O belo e melancólico Nomadland

Fern é uma mulher de meia idade que viaja pelo meio oeste americano a bordo de uma Van. Nessa trajetória, se emprega em vagas temporárias. Com a mudança das estações, segue o caminho onde encontrará amigos de estrada. Sentam-se em volta de fogueiras, dividem a comida e alimentam-se com as histórias de vida de cada um. Eles nunca dizem ‘Adeus’. Dizem ‘Nos encontramos na estrada’.

São nômades. Pessoas que não tem endereço fixo. A casa é veículo no qual transportam o suficiente para sobreviverem, além de eventuais itens que alimentam a memória de algo bom do passado, como fotos, pratos, xícaras, etc.

São pessoas que abandonaram uma vida convencional e partiram em busca de um sentido da vida pelas estradas dos EUA. São os representantes do oposto do ideal do ‘sonho americano’ – fórmula muito bem alimentada por Hollywood e a poderosa indústria da publicidade americana.

Eles não querem casas em condomínios fechados, empregos formais, vínculos ou laços que os prendam ao conceito que as sociedades modernas chamam de ‘vida normal’. Não ligam para status, nem se as roupas estão novas ou velhas. Mas se preocupam com a higiene, pois em cada parada do veículo, procuram lavanderias. Também utilizam os banheiros de postos de gasolina para cortar ou tingir o cabelo.

Alguns são aposentados. Outros sobrevivem com os trabalhos sazonais. Em alguns casos, no vai e vem, retornam aos empregos anteriores na próxima estação.

No caso, Fern ficou viúva, mas se recusa a tirar a aliança do dedo esquerdo. Ela gosta de manter uma memória muito forte do marido. Carrega uma dor por acreditar que poderia ter feito mais quando ele estava doente.

É sobre sua vida e de outras pessoas que o surpreendente Nomadland transita. Com direção, montagem, co-produção e co-roteiro da chinesa Chlóe Zhao, o filme foi premiado no Festival de Veneza, está ganhando os prêmios da crítica americana e sua presença está garantida entre os indicados no Globo de Ouro, SAG Awards e Oscar 2021.

É uma bela e melancólica obra que foge do caminho convencional do cinema americano clássico. Trata-se de uma estória sobre pessoas que optaram por um modelo de vida distante do que estamos acostumados. Admito grande admiração, mas não tenho coragem para segui-lo. Não sou desprendido a tal ponto.

Em ‘Nomadland’, os personagens não vivem grandes dramas nessa escolha. Mesmo quando a morte chega – no caso de uma das colegas de Fern, ela é tratada com respeito e ainda ganha uma especial de cerimônia final.

Não imagino melhor atriz para interpretar Fern do que a grande Frances McDormand. Ela é uma Atriz. Não é uma estrela.

Explico: ela está preocupada com sua atuação e não em seguir a cartilha determinada desde que Hollywood inventou o sistema das estrelas em 1911 com o surgimento das primeiras revistas sobre a vida das celebridades. Tem uma vida pessoal discreta (casada com o diretor Joe Cohen desde 1984). Assumiu há muitos anos suas rugas. Não tem nada botocado. Recusa-se a usar maquiagem. Manter o mesmo corte de cabelo há décadas. Não badala. Não se preocupa com a marca das roupas que usa nos antigos tapetes vermelhos em épocas de premiação.

E não pense que ela adotou esse estilo de vida em 2020. Desde que ganhou seu primeiro Oscar em 1997 por ‘Fargo’ – ganhou o segundo com ‘Três Anúncios Para um Crime, em 2018 – Frances já mostrava que ‘era fora da curva’.

Também não é o nome que vemos nas listas dos ‘favoritos’ do cinema. Como disse, é uma outro tipo de atriz.

Outro diferencial dela em relação a boa parte de suas colegas de profissão é uma afiada escolha de personagens que também não seguem o baile. Especializou-se em retratos de mulheres ‘normais’ e com grande força interior.

Aqui, ela tem uma atuação discreta e firme. Não tem a ‘cena’ – aquela escolhida para ser exibida na hora do anúncio do seu nome no Oscar. Porém, sua presença e força dramática garantem a veracidade de sua composição.

É uma grande atriz num belíssimo filme.

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close