Em “Maurice” (1987), o amor ousou dizer o seu nome

Existem obras que servem como marcos divisórios na história da representação LGBTQIAP+ na literatura e no cinema. Maurice ocupa um dos primeiros lugares dessa lista.

Sejam nas páginas escritas por E.M. Forster no início do século XX ou na lente sofisticada de James Ivory em 1987, a história de Maurice Hall é um manifesto de resistência: o direito de amar, de ser feliz e de não ser punido pelo destino.

Escrito entre 1913 e 1914, o romance acompanha Maurice Hall, um jovem da alta classe média inglesa que, ao ingressar na Universidade de Cambridge, descobre o amor quando conhece Clive Durham. O relacionamento entre os dois evolui para um amor romântico, porém platônico e intelectualizado, sufocado pelas rígidas normas da era eduardiana.
A virada ocorre quando Clive, após um colapso nervoso ao saber da prisão de um ex-colega de classe por comportamento ‘indecente’, decide sufocar sua paixão. Ele se casa com uma mulher e tranca seu desejo num armário com muitas chaves.
Maurice mergulha em uma tristeza profunda e tenta métodos de “reversão”, incluindo a hipnose. Contudo, é exatamenet na mansão de Clive e a esposa, Pendersleigh Park, que ele conhece Alec Scudder, o jovem guarda-caça da propriedade.
O romance que surge entre eles desafia tanto o tradicional sistema de classes britânico como a repressora moralidade sexual da era Eduardiana.

Livro Maurice @ Gemini

Edward Morgan Forster é um dos pilares da literatura inglesa. Autor de clássicos como “Uma Janela para o Amor”, “Retorno a Howards End” e “Passagem para a Índia”, ele sempre explorou as barreiras sociais e a dificuldade de conexão humana.
Porém, para escrever o romance “Maurice”, ele sabia que, na Inglaterra de sua época, publicar um livro onde um “pecado” não fosse punido com a morte ou a solidão seria considerado obsceno e criminoso.
Por isso, o manuscrito foi guardado até sua publicação em 1971. Detalhe: um ano após a morte de E. M. Forster. Ele tinha 89 anos.

Criação em IA de E. M. Forster e seu romance Maurice @ Gemini

Em 1913, Forster visitou o ativista e poeta Edward Carpenter em sua fazenda em Millthorpe. Carpenter vivia abertamente com seu companheiro George Merrill, um trabalhador rural.
Durante a visita, Merrill tocou levemente as costas de Forster, logo acima das nádegas. Forster relatou que aquele toque “penetrou em sua alma”.
Ver que dois homens de classes sociais tão distintas podiam viver uma vida de companheirismo doméstico e felicidade física deu a Forster a coragem de criar Maurice e Alec.
Carpenter era um visionário que defendia o “sexo intermediário” como uma ponte espiritual para a humanidade, vivendo uma utopia rural que desafiava a industrialização e a repressão vitoriana.

“Ó filho de Urano, errante por todos os tempos,
Contudo, pária e incompreendido pelos homens –
Vejo-te por onde, durante séculos, tens caminhado,
Ainda excluído, caluniado, apontado pela multidão.
O dia se aproxima em que, destas brumas das eras,
Tua forma, vestida em glória, reaparecerá”.
Poema de Edward Carpenter, que utiliza a figura de “Urano” para se referir ao homossexual, palavra proibida no século XIX.

Edward Carpenter e George Merrill @ Gemini

Em 1987, o diretor estadunidense James Ivory e o produtor indiano Ismail Merchant (que eram parceiros de vida e trabalho) decidiram adaptar o livro. Após o sucesso de “Uma Janela para o Amor”, a produtora tinha o prestígio necessário para levar um tema tão “arriscado” para o grande público com um orçamento de cinema de arte de primeira linha.
A produção foi marcada por mudanças de última hora. Julian Sands (que havia estrelado o filme anterior de Ivory) desistiu do papel de Maurice pouco antes das filmagens. James Wilby foi escalado às pressas e entregou uma performance de vulnerabilidade absoluta. Hugh Grant, então um jovem ator de teatro quase desconhecido, trouxe uma mistura de melancolia e medo necessária para Clive. Rupert Graves, com sua energia rústica, foi o Alec Scudder perfeito.

