Um ícone do cinema mudo chamado Louise Brooks

Louise Brooks foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Dona de uma beleza incomum, ela era dotada de uma personalidade forte. Numa época no qual a maioria dos atores e atrizes tornavam-se submissos, mal pagos e frequentemente maltratados pelos estúdios, Louise não aceitava as normas vigentes e incomodou os poderosos de  Hollywood.
Mary Louise Brooks fez 24 filmes entre 1925 e 1938. Fora ‘A Caixa de Pandora’, poucos conhecem sua filmografia. Por outro lado, sua imagem… E seu corte de cabelo… Tornaram-se um ícone, quando se pensa nos anos 20.
Num mundo no qual a tecnologia de informação transforma gente comum e sem qualquer talento em celebridades, é incrível observar como uma atriz do cinema mudo (1894 a 1929) mantem sua imagem popular, a ponto de competir com personagens atuais.
Quando questionados sobre isto, os relatos os fãs são semelhantes. Um diz ter encontrado uma foto de um desconhecida em uma loja de antiguidades, entre tantas outras, e não resistiu em comprar e tentar descobrir quem era a garota. Outro diz que cresceu enfeitiçado por uma fotografia que seu pai tinha colada na parede da sala, e que, após adulto, não descansou até descobrir quem era.

A Caixa de Pandora

Rodado na Alemanha, A Caixa de Pandora é considerado um clássico. Em Berlim, o rico dono de jornal Dr. Schön desiste de se casar com uma dama aristocrática, para se enroscar com a bela e amoral dançarina Lulu (Louise Brooks). Numa crise de ciúme, ele se atraca com Lulu e durante a briga, uma arma dispara, matando-o. Condenada pelo crime, Lulu foge com o filho do marido morto, Alwa – também apaixonado por ela. Eles vão para Marselha, onde Alwa torna-se jogador e alcoólatra. O ginasta Rodrigo (Krafft-Raschig), que viajou com os dois, ameaça delatá-la à polícia e é morto pelo protetor e empresário de Lulu, com a ajuda da condessa Geschwitz (Alice Roberts), outra apaixonada pela dançarina. De Marselha, Lulu, Alwa e Schigolch fogem para Londres. O filme tem direção de G. W. Pabst.

Do sucesso ao ostracismo

Louise nasceu em 14 de novembro de 1906, no Kansas, EUA. Aos quatro anos estava no palco de sua cidade. Aos 15, decidiu ir sozinha para New York, e uniu-se à  Denishaw Dance Company, principal companhia de dança moderna americana.
Em 1923 participou de diversas apresentações nos Estados Unidos e Canadá. Em 1925 uniu-se ao grupo Ziegfeld Follies, onde conquistou posição de destaque, e fez seu primeiro filme chamado ‘The Street of Forgotten Men’.
Depois de assinar um contrato de cinco anos com a Paramount Pictures, mudou-se para Hollywood, em 1927, onde participou de várias películas.
Em 1928, após o produtor B.P.Schulberg lhe negar um aumento, ela partiu para Alemanha a convite do diretor G.W.Pabst para filmar A Caixa de Pandora.
No final daquele ano, Hollywood dava os primeiros passos para o Cinema Falado. De volta, ela foi convocada a dublar seu personagem em ‘Canary Murder Case’, por US$10.000. Ela recusou e a Paramount não lançou o filme. Em retaliação, seu nome foi banido dos estúdios de Hollywood.
Entre 1929 e 1938 participou de poucas produções na Europa e Estados Unidos. Em 1943 voltou à New York e trabalhou na radio CBS. Nos anos seguintes, tornou-se vendedora da loja Sak’s Fifth Avenue.
Em 1948 começou a escrever sua biografia. No seu término, seis anos depois, jogou fora o material. Frustrada, ela justificaria dizendo que

“Ao escrever a história de uma vida acho que o  leitor não pode entender a personalidade e os feitos de uma pessoa, a menos que sejam explicados os amores, ódios, e conflitos sexuais dessa pessoa. Não estou disposta a escrever a verdade sexual que tornaria minha vida digna de ser lida.”

Apesar disto, começou a dedicar exclusivamente à literatura. Seu livro ‘Lulu in Hollywood’ tornou-se um best seller.
Com poucos amigos, Louise teve uma vida reclusa, principalmente porque sofria de uma artrite deformante.
Faleceu no dia 8 de agosto de 1985, aos 87 anos de idade.

Exposição

Em 1955, na exposição 60 Anos de Cinema realizada no Museu de Arte Moderna de Paris, um imenso pôster de Louise foi colocado bem na entrada.
Quando perguntaram ao diretor da Cinemateque Française, Henri Langlois, o motivo de ser Louise no lugar de Greta Garbo ou Marlene Dietrich, atrizes bem mais populares, ele respondeu:

“Não existe Garbo. Não existe Dietrich. Existe apenas Louise Brooks”.