Primeira mulher negra a escrever um livro é celebrada no Carnaval da Viradouro

Nascida em data incerta no litoral do Golfo do Benim, na terra de Courá, Rosa Courana foi escravizada e vendida aos traficantes de escravos, sendo desembarcada no Rio de Janeiro em 1725, aos seis anos de idade.
Viveu durante oito anos em condição de cativeiro no Rio de Janeiro, quando foi estuprada pelo dono e “tratada torpemente”, vendida para uma compradora em Minas Gerais no ano de 1733, quando estava com 14 anos. Sua proprietária passou a ser Dona Ana Garcês de Morais, que vivia nas proximidades de Mariana. Ali permaneceu por 20 anos, no qual também se prostituiu, entregando o corpo aos escravos que trabalhavam na extração do ouro.
Próximo dos 30 anos, Rosa contraiu uma enfermidade que lhe provocava dor atroz que a prostrava no chão. Começou a ter alucinações.
Por volta de 1748 vendeu seus parcos bens – joias e roupas amealhadas com a venda do corpo e distribuiu tudo aos pobres. Começou a frequentar missas e liturgias e ganhou fama de profetisa em Mariana, Ouro Preto, São João del Rei e depois no Rio de Janeiro, para onde ela foi em 1751.
Renomeou-se Rosa Maria Egipciaca da Vera Cruz em homenagem a Santa Maria Egípcíana, que segundo a lenda, também foi prostituta antes das manifestações de Santidade.
Rosa vivia acompanhada do padre Francisco Gonçalves Lopes, conhecido como padre Xota-Diabos (Enxota-Diabos) por ser exorcista, que se tornou o seu confessor. Era admirada por populares e mesmo alguns membros da igreja, afirmava ter visões do Menino Jesus em êxtase, e profetizava acontecimentos futuros, como um provável terremoto que iria ocorrer no Rio de Janeiro à semelhança do que estremeceu Lisboa em 1750.

Detalhe da pintura de Rosa Egipcíaca feita pelo artista Galindo – Acervo Luiz Mott

Ela escreveu um livro com 250 folhas chamado “Sagrada teologia do amor de Deus luz brilhante das almas peregrinas”, no qual descreve a experiência sensorial de contato com Jesus Menino, de quem recebera o título e o encargo de ser Mãe de Justiça. Ela própria seria a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo.
Ao mesmo tempo, realizava sessões de culto religioso, que mesclavam elementos do misticismo cristão com práticas afro-brasileiras, com direito a danças em torno do altar e o uso de pitar cachimbo.
Por essas e por outras, a Igreja Católica considerou herege e falsa santa. Foi denunciada pelo Bispo do Rio de Janeiro ao Tribunal da Inquisição de Lisboa em 1762. Acabou sendo presa e enviada com o padre para Lisboa, onde permaneceu na prisão do Santo Ofício até o ano seguinte. O processo foi encerrado em 1765, não sendo identificada a pena aplicada.
Por isso, seu nome foi esquecido até que, recentemente sua memória foi resgatada pela cultura popular e agora se torna o tema do Carnaval 2023 da Escola de Samba Viradouros, do Rio de Janeiro.

“Rosa Maria Egipciaca foi uma mulher muito importante para a história, a religiosidade e a memória do povo afrodescendente. Celebrá-la na Avenida é uma forma de honrar todo esse legado”, contou assessora de Geografia do Sistema Positivo de Ensino, Rafaela Dalbem.