Cena do filme Maurice (1987) @ Reprodução

O filme retrata com precisão a repressão eduardiana. O “fantasma” de Oscar Wilde (condenado em 1895) pairava sobre os personagens. A lei vigente era a Emenda Labouchere de 1885, que criminalizava a “indecência grave” da vivência homossexual mesmo entre adultos consentidos em ambientes privados.

Filme Maurice (1987) @ divulgação

O filme foi um triunfo artístico. No Festival de Cinema de Veneza, James Ivory recebeu o Leão de Prata de Melhor Direção. Em um gesto histórico, o júri concedeu a Copa Volpi de Melhor Ator conjuntamente a James Wilby e Hugh Grant, reconhecendo que a química entre os dois era inseparável da narrativa. Foi indicado ao Oscar de Melhor Figurino.

James Wilby, Rupert Graves e Hugh Grant no filme Maurice (1987) @ Reprodução

Na vida real, a homossexualidade só deixou de ser crime na Inglaterra e no País de Gales com o Sexual Offences Act de 1967, mas apenas para maiores de 21 anos em vivência privada. A igualdade plena de idade de consentimento (16 anos) só viria em 2001 e o casamento igualitário em 2013/2014.

Ismael Merchant e James Ivory em 1963 @ Seth Joel

Um dos segredos da sensibilidade de Maurice reside no fato de que o filme ter nascido pelo interesse de outro casal que desafiou fronteiras: o diretor estadunidense James Ivory e o produtor indiano Ismail Merchant.
Parceiros de vida e de trabalho por 44 anos, eles fundaram a Merchant Ivory Productions em 1961 e formaram a parceria mais longeva do cinema independente mundial.
Diferente do romance de Forster, que nasceu da dor da repressão, o filme nasceu da solidez de um relacionamento real. Embora fossem discretos sobre sua vida privada — seguindo uma postura comum à sua geração —, Ivory e Merchant eram a prova viva de que a parceria entre dois homens podia ser a base de um império criativo de sucesso global.

Cartaz filme Maurice @ Gemini

No set de Maurice, essa vivência se traduziu em um olhar que buscava a naturalidade do afeto. James Ivory dirigia, enquanto Ismail Merchant viabilizava a produção, muitas vezes cozinhando para a equipe e criando um ambiente de “família” que permitia aos atores explorarem temas tão sensíveis com segurança e dignidade. A parceria do casal terminou com a morte de Merchant em 2005.
Em 2018, Ivory se tornou o mais velho vencedor de um Oscar competitivo pelo roteiro adaptado de “Me Chame pelo Seu Nome” . Ele estava com 89 anos.

James Ivory e Ismael Merchant em 2003 @ Evan Agostini – Getty Images

O legado de Maurice reside na esperança fundamentada na dignidade. Ele ensinou a gerações de jovens que não era necessário aceitar o papel de vítima. Através da união de Forster, Carpenter, Ivory e Merchant, a obra se tornou um cordão de isolamento contra o preconceito.
Enquanto a literatura e o cinema da época frequentemente retratavam o “homossexual” como uma figura sombria ou trágica, Maurice ofereceu o sol. Ele provou que a felicidade é um ato de subversão política.
Para as gerações atuais, as obras (livro e filme) permanecem como lembretes de que, mesmo nas sociedades mais injustas, a busca pela autenticidade e pelo amor verdadeiro é o que mantém nossa sanidade mental e nossa humanidade vivas.

Como o próprio Forster escreveu em seu manuscrito:

“Pois a vida em sociedade é muito injusta, mas o amor é a nossa resistência”.

Sua opinião

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.