O filme ‘A Festa de Formatura’ tem dez problemas

Em 2010, Constance McMillen foi proibida de participar do baile de formatura da Escola Secundária Agrícola do condado de Itawamba, no Mississippi, por um motivo explícito: planejava vestir um smoking e chegar de braços dados com sua namorada. Ela entrou com um processo judicial. Com isso, a instituição optou por cancelar o evento. A hostilidade, porém, ganhou contornos ainda mais cruéis quando a Associação de Pais organizou uma festa secreta paralela, fornecendo informações falsas a Constance para mantê-la excluída.

O episódio provocou comoção pública e atraiu a solidariedade de figuras como as comediantes Ellen DeGeneres e Wanda Sykes. De fato, foi uma atitude reprovável, num alto grau de preconceito.

Em 2016, a história inspirou um musical da Broadway que teve vida curta. Sem a presença de grandes estrelas “chamariz” de Hollywood e competindo em um circuito dominado por produções de grande apelo popular ou franquias consagradas, a peça teve dificuldades para sustentar a venda diária de ingressos.

Ela encerrou suas apresentações em agosto de 2019, somando apenas 310 performances regulares e 23 prévias — uma temporada considerada bastante modesta para os padrões da Broadway.

A montagem funcionou como um sucesso de crítica e de estima dentro da comunidade teatral (conseguiu sete indicações ao Tony Awards), mas não conseguiu se transformar em um fenômeno comercial.

Esse status de “pérola cult” da Broadway, marcado pelo apelo temático e pelo ritmo ágil, foi exatamente o que chamou a atenção de Ryan Murphy para adquirir os direitos e transformá-lo no filme para a Netflix.

O prolífico criador de séries como Glee, American Horror Story e Ratched identificou o apelo da premissa — a interseção entre juventude, música e causas sociais — e assumiu a adaptação cinematográfica para a Netflix, lançada em 11 de dezembro com o título de “A Festa de Formatura”.

Festa Formatura Meryl Street @ Netflix

Para capitanear o projeto, Murphy reuniu um elenco estrelado. Meryl Streep e Nicole Kidman assumem os papéis das veteranas dos palcos Dee Dee Allen e Angie Dickinson, demonstrando igual domínio da atuação e do canto. O time masculino principal traz o comediante e apresentador James Corden ao lado de Andrew Rannells, vindo do remake de The Boys in the Band.

Na ficção, o quarteto interpreta artistas da Broadway em crise de imagem que, ao tomarem conhecimento do caso pelo Twitter, decidem intervir a favor da jovem. A motivação inicial passa longe do altruísmo: trata-se de uma jogada calculada de publicidade espontânea para reabilitar suas reputações. Ao chegarem à pequena cidade, eles colidem de frente com a liderança conservadora da Associação de Pais, vivida por Kerry Washington — uma figura rígida que desconhece o fato de que a própria filha, Alyssa, é a namorada secreta de Emma Nolan, a jovem no centro da controvérsia.

O resultado, porém, é uma decepção total.

Festa de Formatura Nicole Kidman @ Netflix

A começar pela própria estrutura: para absorver a narrativa, é preciso tolerar o modelo mais clássico e engessado do gênero, no qual os personagens interrompem qualquer raciocínio para cantar e dançar. Para piorar, o repertório é fraco, salvando-se apenas o número dedicado à diversidade.

Há também uma barreira cultural evidente. Assim como o Dia de Ação de Graças ou o Halloween — este último importado pelo complexo de vira-lata da classe média brasileira —, o baile de formatura é uma instituição essencialmente estadunidense. No Brasil, a ocasião é apenas o encerramento de um ciclo escolar; nos Estados Unidos, ganha contornos de ritual sagrado, o que exige do espectador uma imersão na relevância exagerada que dão ao evento.

O roteiro ainda cobra um “pedágio de nicho”. É preciso ser o tipo de espectador iniciado em musicais para captar piadas internas sobre o troféu Drama Desk ou entender referências a ícones da Broadway como Chita Rivera e Patti LuPone, que servem de molde para a personagem de Meryl Streep. Embora Streep (usando uma peruca inspirada no corte de cabelo de Shirley MacLaine) seja uma força da natureza, foi muito mal dirigida. Sua atuação beira o caricato.

Festa de Formatura Kerry Washington @ Netflix

A condução do elenco principal expõe desperdícios inexplicáveis. Nicole Kidman aceitou um papel irrelevante, reduzida quase a uma figurante com apenas uma cena expressiva em homenagem a Bob Fosse. Trata-se de uma atriz consagrada por prêmios no cinema e na televisão, longe de precisar de papéis menores para pagar contas.

Kerry Washington, vinda do protagonismo histórico na série Scandal e de um desempenho irretocável em Pequenos Incêndios Por Toda a Parte, defende uma personagem pessimamente construída. O desfecho de sua figura antagônica é inverossímil: em questão de minutos, ela abandona toda a sua rigidez moral ao descobrir sobre a filha e se junta ao grupo na dança final, sem qualquer transição dramática convincente. Até mesmo a excelente Ullman, brilhante em Mrs. America, surge nos minutos finais para uma única aparição apagada como mãe do personagem de James Corden.

Festa de Formatura @ Netflix

A representatividade LGBTQIAPN+ é um tema que exige tratamento sério e digno. Sabendo das violências diárias, do preconceito estrutural, da desigualdade econômica e da expulsão familiar que afetam essa população, a ficção tem o dever de tratar essas histórias com respeito. Ao optar por retratar atores urbanos como figuras mágicas que chegam para catequizar e “salvar” os moradores do interior, a produção incorre em um paternalismo nocivo que apenas reforça estereótipos.

Reinterpretar fatos reais para torná-los atraentes é parte do trabalho da ficção. Contudo, a cota de recursos narrativos baseados em salvadores iluminados se esgotou. A Festa de Formatura busca soar edificante e otimista, prometendo um futuro sem discriminação nas escolas. O excesso de caricatura e a falta de tom, no entanto, impedem qualquer emoção genuína. O produto final entrega um conto de fadas diluído e desprovido de sua essência original.