luis Camacho, Salim Gauwloos, Jose Gutierez, Kevin Stea, Gabriel Trupin, Carlton Wilborn e Oliver Crumes III, o único heterossexual. São eles que se tornaram os protagonistas do documentário Strike a Pose, que acaba de chegar no Netflix.
O título foi retirado do refrão da canção “Vogue”, de 1990, um dos maiores sucessos da cantora, que foi inspirado no estilo de dança chamado “voguing”, muito conhecido na cena gay e pobre de Nova York no final dos anos 1980, especialidade de Luis Camacho e Jose Gutierez (podem ser vistos também no documentário ‘Paris is Burning’, no catálogo da Netflix).
Um ano após o lançamento do documentário “Na cama com Madonna”, Oliver, Kevin e Gabriel processaram Madonna por invasão de privacidade, fraude, deturpação intencional, supressão da verdade, e imposição intencional de aflição emocional por expor suas vidas privadas. Os três fecharam um acordo em 1994. Em 1995, Gabriel Trupin faleceu devido a complicações resultantes da AIDS. Num dos momentos mais emocionantes, sua mãe conta como foi o descobrimento da doença.

Strike a Pose @ Divulgação

Dirigido por Ester Gould and Reijer Zwaan, ‘Strike a Pose’ conta a vida dos rapazes, que, no auge de seus 20 e poucos anos, se deslumbraram com a exposição que o trabalho ao lado da estrela proporcionou. Doença (três eram soropositivos na época da turnê, mas escondiam), envolvimento com álcool e drogas, perda de dinheiro e ‘fama’ e falta de perspectiva com o futuro são algumas das consequências. O acerto é mostrar o ‘dia seguinte’ de um tipo de celebridade instantânea – hoje, no Brasil, representada pela legião de ex-BBBs e digital influencers, que dominam a cena por um período curto, mas, com raras exceções, depois de um tempo, afundam no ostracismo total.
Na época do processo, alguns deles foram convidados a participar de programas de televisão contando ‘sua versão’ dos fatos. Isto não ajudou em nada. Luis Camacho e Jose Gutierez, que não processaram a cantora, lançaram um disco pelo antigo selo de propriedade de Madonna, Maverick Records. Ela fez o backing vocal de algumas canções, mas o álbum não aconteceu. Carlton Wilborn e Salim Gauwloos, que também não a processaram, participaram da turnê ‘The Girlie Show’, em 1993.

O fato é: eles foram contratados como bailarinos. O sucesso do show aliado com a mega exposição do documentário ‘Na Cama Com Madonna’, os levaram para um patamar acima do qual cada um jamais imaginou. Tanto o show quanto o documentário causaram um impacto muito grande na cultura americana na época, que vivia num momentos mais conversadores de sua história, principalmente graças a AIDS, que devastava metade dos gays do mundo todo. Entenda: era o início dos anos 90.
Nesse cenário, é compreensível o deslumbramento de um jovem de 20 e poucos anos ver sua imagem ligada a Rainha da Música Pop, que estava no auge do seu domínio mundial como a mulher mais famosa do mundo. Ou seja, era um trabalho com um tempo determinado a terminar, mas com a sensação de que seria eterno. Tipo assim: ‘a festa já acabou, mas quem sabe o DJ não volta para uma ‘palhinha’. Sabe como? Pensa bem: quantas pessoas não cortariam uma parte do corpo para ter tido uma chance com eles tiveram?

Confesso que mantive uma expectativa de ouvir lamentos ou acusações contra a cantora. Um ou outro até esboça um sutil comentário que poderia ter ser compreendido desta forma. Dois citam que a encontraram no lançamento do perfume ‘Truth or Dare’ na Macy’s, em Nova York, ela sorriu. Outro, Salim, que ela o deixou morar por um curto tempo num período antes do rehab que ele fez Los Angeles, graças a mãe que veio da Europa para ajuda-lo.
Porém, quase na cena final, um deles declara: “Não acho que elas nos deva alguma consideração. Elas nos deu uma oportunidade fantástica. Nós vivemos nossa vida. O que estou dizendo é que… Ela realmente não deva nada a nós. O que saiu dessa experiência foi por responsabilidade nossa’. Nós nos tornamos quem somos por causa de nós mesmos. Foi ótimo ter acontecido ela, mas foi um momento específico. (…) Nós saímos da obscuridade”.
Bingo!