Tamara de Lempicka – de pintora dos anos loucos a baronesa americana

Para aqueles que, como eu, vivem à margem da sociedade, as regras habituais não têm qualquer valor’ – esta frase define claramente o espírito de Tamara de Lempicka ao longo da sua vida e obra.
Nascida Maria Górska, na Polônia, Tamara de Lempicka foi uma das principais artistas do movimento Art Déco. De família rica, estudou num colégio interno em Lausana (Suiça) e aos 20 anos, se casou com o advogado Tadeusz Lempicka, em São Petersburgo (Rússia). Com a revolução, seu marido foi preso pelos bolcheviques, mas, graças a intervenção de Tamara, foi solto. Depois, eles se mudaram para Paris.
Tamara de Lempicka - 1929 @ Divulgação
Tamara de Lempicka – 1929 @ Divulgação
Ela se instalou em Montparnasse e rapidamente foi aceita pela sociedade parisiense. Ganhou o apelido de ‘La Belle Polonaise’, graças a postura moderna, assim como a sociedade da época, que vivia o ‘joie de vivre’ – que valorizava a alegria de viver, com festas, danças e diversão.
Tamara de Lempicka, Saint-Moritz, 1929 @ Photo by Renaud Camus - Flickr
Tamara de Lempicka, Saint-Moritz, 1929 @ Photo by Renaud Camus – Flickr
Começou a se dedicar às artes plásticas por intermédio de Maurice Denis e André Lhote, com quem teve aulas de pintura. Sua base foi o cubismo sintético, o qual se aliava o vanguardismo do movimento com os motivos burgueses e mais acadêmicos. Sua ganhou o título de Art Déco, marcada pelo pós-cubismo no seguimento de Picasso e Braques, e pelo neoclassicismo adaptando Ingres.
Tamara de Lempicka - Andromeda - 1927-28 @ courtesy www.tamara-de-lempicka.org
Tamara de Lempicka – Andromeda – 1927-28 @ courtesy http://www.tamara-de-lempicka.org
Sucesso
Com a ajuda de seu amante Gabrielle d’Annunzio, Tamara apresentou sua primeira exposição em Milão com 28 obras produzidas em seis meses. Com o sucesso, tornou-se uma das principais artistas de sua geração, pintando aristocratas e nobres europeus.
Tamara de Lempicka, Autoportrait, 1925 @ kunst.wikia
Tamara de Lempicka, Autoportrait, 1925 @ kunst.wikia
Em 1925, ela produziu seu trabalho icônico: o ‘Auto-retrato (Tamara no Bugatti Verde)’, que se tornou capa da revista de moda alemã Die Dame.
‘Lempicka faz transparecer a relação entre a mulher e o automóvel, reflexo da subjugação desta pela posse do objeto. É um espelho da sociedade materialista; e da capacidade e ambição do homem, enquanto criador desta máquina. Paralelamente, o automóvel surge aqui como um símbolo da emancipação feminina, pois a mulher consegue dominá-lo, tal como ao homem. No fundo, Lempicka vai mais longe, estabelecendo a dicotomia mulher-automóvel a par da feminilidade-masculinidade e, consequentemente, querendo dar a entender a sua postura perante a vida, ao acreditar que todos os seres humanos, homens e mulheres, são uma mistura destes dois componentes (Susana Batel, site Hoops)’.
A obra de Tamara era a representação dos anos 20 – transmitia um certo tipo de beleza, de proporções corporais e conciliáveis com os ideais propagados por Hollywood, Vogue e campanhas de Elizabeth Arden e Helena Rubinstein. No entanto, De Lempicka vai mais além, ao atribuir uma grande intensidade psicológica e física às suas personagens, ao expor de forma crua e fria, os sentimentos e emoções daqueles que retrata – no fundo, era o reflexo dela própria.
Tamara Lempicka - Young Lady with Gloves, 1930 @ Divulgação
Tamara Lempicka – Young Lady with Gloves, 1930 @ Divulgação
Sobre seu trabalho, Tamara comentava: ‘O meu objetivo é nunca copiar, mas sim criar um estilo novo, cores claras e luminosas, desvendar a elegância dos meus modelos’. Imprimindo extravagância e sensualidade aos seus modelos, expressa erotismo em grande parte da sua obra, adaptando uma espécie de “Ingrismo perverso”.
