Como Mary Pickford “comprou” seu Oscar de Melhor Atriz em 1930

A história do Oscar é repleta de injustiças e polêmicas, mas nenhuma supera o precedente aberto na segunda edição da cerimônia, em 1930.
Conhecida como a Namorada da América, Mary Pickford ganhou o prêmio de Melhor Atriz pelo filme Coquette, em uma vitória que historiadores, acadêmicos e críticos de cinema classificam como o primeiro grande lobby bem-sucedido da premiação.

Cerimônia do Oscar 1930 @ Gemini

Naquela época, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood era uma organização pequena e fechada. Pickford não era apenas uma estrela, ela era uma das fundadoras da instituição e casada com Douglas Fairbanks, o primeiro presidente da Academia.
Essa proximidade com o poder foi o combustível para uma estratégia que mudaria as regras do jogo para sempre.

O Chá na Mansão Pickfair

Mary Pickford 1920 @ Nelson Evans

Ao contrário do sistema atual, que conta com milhares de votantes, os vencedores de 1930 eram decididos por um grupo seleto de apenas cinco pessoas: o Conselho Central de Juízes. Ciente disso, Mary Pickford utilizou sua influência social para garantir a estatueta. Ela convidou os juízes para um chá privado em sua lendária mansão, a Pickfair, em Beverly Hills.
O encontro não foi apenas social. Tratou-se de uma manobra de relações públicas agressiva para promover uma atuação que a crítica da época considerava inferior às de suas concorrentes.
Pickford, que estava em plena transição do cinema mudo para o falado, desejava o prêmio para legitimar sua nova fase na carreira. Deu certo. Venceu o Oscar de Melhor Atriz, derrotando Ruth Chatterton e Bessie Love, que gerou uma onda de indignação na indústria estadunidense.

O Legado da Polêmica

Oscar 1930 George Arliss, Conrad Nagel, Mary Pickford e Warner Baxter @ A.M.P.A.S.

A repercussão foi tão negativa que a Academia precisou agir rapidamente para não perder sua credibilidade. A partir da terceira cerimônia, o sistema de pequenos comitês foi extinto. A vitória de Mary Pickford, portanto, se tornou o marco zero das campanhas de Oscar, sendo a razão pela qual as regras de votação foram democratizadas para evitar que grandes magnatas e estrelas influentes pudessem “ditar” os vencedores em reuniões privadas.

E valeu a pena a tramoia?

Mary Pickford em Coquette, 1928 @ Alexander Kahle

A vitória controversa no Oscar não serviu como o fôlego que Mary Pickford esperava para sua trajetória nas telas. Na verdade, o episódio marcou o início de um declínio artístico, provando que nem todo o poder de Hollywood poderia forçar o público a aceitar sua nova imagem na era do cinema falado.
Para estrelar Coquette, Mary cometeu o que muitos historiadores de moda e cinema consideram um erro estratégico fatal para sua marca pessoal: ela cortou seus famosos cachos.
Conhecida como “a garota dos cachos”, sua identidade visual era sinônimo de inocência e juventude vitoriana. Ao adotar um corte curto e moderno para o filme, ela chocou seus fãs. A mudança física, somada à polêmica da estatueta comprada, criou uma barreira entre ela e os espectadores estadunidenses.

Mary Pickford, Johnny Mack Brown e John St. Polis em Coquette, 1928 @ Alexander Kahle

A transição para o som foi cruel. Embora Mary tivesse uma boa voz, o público não conseguia mais enxergá-la nos papéis de “menina ingênua” que a tornaram a mulher mais rica do mundo. Suas tentativas seguintes de se reinventar no cinema foram sucessivos fracassos de bilheteria e crítica.
Tentou emplacar produções como Kiki em 1931 e Secrets em 1933. Ambas as produções foram recebidas com frieza.
No último, com direção de Frank Borzage, Mary percebeu que a nova geração de atrizes, como Katharine Hepburn e Greta Garbo, trazia uma sofisticação e um naturalismo que ela, presa aos maneirismos do cinema mudo, não conseguia replicar.
Diante da rejeição e de críticas que chamavam suas atuações de datadas, Mary Pickford se aposentou como atriz aos 41 anos. Ela preferiu retirar-se de cena antes que sua imagem fosse completamente destruída por papéis irrelevantes.

A Ascensão da Magnata dos Bastidores

Mary Pickford encontrava-se na Europa para recuperar alguns dos seus filmes antigos para um museu de Hollywood, 1964 @ AP Wirephoto – Associated Press

Você pensa que ela ‘deitou’? Nada disso! Como uma das fundadoras da United Artists (ao lado de Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith), ela continuou a exercer um poder imenso como produtora e executiva.
Ela passou a focar na gestão de estúdio, na distribuição de filmes e em investimentos imobiliários. Sua fortuna permaneceu intacta e ela continuou sendo uma das figuras mais respeitadas na administração de Hollywood até vender sua parte na United Artists em 1956 por US$ 3 milhões (no valor atualizado, aproximadamente US$ 36 milhões). Na época, era uma fortuna considerável, que garantiu uma estilo de vida luxuoso.

Mary Pickford no filme Pollyanna, 1920 @ Charles Rosher

Por outro lado, seus anos finais foram marcados pelo isolamento na mansão Pickfair. Ela se tornou uma figura reclusa, raramente aparecendo em público e lidando com o vício em álcool, o que muitos biógrafos atribuem à dificuldade em aceitar o envelhecimento e o fim de sua era como a estrela número um do mundo.

Sua última grande aparição foi justamente para receber o Oscar Honorário em 1976, em uma transmissão gravada de sua casa.
O prêmio era um acordo de paz com a Academia, que decidiu “mudar” a imagem da “mulher que comprou o Oscar” para a “pioneira que construiu Hollywood”.

Fontes que Comprovam a Revelação

Diversos autores e pesquisadores documentaram esse episódio, expondo as entranhas da votação e o impacto que a vitória de Pickford teve na reestruturação da Academia.
Scott Eyman (Biografia “Mary Pickford: America’s Sweetheart”): O autor detalha como a atriz era obcecada pelo reconhecimento da Academia e descreve as táticas de bastidores utilizadas por ela e Fairbanks para garantir que os juízes fossem favoráveis ao seu desempenho em Coquette.
Mason Wiley e Damien Bona (Livro “Inside Oscar”): Considerada a bíblia da história da premiação, a obra relata abertamente o escândalo do chá em Pickfair e como a comunidade cinematográfica reagiu negativamente à escolha, que parecia mais um prêmio de “amizade” do que de mérito.
Eileen Whitfield (Biografia “Pickford: The Woman Who Made Hollywood”): A historiadora analisa o peso político de Pickford e confirma que a vitória foi um esforço coordenado de lobby, evidenciando que a performance em si não sustentava o prêmio.
Bruce Davis (Livro “The Academy and the Award”): O ex-diretor executivo da Academia explora os registros oficiais e explica que o clamor público e a desconfiança gerada por essa vitória forçaram a instituição a mudar o sistema de votação para “um membro, um voto” já na edição seguinte.
David Thomson (Crítico e Historiador): Em diversos ensaios sobre a era de ouro de Hollywood, Thomson aponta que a atuação de Pickford em Coquette é um dos exemplos mais gritantes de como o poder pessoal podia sobrepor-se à qualidade artística nos primórdios da indústria estadunidense.

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