Cinema | Guerra dos Sexos

Produtores de Hollywood escolhem filmes baseados em momentos históricos, pois eles são garantia de fortes emoções. Gostamos de ver superações, vitórias ou justiças, pois, o fundo, aprendemos a valorizar a jornada do herói.
Seja em saga ou em obras mais discretas, estórias baseadas em ‘fatos reais’ mostram que ‘pessoas’ comuns podem se tornar heróis, por determinado feito que foi importante para sua vida ou de outros.
No cinema, Hollywood descobriu essa fórmula há muitos anos. De Amadeus a Gandhi, de ‘A Lista de Schindler’ a ‘Titanic’, esse tipo de filme ganhou até um nome: ‘baseado em história real’. Em alguns casos, são pessoas conhecidas. Em outros, não. Ano passado, ‘Estrelas Além do Tempo’ fez barulho. Era baseado na história real de três mulheres negras – matemáticas e físicas – que tiveram um papel vital durante os primeiros anos da corrida espacial da NASA, mas foram ignoradas por quase 50 anos. Entre os destaques do filme, a discussão sobre empoderamento feminino aliado com o racismo. Ganhou três indicações ao Oscar, além de vencer 37 prêmios da crítica.
Nessa temporada, o filme Guerra dos Sexos tem potencial para assumir esse papel. Reproduz um histórico momento que aconteceu uma partida de tênis que aconteceu no estádio Astrodome (Houston, Texas), em 1973, que ficou conhecido como ‘Batalha dos Sexos’, ao colocar em polos opostos a campeã de 29 anos Billie Jean King e o veterano de 55 anos, Bobby Riggs.

Guerra dos Sexos (2017) @ Divulgação

No dia 20 de setembro daquele ano, eles disputaram uma partida que foi assistida pela TV por noventa milhões de pessoas ao redor do mundo. Campeão do passado, Bobby era uma figura histriônica, que se auto intitulava ‘porco chauvinista’. Defendia a ideia que lugar de mulher era na cozinha ou no quarto. Detalhe: ele era sustentado por uma mulher rica e bem mais jovem. Do outro, a sensação das quadras femininas, Billy, conhecida no meio esportivo como ‘feminista chata’, pois comprava brigas por pagamentos igualitários. Entenda: enquanto um tenista ganhava U$ 10 mil por partidas, as mulheres não passavam de U$ 1 mil.
Marqueteiro e fanfarrão, Bobby propôs uma disputa com ela, que, recusou. Quem aceitou foi sua rival na época, a australiana Margareth Court. Ela foi massacrada. Bobby transforma a vitória numa grande bandeira machista. No auge do ego inflado, ele desafia ‘qualquer outra mulher’ numa disputa por U$ 100 mil.
Billy aceitou, porém, algumas questões pessoais pesaram contra. Ela era casada com um homem, Larry King (não era o apresentador da TV americana) e começava a questionar sua orientação sexual, envolvendo-se com uma cabeleireira. Lembre-se: era 1973! Discussões sobre direitos LGBT era assunto ‘menor’ – exclusivamente para militantes.
Nos dias que antecederam a partida, Bobby fez o carnaval midiático, com direito a todo tipo de provocação. Billy rebatia, dizendo que a resposta viria na quadra. Graças a isso, a partida virou um assunto internacional. O lado positivo era a discussão sobre igualdade salarial chegarem aos conservadores lares americanos.
Dirigido por Valerie Faris e Jonathan Dayton e estrelado por Emma Stone e Steve Carell, ‘Guerra dos Sexos’ é uma drama com elementos de comédia (fundamentalmente na construção do personagem Bobby), que conta com leveza e emoção um momento importante na luta pelos direitos femininos. É bem feito e sem um pingo de afetação. Ou seja, é um mérito.
No campo de atuações, Emma tem um ótimo personagem e uma atuação mais consistente do que ‘La La Land’, que lhe rendeu um Oscar. Steve – um comediante que não decepciona em papéis dramáticos – rouba a cena com um personagem egocêntrico, arrogante e melancólico.