O filme ‘A Festa de Formatura’ tem dez problemas

Em 2010, Constance McMillen, uma aluna do condado de Itawamba no estado americano do Mississipi foi impedida de participar do baile da formatura da Escola Secundária Agrícola. Motivo: ela queria ir, vestida de smoking, ao lado de sua namorada. Ela entrou com um processo contra a escola. Isso motivou o cancelamento da festa. A Associação de Pais organizou um baile secreto no qual ela não foi convidada e ainda a enganaram sobre o local onde foi realizado. O caso ganhou visibilidade e atraiu a simpatia de celebridades, como Ellen DeGeneris e da comediante Wanda Sykes. O incidente ganhou um musical para a Broadway em 2016, que durou apenas uma temporada. Se isso não bastasse, foi indicado para seis prêmios, mas não ganhou nada. E nenhuma das canções fez sucesso. Mas… O todo poderoso produtor, diretor e criador de ‘Glee’, ‘American Horror Story’, e ‘Ratched’ Ryan Murphy enxergou um potencial. Afinal, ‘música+adolescentes+uma causa social’ são temas caros em sua filmografia. Assim, nasceu ‘The Prom’, ou ‘Baile de Formatura’, que estreou na Netflix na sexta-feira, dia 11 de dezembro. Para garantir o espetáculo, Ryan convenceu Meryl Streep e Nicole Kidman para os papéis da Dee Dee Allen e Angie Dickinson. Premiadas estrelas do primeiro time de Hollywood, elas atuam e ainda sabem cantar. Para os principais papeis masculinos, o comediante e apresentador inglês James Corden e o ator Andrew Rannells (que brilhou no remake de ‘The Boys in the Band’, também de Ryan Murphy). Na trama, o quarteto são atores Broadway, em diferentes graus de fama, que, graças ao Twitter, descobrem que uma garota lésbica foi impedida de ir ao Baile com sua namorada. Oportunistas, eles resolvem ‘ajudar a garota’. Isso garantia uma excelente publicidade espontânea. Na cidade, eles irão encontrar forte oposição da diretora da Associação de Pais, papel de Kerry Washington, que não sabe que sua filha, Allysa é a namorada de Emma Nolan, o pivô da trama.

Algumas questões

PRIMEIRA: Apesar de parecer redundante, você precisa gostar de filme que, para completar um pensamento, o personagem começa a cantar e dançar. Ou seja, é um musical clássico. Se não bastasse, as músicas não são conhecidas. Com exceção da canção sobre diversidade (o melhor momento), as outras são muito fracas.

SEGUNDA: Assim como feriado de Dia de Ação de Graças, Dia da Independência ou até o Halloween (ok, esse começou a ser comemorado por aqui, pois a síndrome de vira-lata da classe média brasileira ‘importou’ o feriado americano que não tem qualquer sentido por aqui), o Baile de Formatura é uma ‘instituição’ dos EUA. Sendo assim, é preciso entender o quanto esse momento é importante par eles. Para nós… É só mais um momento de conclusão de uma fase escolar.

TERCEIRA: Você precisa ser o tipo de gay que se interesse por musical americano para entender algumas tiradas, como a própria personagem Dee Dee Allen afirma que, ‘tirando os gays, que são fãs, ela nunca conheceu um homem hétero que a conhecesse’. E são várias piadas… Como a do troféu do Drama Desk…

QUARTA: Sabe quem são as atrizes Chita Rivera ou Patti Lupone? Elas são a base da construção da personagem Dee Dee Allen, de Meryl Streep. A veterana faz uma ‘homenagem’ às citadas. Ok, a gente ama Meryl. É a única atriz de sua geração que, graças à ‘O Diabo Veste Prada’, tornou-se conhecida pelos mais novos. Ela é sensacional, lógico, mas aqui… Sua atuação flerta com o caricato.

Festa Formatura Meryl Street

QUINTA: É inacreditável que Nicole Kidman aceitou um papel tão insignificante. Ela tem uma única cena que presta – numa homenagem ao genial diretor e coreografo Bob Fosse – novamente só vai entender a cena se for iniciado em musical da Broadway. Do resto, ela é quase uma figurante. Veja bem: é a Nicole Kidman! Premiada com o Oscar, Globo de Ouro, Emmy… E que está arrasando na série da HBO ‘The Big Little Liar’ e na recente ‘Undoing’. Não é qualquer coitada que está desempregada em busca de uns ‘trocos’ para pagar os boletos atrasados graças à pandemia do Covid-19.

Festa de Formatura Nicole Kidman

SEXTA: Kerry Washington foi a primeira atriz negra americana a protagonizar uma série (Scandal) sobre bastidores do poder americana por sete temporadas. Se não bastasse, teve um excelente desempenho na minissérie ‘Pequenos Incêndios Por Toda a Parte’, no canal Amazon Prime. Por que aceitou um papel mal construído? Seu momento final é indecente de tão ruim. No auge da trama, que seria o embate entre o que defendeu desde o início e a realidade que não enxerga (a filha lésbica), simplesmente a personagem perde o rumo. Ela muda de opinião em menos de cinco minutos? Pior ainda: se junta ao grupo para a dança final? Ah, pelo amor…

Festa de Formatura Kerry Washington

SÉTIMA: A inglesa Trace Ullman é uma excelente atriz. No início do ano, ela brilhou como a feminista mal humorada Betty Friedman, na série ‘Mrs. America’. Porém, ela ficou conhecida pela série homônima que estreou em 1987 e ganhou diversas continuações (até 2018). Ela aparece nos últimos minutos da trama como Vera, a mãe do personagem do James Corden. Praticamente ela tem uma única cena.

OITAVA: Diversidade sexual é um assunto que sempre merece atenção. A gente sabe que, apesar de algumas conquistas, o número de LGBTQ+ assassinados é enorme. Somos objetos de escárnio de presidentes/ditadores de países de terceiro mundo. Não temos emprego. Não temos equidade salarial. Somos expulsos de casa e não temos apoio nas escolas, entre outros problemas. Assim, toda obra que retrate essa população com a dignidade é louvável. Porém, colocar quatro atores de teatro como ‘fadinhas’, que irão trazer a modernidade para os jecas do interior do país… Ou mudar conceitos… É reforçar o preconceito.

NONA: Entendo que a ficção precise de liberdade criativa para reinterpretar um fato real para torna-lo atraente e rentável. A vida real é feia. E ninguém faz filme ou série para não se visto. Reelaborar a realidade é um dos papéis da ficção. Sei disso. Porém, estamos em 2020. Nossa cota de ‘fadinhas’ mágicas que chegam para nos salvar dos jaburus do preconceito ou da discriminação se esgotou.

Festa de Formatura Netflix 2020

DÉCIMA: ‘Baile de Formatura’ soa como edificante e com uma proposta até otimista, desses que alegram e despertam a esperança de que, ‘um dia não existirá mais preconceito nas escolas e que todos serão aceitos como são, sejam LGBTQ+, gordos, pretos, PNE, estrangeiros, etc. Porém, como tudo soa exagerado, fora do plumo e caricato, não emociona. A gente percebe quando querem nos enganar. Parece um conto de fadas que foi tão reinterpretado tantas vezes que perdeu sua essência original.

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