A história do Oscar é repleta de injustiças e polêmicas, mas nenhuma supera o precedente aberto na segunda edição da cerimônia, em 1930.
Conhecida como a Namorada da América, Mary Pickford ganhou o prêmio de Melhor Atriz pelo filme Coquette, em uma vitória que historiadores, acadêmicos e críticos de cinema classificam como o primeiro grande lobby bem-sucedido da premiação.

Naquela época, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood era uma organização pequena e fechada. Pickford não era apenas uma estrela, ela era uma das fundadoras da instituição e casada com Douglas Fairbanks, o primeiro presidente da Academia.
Essa proximidade com o poder foi o combustível para uma estratégia que mudaria as regras do jogo para sempre.
O Chá na Mansão Pickfair

Ao contrário do sistema atual, que conta com milhares de votantes, os vencedores de 1930 eram decididos por um grupo seleto de apenas cinco pessoas: o Conselho Central de Juízes. Ciente disso, Mary Pickford utilizou sua influência social para garantir a estatueta. Ela convidou os juízes para um chá privado em sua lendária mansão, a Pickfair, em Beverly Hills.
O encontro não foi apenas social. Tratou-se de uma manobra de relações públicas agressiva para promover uma atuação que a crítica da época considerava inferior às de suas concorrentes.
Pickford, que estava em plena transição do cinema mudo para o falado, desejava o prêmio para legitimar sua nova fase na carreira. Deu certo. Venceu o Oscar de Melhor Atriz, derrotando Ruth Chatterton e Bessie Love, que gerou uma onda de indignação na indústria estadunidense.
O Legado da Polêmica

A repercussão foi tão negativa que a Academia precisou agir rapidamente para não perder sua credibilidade. A partir da terceira cerimônia, o sistema de pequenos comitês foi extinto. A vitória de Mary Pickford, portanto, se tornou o marco zero das campanhas de Oscar, sendo a razão pela qual as regras de votação foram democratizadas para evitar que grandes magnatas e estrelas influentes pudessem “ditar” os vencedores em reuniões privadas.
E valeu a pena a tramoia?

A vitória controversa no Oscar não serviu como o fôlego que Mary Pickford esperava para sua trajetória nas telas. Na verdade, o episódio marcou o início de um declínio artístico, provando que nem todo o poder de Hollywood poderia forçar o público a aceitar sua nova imagem na era do cinema falado.
Para estrelar Coquette, Mary cometeu o que muitos historiadores de moda e cinema consideram um erro estratégico fatal para sua marca pessoal: ela cortou seus famosos cachos.
Conhecida como “a garota dos cachos”, sua identidade visual era sinônimo de inocência e juventude vitoriana. Ao adotar um corte curto e moderno para o filme, ela chocou seus fãs. A mudança física, somada à polêmica da estatueta comprada, criou uma barreira entre ela e os espectadores estadunidenses.

A transição para o som foi cruel. Embora Mary tivesse uma boa voz, o público não conseguia mais enxergá-la nos papéis de “menina ingênua” que a tornaram a mulher mais rica do mundo. Suas tentativas seguintes de se reinventar no cinema foram sucessivos fracassos de bilheteria e crítica.
Tentou emplacar produções como Kiki em 1931 e Secrets em 1933. Ambas as produções foram recebidas com frieza.
No último, com direção de Frank Borzage, Mary percebeu que a nova geração de atrizes, como Katharine Hepburn e Greta Garbo, trazia uma sofisticação e um naturalismo que ela, presa aos maneirismos do cinema mudo, não conseguia replicar.
Diante da rejeição e de críticas que chamavam suas atuações de datadas, Mary Pickford se aposentou como atriz aos 41 anos. Ela preferiu retirar-se de cena antes que sua imagem fosse completamente destruída por papéis irrelevantes.
A Ascensão da Magnata dos Bastidores

Você pensa que ela ‘deitou’? Nada disso! Como uma das fundadoras da United Artists (ao lado de Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith), ela continuou a exercer um poder imenso como produtora e executiva.
Ela passou a focar na gestão de estúdio, na distribuição de filmes e em investimentos imobiliários. Sua fortuna permaneceu intacta e ela continuou sendo uma das figuras mais respeitadas na administração de Hollywood até vender sua parte na United Artists em 1956 por US$ 3 milhões (no valor atualizado, aproximadamente US$ 36 milhões). Na época, era uma fortuna considerável, que garantiu uma estilo de vida luxuoso.

Por outro lado, seus anos finais foram marcados pelo isolamento na mansão Pickfair. Ela se tornou uma figura reclusa, raramente aparecendo em público e lidando com o vício em álcool, o que muitos biógrafos atribuem à dificuldade em aceitar o envelhecimento e o fim de sua era como a estrela número um do mundo.
Sua última grande aparição foi justamente para receber o Oscar Honorário em 1976, em uma transmissão gravada de sua casa.
O prêmio era um acordo de paz com a Academia, que decidiu “mudar” a imagem da “mulher que comprou o Oscar” para a “pioneira que construiu Hollywood”.
Fontes que Comprovam a Revelação
Diversos autores e pesquisadores documentaram esse episódio, expondo as entranhas da votação e o impacto que a vitória de Pickford teve na reestruturação da Academia.
Scott Eyman (Biografia “Mary Pickford: America’s Sweetheart”): O autor detalha como a atriz era obcecada pelo reconhecimento da Academia e descreve as táticas de bastidores utilizadas por ela e Fairbanks para garantir que os juízes fossem favoráveis ao seu desempenho em Coquette.
Mason Wiley e Damien Bona (Livro “Inside Oscar”): Considerada a bíblia da história da premiação, a obra relata abertamente o escândalo do chá em Pickfair e como a comunidade cinematográfica reagiu negativamente à escolha, que parecia mais um prêmio de “amizade” do que de mérito.
Eileen Whitfield (Biografia “Pickford: The Woman Who Made Hollywood”): A historiadora analisa o peso político de Pickford e confirma que a vitória foi um esforço coordenado de lobby, evidenciando que a performance em si não sustentava o prêmio.
Bruce Davis (Livro “The Academy and the Award”): O ex-diretor executivo da Academia explora os registros oficiais e explica que o clamor público e a desconfiança gerada por essa vitória forçaram a instituição a mudar o sistema de votação para “um membro, um voto” já na edição seguinte.
David Thomson (Crítico e Historiador): Em diversos ensaios sobre a era de ouro de Hollywood, Thomson aponta que a atuação de Pickford em Coquette é um dos exemplos mais gritantes de como o poder pessoal podia sobrepor-se à qualidade artística nos primórdios da indústria estadunidense.
