Arquitetura Antroposófica na Suíça

@ Ana Paula Barros, 2016

Duas pequenas cidades, próximas à Basel, são conhecidas por sua arquitetura incomum. Dornach e Arlesheim abrigam cerca de 180 construções, incluindo residências, que seguem os princípios da Antroposofia.

Essa doutrina filosófica fundada por Rudolf Steiner, no início do século XX, buscava o conhecimento da natureza do homem e um despertar para uma relação consciente com o mundo espiritual. Esse pensamento deu origem à diferentes práticas, dentre elas, a mais divulgada foi na área educacional: a Pedagogia Waldorf. Outras aplicações foram observadas também na medicina, na agricultura (biodinâmica), nas artes e na arquitetura, que é o tema deste artigo.

Rudolf Steiner (1861-1925) foi pensador, educador, artista e ocultista. Desenvolveu diversas pesquisas e textos filosóficos sobre a relação da espiritualidade com os aspectos práticos da vida. São ideias complexas para serem explicadas resumidamente. Para quem quer saber mais, recomendo visitar o site da Sociedade Antroposófica neste link.

A Arquitetura Antroposófica que, posteriormente, foi denominada Arquitetura Orgânica, propõe uma linguagem integrada ao entorno. O edifício é entendido como um organismo vivo. Steiner, que também atuou como arquiteto, trouxe alguns conceitos de projeto baseados na observação da natureza. A ideia de metamorfose da forma foi elaborada por meio da observação do desenvolvimento das plantas, em como seu aspecto, principalmente formal, varia com o seu crescimento.

Assim, a característica principal da Arquitetura Antroposófica é a quase não ter ângulos retos, pois estes, dificilmente, encontram-se no ambiente natural. O resultado são construções escultóricas e com combinações de diferentes ângulos, formatos e contornos. É a expressão do espaço em composições rítmicas, que se transformam conforme a perspectiva, a luz, as cores. Uma arquitetura em movimento, que muda conforme a perspectiva, que permite ao usuário diferentes sensações, percepções e experiências. Algo que Steiner chama de obra “dialógica”, em que as pessoas reagem diferentemente aos estímulos e sentem-se parte do ambiente.

Outro aspecto importante é a identidade do volume arquitetônico. O questionamento da finalidade que terá o edifício, como as pessoas o perceberão, como será utilizado… Todas essas questões são levadas em consideração para o desenvolvimento do projeto e das soluções formais. Um profunda preocupação da relação da qualidade do espaço x função. Uma visão crítica a como são pensados os espaços em geral, que consideram apenas aspectos necessários (dimensões, iluminação e ventilação). Por exemplo, há poucas diferenças entre uma sala de aula e uma sala de escritório, pois ambas são retângulos, com algumas janelas, iluminação de acordo com a regra, ou seja, sem identidade, sem diálogo.

Goetheanum Original @ Open Buildings

Um dos principais edifícios desse conjunto é o Goetheanum, seu nome é uma homenagem a Johann Wolfgang von Goethe, escritor alemão cuja obra foi profundamente estudada por Rudolf Steiner e que inspirou alguns dos fundamentos da Antroposofia. Construído em 1913, inteiramente em madeira, com duas cúpulas impressionantes, o interior totalmente entalhado e repleto de pinturas decorativas, foi o marco inicial para o desenvolvimento da Arquitetura Antroposófica. Foi a primeira obra a ter aplicado os conceitos desenvolvidos por Steiner. Infelizmente, um incêndio o destruiu completamente na noite de Ano Novo de 1922/23.

O segundo Goetheanum @ Ana Paula Barros, 2016

O Goetheanum é o principal ponto de atividades e encontros da Sociedade Antroposófica. Um segundo edifício monumental e escultural, foi construído em concreto. Foi a primeira vez que esse material foi aplicado dessa maneira e tornou-se referência. Foi inaugurado em 1928, três anos após a morte de Steiner, porém basicamente, a “casca”. Durante os 70 anos seguintes, os espaços internos foram complementados, desenvolvidos por diferentes arquitetos. Entre os destaques, está o Auditório Principal, com murais trazendo a história da Evolução do Mundo e vitrais com representações do desenvolvimento individual e cósmico do ser humano e, infelizmente, não pode ser fotografado.

No 150º aniversário de Rudolf Steiner (2011), foi apresentado pela arquiteta Jolanthe Kugler, um levantamento das construções da Arquitetura Antroposóficas em Dornach e Arlesheim e criadas rotas temáticas para explorar e compreender esse conjunto arquitetônico.

É um passeio inusitado e que surpreende pela singularidade das edificações. Uma pena o dia não estar ensolarado…

 

 

Sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s