Moda, tendências e construções sociais

O mundo da moda é um fascinante mecanismo para entender a história da humanidade. Porém, moda não é apenas roupa.

A moda é um sistema que acompanha o homem em sociedade desde a descoberta que a pele do animal garantia proteção contra o frio. A roupa é um instrumento da moda, assim como a decoração, beleza, cultura, carro, gastronomia, turismo, etc. Ou seja, campos de criação são espaços de criação de moda.

O termo tendência passou a ser utilizado com maior frequência na segunda metade do século 20, entre as décadas de 1960 e 1970. Devido à crise do petróleo que atingiu a Europa, os produtores de tecidos, dependentes desta matéria-prima para suas criações, precisaram buscar alternativas para desenvolver seus produtos. Para resolver essas questões, os franceses criaram, em 1973, a Première Vision, empresa responsável na criação de cadernos de sugestões e cartelas de cores. Ela se baseava em estudos do comportamento, expressões e desejos do consumidor a fim de criar produtos que despertem o desejo.
Outras empresas surgiram, especializando em pesquisa de tendências. São chamadas de bureaus de tendência (do francês bureaux du style).

Ou seja, tendência é o estudo do que acontecerá no futuro. Nessa década, porém, erroneamente, a publicidade utiliza essa expressão no lugar de MODISMO – que se refere às novidades efêmeras daquilo que está nas vitrines e nas lojas. Repetindo: não existe ‘tendência atual’. Existe ‘aposta’, ‘proposta’, ‘em evidência’. Tendência é futuro, minha gente!

Chanel Cruise 2019 @ Getty

Convenções

Com essa introdução explicando os termos, vamos entender uma coisa: culturalmente, homens e mulheres são educados a usar esta ou aquela roupa.

No Ocidente, quando nasce, a menina ganha roupas cor-de-rosa e meninos, azul-claro. Por que o rosa e não branco ou amarelo? E por que o azul? Por que não usar verde ou cinza?

Pais e mães escolhem as cores das roupas, quartos e brinquedos baseados em convenções sociais. Para eles, ‘rosa’ e ‘azul’ são as cores que definem quem é a ‘menina’ ou o ‘menino. São construções sociais. Nada mais. Uma cor não determinará nada na identidade de um bebê ou de uma criança.

Um quarto decorado com rosa também não representará nada para a criança a não ser o desejo dos pais de seguir uma tradição. Encher o guarda-roupa de azul também não. Não existe qualquer relação entre a escolha da cor e a sexualidade dos filhos.

Quarto de bebê rosa @ divulgação

Por outro lado, conforme a criança vai crescendo, sua identidade entrará em choque com as escolhas dos pais. Nesse momento, o conceito de ‘pertencer’ regerá a escolha do vestir. Quem determinará a escolha serão os amigos ou colegas de classe. Os pais da nova geração escolhem a roupa baseado no desejo da criança. Ela quer ‘pertencer’.  Seguir as regras do grupo é uma forma de acolhimento e ser aceito.
A criança atual rompe com os conceitos familiares muito mais cedo do que as do passado. Ela seguirá as regras dos grupos que as cercam. A partir desse momento, ela repetirá esses conceitos até a adolescência, no qual, poderá ou não romper com essas regras.
A roupa ainda é determinada pelos grupos (popular, nerd, esportista, alternativo, etc). O adolescente sabe que uma roupa errada o excluirá daquele grupo. Apesar do início do questionamento dos valores, ainda é difícil assumir um estilo individual quando você tem 13 anos.

Roupa como código social

Ouvem-se os mais variados pré-julgamentos sobre a Moda, reduzindo sua importância como ‘algo menor’ ou desnecessário. Mas a moda, como disse, é muito mais do que uma vestimenta.

O simples momento de escolher uma roupa para usar no trabalho é uma atitude ligada à moda. Naqueles curtos minutos do seu dia, o seu senso irá te avisar que ‘calça, camisa e sapato’ é melhor do que ‘shorts, regatas e tênis branco’ para ir ao trabalho – levando em conta que seu escritório seja um espaço convencional. O mesmo senso irá te guiar na escolha da roupa para ir a academia, caminhada, cinema, coquetel ou casamento. Pensa-se em roupa muito mais do que o senso comum acredita.

Conscientes ou não, escolhemos roupas que nos dizer alguma coisa. Seja na (falsa ou não) segurança de nos sentirmos aceitos socialmente ou não, quando colocamos determinadas marcas ou simplesmente na escolha do básico trio “jeans-camiseta-tênis”, estamos passando uma informação. Assim, importante ou não, a roupa é uma escolha individual na construção do homem em sociedade.

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom @ Reprodução

Geração Z – iGeneration, Plurais ou Centennials

Especialistas no estudo do comportamento afirmam que uma década será mais bem compreendida dez anos depois do seu fim. Mesmo nessa Era digital, com sua velocidade de informação, a ideia ainda é válida.
Há dez anos, surgiram as blogueiras, que mexeram no mercado do jornalismo e publicidade. No mercado da moda, elas foram responsáveis por uma revolução nas relações entre ‘marca X consumidor final’. Hoje, são as influences e, por ventura, as ‘it-girls’ – personalidades da moda que ser tornaram vitrines de lançamentos de produtos.

A geração Geração Z revelou novos grupos de pessoas ‘pensantes’. Questionam os tradicionais conceitos sobre Gênero, propõem novos e menos excludentes desejos do vestir e viver.

Eles também questionam os conceitos de sustentabilidade, baseando-se no que acontece hoje com um olhar mais antenado com o presente e futuro do planeta. Valorizam a natureza, resgatando conceitos do passado, como a valorizaram de uma vida mais simples. Também resgataram o artesanal, pois entendem que o feito à mão tem um valor único, que o mercado chinês ainda não abocanhou.

Normcore @ Divulgação

Finalizando

A roupa nos acompanha em todos os momentos de nossa existência. Ela está presente quando nascemos, crescemos e morremos.

Não se esqueça de que ainda é importante escolher a “melhor” peça do guarda-roupa para o defunto estar apresentável na hora da despedida. Ou seja, até na morte, a roupa tem sua função.

Jorge Marcelo Oliveira @ Juliano Silveira

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)