A celebração do centenário de Marilyn Monroe acaba sendo um espelho do que a própria trajetória dela foi ao longo de seus breves 36 anos de vida. Trata-se de uma luta constante, quase cruel, entre a humanidade da artista e a voracidade da indústria que a transformou no produto mais lucrativo de Hollywood.
Intercalar essas visões é, talvez, a única forma de não deixar que a essência de Norma Jeane Mortenson se perca em meio aos relançamentos de luxo, paletas de maquiagem e coleções exclusivas que inundam o mercado global neste mês de junho de 2026.

É praticamente impossível debater a história da cultura pop sem esbarrar no sorriso platinado de Marilyn. Ela é a atriz mais famosa da história do cinema. Sua imagem transcendeu a sétima arte para se tornar um símbolo onipresente, eternizado pela pop art e replicado à exaustão ao longo de décadas.
O vestido branco esvoaçante sobre o respiradouro do metrô no filme O Pecado Mora ao Lado (1955) ou o cetim rosa choque entoando sobre diamantes em Os Homens Preferem as Loiras (1953) estão gravados no imaginário coletivo de uma forma que nenhuma outra estrela estadunidense conseguiu alcançar. Marilyn não era apenas uma atriz de sua época, mas a própria personificação do glamour do século XX.

Contudo, por trás da persona milimetricamente calculada da loira ingênua, havia uma mulher de inteligência ímpar e ambição artística profunda. Ela desafiou o opressivo sistema de estúdios da época, um ambiente estruturalmente machista que tentava mantê-la subjugada como um mero enfeite de tela.
Ao abandonar a Twentieth Century Fox para fundar sua própria produtora e ao se mudar para Nova York para estudar atuação com Lee Strasberg no lendário Actors Studio, Marilyn provou que ansiava por respeito e autonomia sobre sua própria arte.

Essa busca incessante por validação artística caminhava lado a lado com uma vida pessoal marcada por traumas agudos e abandono. A órfã que passou por diversos lares adotivos buscou a vida inteira por uma segurança emocional que seus casamentos midiáticos, com ícones como Joe DiMaggio e Arthur Miller, não conseguiram suprir.
A tragédia de sua saúde mental e a pressão insuportável de ser o maior símbolo sexual do planeta consumiram a mulher por trás do mito.
Norma Jeane sofria em absoluto silêncio nos bastidores enquanto Marilyn Monroe sorria radiante para os flashes, uma dualidade dilacerante que a tornou ainda mais fascinante aos olhos do público.

Hoje, ao atingir a marca histórica de um século de seu nascimento, vemos a implacável engrenagem do capitalismo girar com força total. O espólio da atriz é gerido como uma megacorporação, licenciando seu nome e seu rosto para absolutamente tudo, desde cosméticos e itens de decoração até questionáveis avatares de inteligência artificial interativos. Existe uma evidente fetichização de sua memória, onde o mercado se apropria de sua estética de forma fragmentada para vender uma nostalgia plastificada.

O mesmo sistema que a explorou e a exauriu em vida continua a lucrar bilhões com sua imagem póstuma, muitas vezes reduzindo sua complexidade humana a estampas de roupas de grife e leilões milionários de suas intimidades mais dolorosas.
Felizmente, nas instituições de preservação da sua memória, existe um esforço de resistência para manter o legado de Norma Jeane com a dignidade que ela sempre exigiu. Retrospectivas em cinematecas prestigiosas jogam luz sobre sua técnica impecável, sua paixão pela literatura e sua coragem em enfrentar os poderosos executivos dos estúdios.

Celebrar os 100 anos de Marilyn Monroe exige de nós um olhar mais atento, muito além do brilho ofuscante dos diamantes. É preciso enxergar a mulher pioneira, intensamente vulnerável e genial que, mesmo engolida por uma engrenagem voraz, conseguiu se eternizar como a força cultural mais inesquecível que o cinema já produziu.

Para compreender a magnitude de seu talento nas telas e o legado que deixou para a sétima arte, revisitamos as obras que definiram sua carreira. Abaixo, separamos os dez melhores filmes de Marilyn Monroe, destacando a versatilidade que a eternizou.
Os Desajustados (1961)
Seu último filme completo é uma obra melancólica e profunda, com roteiro de seu então marido Arthur Miller, onde ela entrega sua performance mais dramática e vulnerável.
Quanto Mais Quente Melhor (1959)
A comédia perfeita de Billy Wilder traz Marilyn no auge de seu tempo cômico e carisma, entregando uma das atuações mais lembradas da história do cinema.
O Príncipe e a Corista (1957)
Produzido por sua própria empresa, o filme a coloca frente a frente com Laurence Olivier, provando que ela conseguia dominar a tela ao lado de atores de formação clássica.
Nunca Fui Santa (1956)
Uma de suas primeiras grandes provas de talento dramático após estudar no Actors Studio, mostrando uma personagem complexa, cansada e sonhadora.
O Pecado Mora ao Lado (1955)
A obra que imortalizou a cena do vestido branco no metrô de Nova York e provou o imenso poder magnético de sua presença em tela para o mundo inteiro.
Os Homens Preferem as Loiras (1953)
O clássico que solidificou sua imagem de superestrela global, unindo números musicais inesquecíveis e um figurino que ditou a moda e a estética da época.
Como Agarrar um Milionário (1953)
Uma comédia leve e visualmente deslumbrante onde ela divide a tela com Lauren Bacall e Betty Grable, reforçando seu imenso apelo nas bilheterias.
Torrentes de Paixão (1953)
Um suspense clássico onde Marilyn interpreta uma mulher fatal, atestando que sua sensualidade também podia ser perigosa e carregada de tensão dramática.
O Segredo das Joias (1950)
Dirigida por John Huston, Marilyn tem um papel menor, mas fundamental, exibindo um magnetismo natural que chamou a atenção da crítica especializada.
A Malvada (1950)
Ainda no início da carreira, ela rouba as cenas em que aparece neste brilhante drama sobre os bastidores teatrais, mostrando que já possuía a aura de uma estrela.