Amantes
Viveu muitos anos ao lado do seu primeiro marido, com quem teve uma filha, Kizette. Contudo, neste período, Tamara viveu aventuras amorosas com homens e mulheres – entre eles, amigos, modelos e desconhecidos. Colette, Violet Trefusis e Vita Sackville-West foram algumas de suas amantes. Seu marido aguentou até 1927, quanto resolveu se separar. Neste ano, Tamara ganhou o primeiro lugar na Exposição Internacional de Belas Artes, em Boudeaux, na França, pela obra ‘Kizette on the Balcony’.
Assim como o marido, Tamara também não dava atenção à filha Kizette, que raramente via. A garota vivia com a sua avó, Malvina. Em 1929, quando avisou que não iria visita-las no Natal, Malvina ficou tão irritada, que queimou uma enorme coleção de chapéus da filha.
Apesar de ser negligenciada em vida, a imagem de Kizette entrou para a história, graças a série de retratos produzidos pela mãe, como o citado ‘Kizette on the Balcony’: Kizette in Pink, Kizette Sleeping e Portraits of Baroness Kizette.
Baronesa
Em 1934, Tamara se casou com o Barão Kuffner Von Diószeg, que lhe deu um título e muito dinheiro. Com o início da Segunda Guerra Mundial, eles se mudaram para Beverly Hills, na Califórnia (EUA). Ela se tornou amiga dos atores Tyrone Powers, George Sanders e Walter Pidgeon. Neste período, a imagem de De Lempicka como a pintora extravagante dos ‘Anos Loucos’ deu lugar a elegante Baronesa Tamara de Lempicka-Kuffner – ‘que é tão divertida e pinta coisas tão engraçadas’, conforme era falado na época.
Em 1943, eles se mudaram para Nova York, onde, apesar de badalar nos eventos sociais, sua popularidade enquanto pintora foi diminuindo. Frequentes viagens para a Europa foram mudando seu estilo de pintar, como o uso de facas no lugar de pincéis. Em 1962, suas novas obras foram exibidas na Iota Gallery, mas não foram bem recebidas pela crítica. Tamara decidiu que nunca mais apresentaria seu trabalho novamente e se aposentou – tanto da badalações, quanto da vida profissional. Apesar da promessa, continuou pintando, principalmente trazendo elementos de sua obra do passado para as novas criações.
Tamara de Lempicka, Poissons, 1958 @ Photo by Cea - Flickr
Tamara de Lempicka, Poissons, 1958 @ Photo by Cea – Flickr
Legado
Em 1961, o Barão morreu de um ataque cardíaco. Tamara vendeu boa parte de seus bens e fez três viagens ao redor do mundo. Na volta, ela foi morar em Houston, no Texas, com Kizette, marido e dois netos. Em 1978, ela se mudou para Popocatepeti, no México, onde viveu até 1980, quando morreu dormindo. Suas cinzas foram espalhadas em cima do vulcão que deu nome a cidade.
Em 1973, aconteceu uma retrospectiva de sua obra, que ganhou excelentes críticas. Em 1981, seu encontro com Gabrielle d’Annunzio virou uma peça teatral, chamada ‘Tamara’, escrita por John Krizanc. Numa das montagens mais conhecidas, Tamara foi interpretada por Anjelica Houston, em 1987. Em 2005, sua vida se transformou num monólogo criado pela atriz Kara Wilson, chamado ‘Deco Diva’.
De abril a setembro de 2013, o ‘The Paris Pinacothèque’ apresentou a exposição ‘L’Art Nouveau’, que celebrou a carreira de Tamara.
Convite para exposição sobre Tamara de Lempicka na Pinacoteca de Paris, em 2013 @ Divulgação
Convite para exposição sobre Tamara de Lempicka na Pinacoteca de Paris, em 2013 @ Divulgação
Finalizando: Admiradora da obra de Tamara, Madonna usou algumas obras nos videoclipes de ‘Open Your Heart’, ‘Express Yourself’, ‘Vogue’ e ‘Drowned Work/Substitute for Love’. Elas também apareceram nas turnês ‘Who’s That Girl (1987)’ e ‘Blond Ambition (1990)’.
(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)