Arquiteta conta o que mudou em sua vida cinco anos depois que deixou o Brasil

Nossa correspondente internacional, a arquiteta, artista plástica e designer Ana Paula Barros completou cinco anos morando na Basileia, cidade no rio Reno, na zona noroeste da Suíça, próxima das fronteiras do país com a França e a Alemanha. Conta com 195 mil habitantes e é considerada a ‘capital cultural do país’.

Pensando no momento atual, no qual o mundo rediscute seu papel social no momento Corona Vírus, pedimos que ela nos contasse um pouco sobre essa mudança radical em sua vida.

Basileia @ Ana Paula Barros

Mudanças sempre trazem novas experiências.
Morar em um lugar onde a arte e cultura são valorizadas e acessíveis, transforma a forma de ver e entender as coisas.
Antes mesmo de mudar para cá eu já estava bem desanimada com a profissão. Era muito desgastante a relação com clientes que, apesar de contratarem um profissional, não o deixam trabalhar.
Aqui me mantive mais no campo do design gráfico e artes visuais. É muito diferente como as pessoas que trabalham com criatividade são recebidas aqui. Sempre que cito minha formação em arquitetura, as pessoas ficam, de certa forma, impressionadas, pois elas sabem da importância desse trabalho.
Isso é uma percepção pessoal, mas uma coisa que me chamou muito a atenção foi: no Brasil as pessoas gostam de “exibir” suas casas e apartamentos, mostrar para a família, para os amigos, para os colegas de trabalho…

Ana Paula Barros Novembro 2017 @ Acervo pessoal

Aqui você tem que “ultrapassar muitas barreiras” para ser convidado ao espaço privado de alguém. Ser convidado para um almoço ou jantar demonstra que a pessoa lhe tem em grande estima, respeito e consideração.
Também acontece que, como aqui mão-de-obra é especializada e cara, muitas coisas são pensadas para o “Faça Você Mesmo”.
Há também uma grande tendência de compra de móveis usados (e muitas vezes, mesmo doados).
Então o que percebo é que as pessoas aqui montam a casa para elas mesmas, pensando no seu bem-estar, sem se apegar a modismos. É até engraçado, porque é de certa forma “padronizada”, face às opções disponíveis.
É claro que isso não é uma regra. Mas como aqui não existem grandes diferenças sociais, não são contrastantes essas questões. E, por exemplo, mesmo em apartamentos de alto padrão, você vê que a decoração é bem minimalista. Escolhem-se poucas e boas peças, algumas obras de arte, mas bem discreto. Não parece um show-room e muito menos uma ‘mostra de decoração’.

Basileia @ Ana Paula Barros

Tem uma questão muito importante: as pessoas daqui não contam com alguém para limpar a casa. Então isso mudou minha visão também sobre a decoração. Porque é fácil ter um monte de cacareco se não é você que limpa e cuida disso.
Acho que essa vivência me fez refletir sobre o consumo em geral. Sobre o que é realmente necessário e ter uma postura mais consciente. Assim, com uma vida mais prática, posso me dedicar a buscar experiências, conhecer lugares e descobrir outras culturas.