Minha opinião sobre o Oscar 2019

Desde que as mudanças começaram a acontecer há dois anos, com uma sutil renovação no perfil dos membros votantes (incluindo convites a brasileiros que nem foram indicados ao prêmio, como Alice Braga e Rodrigo Santoro), o Oscar 2019 ainda está longe de se atualizar. Pelo menos, no resultado da categoria principal: Melhor Filme.
‘Green-Book: O Guia’ é bom. Através de um (improvável) relacionamento entre dois homens de universos distintos, a obra discute amizade, intolerância racial e preconceito numa América da década de 1960-1970, onde negros eram tratados como ‘cidadãos de segunda, terceira ou quarta classe’.

Era de tensões raciais reproduzidas de uma forma sutil e convencional. Foi uma estratégia adotada pelos roteiristas ao colocar situações de intolerância que causem estranhamento para um público que não está acostumado a questionamentos mais profundos sobre racismo. Claramente é uma estória sobre racismo negro contata pela ótica branca.
É um versão atual do filme de 1989 ‘Conduzindo Miss Daisy’, com inversão de papéis. No lugar da rica idosa branca e o chofer negro temos o rico músico negro e o chofer branco e racista, que vai se ‘converter’ no decorrer da trama.
O que não era tão bom na época, passados 30 anos, quem se lembra de ‘Conduzindo Miss Daisy’? Não é um filme ruim, mas é datado. Envelheceu. O (fraco) roteiro perdeu a força. Não se ‘comunica’ com o público atual. Pior ainda: ele consta em algumas listas dos piores filmes a vencer o Oscar.

Enfim… ‘Green Book: O Guia’ terá o mesmo destino. Apesar de alguns méritos, ele não tem qualquer relevância social e muito menos na cultura pop. Somente as atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali serão reconhecidas.
Uma vitória de ‘Roma’ ou ‘Pantera Negra’ representaria que as mudanças propostas – renovação na diversidade entre os acadêmicos votantes – estariam em pleno vigor. Porém, teremos que esperar mais alguns anos para haver uma sintonia entre os filmes que realmente têm relevância daqueles que ‘tem cara de Oscar’, como se tornaram conhecidos obras distantes do gosto do público ou dos críticos.

Oscar 2019 Olivia Colman Melhor Atriz @ REUTERS/Mike Blake

Outros ‘momentos’ da noite

  1. A vitória de Olivia Colman como Melhor Atriz por ‘A Favorita’ foi o momento mais chocante da noite. Ok, ela está ótima no filme. Engordou 15 quilos, transita facilmente do humor ao aborrecimento… Mas dizer que ela era a protagonista? Os papéis de Rachel Weisz e Emma Stone eram tão centrais quanto o dela. Não fiz os cálculos, mas as três devem ter o mesmo tempo de cena. Lembrou-me de ‘As Horas’, de 2002, com Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep. No Festival de Berlim, as três dividiram o prêmio de Melhor Atriz. Era óbvio. Elas tinham papéis de destaque no mesmo grau de tempo de cena ou importância na trama. No Oscar, porém, Nicole foi indicada como Melhor Atriz e Julianne e Meryl como coadjuvantes. Nicole venceu. No anúncio, Denzel Washington falou: ‘And the Oscar goes to… By a Noise… Nicole Kidman!’. A ironia se referia a prótese nasal usada pela atriz para ‘enfeia-la’ para o papel da deprimida Virginia Wolf.
  2. Olivia derrotou Glenn Close, que concorria pela sétima vez ao prêmio sem nenhuma vitória. Ela carrega o título da atriz mais injustiçada da sua geração. Ontem à noite, um crítico de um site soltou o seguinte comentário: “Olivia ganhou porque está num bom filme e Glenn num filme ruim”. O correto seria “Olivia está num filme mais badalado e visto do que Glenn, que está numa produção independente, pequena e eficaz”. Dentro que pretende, o filme funciona. Porém, admito que foi um comentário que tem lógica. Curiosamente, na premiação do Sindicato dos Atores, Glenn foi a premiada. Sempre foi comentado que quem vota no Sindicato, vota no Oscar – pelo menos, nas mesmas categorias. Acabamos de saber que isso não é verdade. Lamentável.
  1. Alfonso Cuarón levar os prêmios de Diretor, Fotografia e Filme Estrangeiro. Todos merecidos. Os cineastas latinos estão dominando a categoria há cinco anos. Alfonso ganhou em 2014 por ‘Gravidade’, Alejandro González Iñírritu levou ‘Birdman’, em 2015 e por ‘O Regresso’, em 2016 e Guilhermo del Toro por ‘A Forma da Água’, em 2018.
  2. Spike Lee ganhar pelo melhor roteiro adaptado por ‘Infiltrado na Klan’. Primeiro nome de diretor negro que ganhou espaço a partir dos anos 80, ele teve que esperar mais de 30 anos para ser reconhecido pela Academia.
  3. Os três prêmios de ‘Pantera Negra’: Trilha Sonora, Figurinos e Direção de Arte. Com dois excelentes discursos da figurinista Ruth E. Carter e da cenógrafa Hannah Beachler!
Oscar 2019 Madonna e Lady Gaga @ JR for TIME
  1. Independente de gostar ou não da canção, a apresentação de ‘Shallow’ feita por Lady Gaga e Bradley Cooper foi um dos momentos mais bonitos da noite. Sem contar o clima de sedução entre ambos, que despertou uma série de boatos de um suposto caso… Que ajudou Gaga a terminar o namoro há algumas semanas… E que a linda Irina Shayk estaria com os dias contatos ao lado do astro…
  2. Finalizando: não fez a menor falta um apresentador. Ficamos livres daqueles intermináveis 15 minutos de abertura nem sempre tão interessantes para o público fora dos EUA. Ou seja, não ter apresentador deveria se tornar uma regra.