CRÍTICA: The Boys in the Band da Netflix

Quando era militante de uma ong de Direitos Humanos LGBTQ+ entre 2002 e 2005, por diversas vezes sentia a falta de discussões sobre os representantes da letra G. As outras tinham espaço para projetos, encontros, palestras, entre outros, mas os gays não. Um dia dividi essa insatisfação com um amigo e o sentimento era parecido.
Bullying, depressão, medos, angústias, machismo, violência domésticas, homofobia internalizada, não aceitação, entre outros assuntos eram deixados de lado para outras pautas, que, na época, eram consideradas mais urgentes. Eu entendia, claro, mas me incomodava a sensação de que tudo estava resolvido entre os ‘gay’. Portanto, ‘vamos seguir’.

O filme

Foi esse pensamento que surgiu depois que assisti ao filme The Boys in the Band, disponível na Netflix nessa quarta-feira, 30 de setembro.
A trama se passa no apartamento Michael (o sensacional Jim Parsons, que desde o final da série ‘The Big Bang Theory’ se especializou em roubar a cena em todos os filmes e minisséries que atua) em Nova York de 1968.
Ele se prepara para receber amigos para a festa de aniversário de Harold (Zachary Quinto, também excelente) quando recebe um telefonema de um ex-colega de quarto da época da Faculdade, Alan, que chorando pede para revê-lo.
Michael se preocupa. Afinal, em princípio, Alan seria o único heterossexual ao lado de muitos gays. Entre o vou e não vou, ele acaba indo.
Sua chegada transforma a festiva noite numa sessão de terapia em grupo, quando medos, angústias, tristezas, decepções e mágoas veem à tona, não deixando escapar nenhum dos nove participantes do evento.
‘The Boys in the Band’ é um remake de um polêmico filme de 1970, dirigido por Willian Friedkin e baseado numa peça teatral off-Broadway de Mart Crowley.
Foi a primeira vez que personagens assumidamente gays protagonizavam uma estória sobre seus reais conflitos.
Fez sucesso, mas recebeu uma enxurrada de críticas de ativistas da época (pré-Stonewall), que não gostaram do retrato feito dos gays nova-iorquinos de 1968. Acreditavam que o retrato alimentava ainda mais os preconceitos dos heterossexuais.
Em 2002, o crítico teatral Peter Filichia escreveu no Theater Mania que a peça inspirou os eventos que aconteceram em Stonewall e pela luta pelos direitos dos gays em 1969. Ele afirma que os gays ficaram muito incomodados como foram retratados, mas entenderam que as coisas seriam diferentes para as novas gerações. Eram necessárias mudanças da forma que os gays eram tratados.

Comentários (Não tem Spoillers)

Talvez alguns gays de 2020 também não se sintam confortáveis com o filme. Podem se sentir incomodados com os personagens afetados, maldosos, tóxicos, enrustidos, promíscuos, medrosos, angustiados, etc. Porém, é inegável admitir que, mesmo 50 anos depois, a estória é relevante e que as discussões continuam atuais.

The Boys in the Band @ Photo de Brian Bowen Smith e Arte de P+A

Gays continuam sofrendo com a homofobia, a opressão, a violência, a não aceitação, a perseguição e com discursos de ódio por parte dos evangélicos e dos conservadores.
Não dá para se iludir acreditando que somos plenamente aceitos. Isso seria uma grande ingenuidade.
Achar que assumir o papel de ‘simpático, fofo, divertido, sociável, querido ou excêntrico’, como cansei de ouvir de pessoas que se referem a mim, basta para acreditar que as pessoas me aceitam ou me respeitam totalmente.
Só para constar: em pleno ano de 2020, o número de assassinatos, agressões físicas e verbais continua enorme.
Alias, o filme tem uma cena de agressão que hoje seria considerada um crime. Exatamente essa cena, apesar de causar indignação e susto, é praticamente deixada de lado na trama. Esse é um fato importante para entender o que o crítico teatral Peter Filichia aponta como singular para os acontecimentos em Stonewall In.
Lógico que isso é desconfortante, mas sentir-se incomodado significa que o filme tem sua importância para nos lembrar de que, se hoje ainda enfrentamos todos os problemas citados, em 1968 era muito pior.

Sobre a produção

The Boys in the Band @ divulgação

O poderoso Ryan Murphy assina a produção, enquanto Joe Mantello dirige um excelente elenco com atores assumidamente gays liderados por Jim Parsons, Matthew Bomer e Zachary Quinto. Eles brilham ao lado de Tuc Watkins, Andrew Rannells, Brian Hutchison, Michael Benjamin Washington, Robin de Jesús e Charlie Carver (que foi um dos gêmeos de Bree da série ‘Desperate Housewives’).
Eles repetem os mesmos papéis da remontagem da peça que ganhou o Tony 2019 de Melhor Revival.
Enfim… Sobre o título do filme… Ele foi retirado de uma fala do filme ‘Nasce Uma Estrela’ de 1954, quando Judy Garland é incentivada por James Mason a cantar para você e para os ‘rapazes da banda’. Era uma expressão usada para se referir aos gays daquela época. Como todo mundo sabe, Judy foi uma das maiores Divas dos homossexuais americanos. Essa fala seria um ‘easter egg’, como conhecemos hoje em dia.

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