O Grito de Edvard Munch

A arte moderna tem a sua própria Mona Lisa e ela não sorri placidamente. Ela grita. “O Grito” (Skrik, em norueguês), criado por Edvard Munch em 1893, abandonou o ideal renascentista de serenidade para definir visualmente a nossa era, uma época fragmentada pela ansiedade, incerteza e pela fragilidade da saúde mental.
A imagem de uma figura andrógina em pura agonia sob um céu cor de sangue transcendeu os museus para se tornar o símbolo universal do desespero existencial.

O Grito -Edvard Munch – 1893_@ Galeria Oslo

Para compreender a intensidade desta obra, é preciso olhar para as cicatrizes do seu criador. Edvard Munch teve uma infância profundamente marcada pelo trauma. Educado por um pai controlador e excessivamente religioso, o artista assistiu, ainda criança, à morte da sua mãe e, mais tarde, da sua irmã mais velha, ambas vítimas de tuberculose. Ele teve quatro irmãos.
A sombra da doença mental também assombrava a família. Laura, sua irmã favorita, foi diagnosticada com transtorno bipolar e acabou internada num asilo psiquiátrico. Os outros irmãos eram Peter, morreu de pneumonia aos 30 anos e Inger, a mais caçula, foi a única que teve vida longa. Nunca se casou e viveu até os 84 anos.
Este histórico familiar gerou em Munch um terror constante da insanidade. Decidido a exorcizar os seus demônios através da pintura, ele cortou relações com o pai e mergulhou na cena artística boêmia de Oslo. O alívio não veio. Envolvimentos amorosos tumultuados (incluindo um caso com uma mulher casada na década de 1890) e o abuso do álcool mantiveram a sua mente num estado de constante vulnerabilidade. A dor de Munch era crua e ele transformou esse sofrimento em um alfabeto visual pioneiro que abriu caminho para o Expressionismo alemão.

O Grito -Edvard Munch – 1893_@ Galeria Oslo

A inspiração exata para “O Grito” nasceu de um episódio real relatado por Munch no seu diário, durante o inverno de 1892 em Nice. Ele caminhava por uma estrada com dois amigos ao pôr do sol quando, de repente, o céu ficou “vermelho como sangue”. Exausto e tremendo de ansiedade, ele parou e apoiou-se na cerca, sentindo “um grito interminável atravessando a natureza”.
Antes de chegar à figura icônica que conhecemos, Munch tentou traduzir essa experiência na obra “O Desespero” (1892), onde um homem de cartola observa a paisagem.

Edvard Munch Desespero 1892 @ Domínio Público

Insatisfeito, ele mudou radicalmente a composição em 1893. O observador de cartola deu lugar a uma criatura sem gênero definido e com o rosto semelhante a uma caveira, que encara o espectador. Nasceu “O Grito”.
Um detalhe psicológico brilhante reside no plano de fundo. Os dois amigos de Munch continuam a caminhar de forma linear e indiferente. Esta é a representação máxima da solidão e da falta de comunicação na sociedade moderna. Enquanto um indivíduo é consumido por um pesadelo interno e pela dor mental, o mundo ao seu redor segue o seu curso normal, ignorando completamente o seu sofrimento.

O Grito – Edvard Munch – Versão de 1895 @ Domínio Público

A composição de “O Grito” é um campo de batalha entre a razão e a loucura. Munch utilizou as linhas longas e sinuosas típicas do estilo Art Nouveau, mas subverteu a sua função. O céu e a água fundem-se num fluxo orgânico e distorcido que parece querer engolir e obliterar a figura humana no primeiro plano. A criatura grita (ou tampa os ouvidos para o grito ensurdecedor da natureza) em agonia, quase assimilada por essa força incontrolável.
No entanto, há uma defesa. A ponte e a sua cerca são pintadas em perspectiva reta e rígida. Esta estrutura geométrica é a âncora de Munch no mundo racional e tridimensional. A cerca é a barreira psicológica que impede o artista de ser totalmente absorvido pela loucura subjetiva que domina o resto do quadro.
O próprio Munch reconhecia este perigo iminente. Numa das versões da obra, ele escreveu a lápis de forma quase imperceptível a confissão do seu maior medo: “Kan kun være malet af en gal Mand!” (Só pode ter sido pintado por um louco).

Embora a paisagem seja uma projeção do estado mental do artista, especialistas acreditam que as cores antinaturais do céu de Oslofjord tiveram um gatilho real. Existem duas teorias científicas principais para o fenômeno visual presenciado por Munch:
A Erupção do Krakatoa (1883): A megaexplosão vulcânica na Indonésia lançou cinzas e gases que deram a volta ao globo. Na Europa, esse fenômeno gerou crepúsculos de um vermelho intenso e assustador durante meses.
Nuvens Estratosféricas Polares: Uma pesquisa de 2017 sugere que as condições meteorológicas únicas da região podem ter formado este tipo raro de nuvem, que cria efeitos ópticos vibrantes e oníricos, causando grande impacto psicológico em quem as observa pela primeira vez.

O Grito – Edvard Munch – Versão de 1893 – Desenho a giz @ Domínio Público

A necessidade de expressar essa angústia rapidamente influenciou os materiais escolhidos pelo artista. A versão mais célebre em coleções particulares (de 1895) foi executada em pastel sobre cartão.
O pastel seco é um material feito de pigmentos quase puros. Diferente da pintura a óleo, que exige preparação e longos tempos de secagem, o pastel permite uma aplicação imediata, veloz e frenética, perfeita para capturar um ataque de pânico. O suporte escolhido (o cartão, espesso e poroso) oferece a textura ideal para segurar o pó do pastel, permitindo que as cores vibrantes se sobreponham sem se misturarem totalmente. Contudo, essa técnica tem um preço: a extrema vulnerabilidade. As obras originais reagem negativamente à luz e exigem rigoroso controle climático.

O Grito – Edvard Munch – Litografia 1895 @ Domínio Público

Munch produziu várias versões do tema para atender a clientes e para o seu próprio acervo, além de dezenas de litografias que popularizaram a imagem em revistas da época.
As quatro pinturas principais estão divididas:
Galeria Nacional de Oslo: Possui a versão mais antiga (1893), feita em têmpera e giz de cera sobre cartão. A têmpera seca de forma mais plana e opaca, o que dá à obra um tom levemente mais sombrio e denso. Ela carrega a famosa e quase invisível frase a lápis (“Só pode ter sido pintado por um louco”).
Museu Munch (Oslo): Guarda duas versões, sendo uma pintura (têmpera e óleo, provavelmente de 1910) e um desenho a giz (1893). O museu adota um sistema de rotação rigoroso para proteger estas peças frágeis da exposição contínua à luz.
Coleção Particular: A versão de 1895 (pastel sobre cartão) é a única fora de instituições públicas. O pigmento puro do pastel fez com que o céu ganhasse uma saturação absurda, com linhas vermelhas, laranjas e amarelas muito mais vibrantes, luminosas e frenéticas. Essa versão não possui a frase. Em compensação, o próprio Munch pintou a moldura de madeira da obra de 1895 e adicionou uma pequena placa contendo o poema original que ele escreveu em seu diário sobre a experiência do céu cor de sangue. É a única versão que une a imagem e o texto explicativo concebidos pelo próprio artista na mesma peça física.

Edvard Munch – 1889 @ Ludvig Forbech

Esta última versão fez história no mercado de arte. Em maio de 2012, foi arrematada num leilão por US$ 119,9 milhões (um valor que, corrigido pela inflação, ultrapassaria os US$ 168 milhões atualmente).
Logo após a venda, o comprador anônimo emprestou a obra para uma exibição histórica no museu estadunidense MoMA, permitindo que o público admirasse a sutileza visual de uma imagem que se tornou ubíqua.

De um reflexo íntimo sobre o luto e a sanidade a máscaras de filmes de terror e emojis nas nossas telas, “O Grito” continua a reverberar porque, no fundo, todos nós lutamos diariamente para nos mantermos do lado de cá da cerca.

Um comentário sobre “O Grito de Edvard Munch

  1. Excelente matéria, Jorge! Parabéns, adoraria compartilhá-la e minha página de arte! Vc é great!

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